Os Onironautas: Parte II – Um pouco de Metafísica

Pouquíssimas pessoas percebem que “o mundo” no qual vivem e ao qual se referem só possui uma unidade meramente semântica e que eventualmente suas escolhas iniciam séries de eventos que dão origem a novos mundos inteiramente originais, completamente diferentes uns dos outros, mas que por alguma razão podem possuir intersecções, isto é, lugares ou eventos em comum. Talvez nem mesmo o melhor especulador metafísico tenha percebido que as coisas se passam assim desde o dia em que a humanidade ganhou consciência.

O que se entende por “realidade” é, no fundo, um máximo divisor comum dos mundos possíveis. Que as maçãs sempre caiam nas cabeças dos gênios e que eles descubram a lei da gravidade é quase que uma constante em todos os mundos. A Revolução Francesa, a Segunda Guerra Mundial e a chegada do homem a Lua, contudo, são eventos que dizem respeito à apenas uns poucos mundos possíveis, são fatos absolutamente contingentes e que soariam tão surreais aos habitantes de outros mundos quanto qualquer ficção fantástica de nosso mundo. Isso acontece porque algumas escolhas têm força suficiente para criar séries de eventos completamente verossímeis em algumas pequenas comunidades, mas jamais seriam dignas de crença em outras. Assim a realidade se organiza em “bolhas” que obedecem certos padrões válidos para aquele mundo e não para outro.

Ora, se as coisas funcionam dessa maneira desde a aurora da consciência humana, é possível supor que existam tantos mundos quanto existem os indivíduos, mas seria um exagero e um equívoco, pois há tantos e tantos mundos possíveis tão cheios de indivíduos que é completamente impossível mensurar quantas almas individuais existem ou poderiam existir. Assim como há mundos completamente distintos e que só podem ser considerados “humanos” por força de algumas leis muito gerais (como a gravidade), há mundos praticamente gêmeos que não são um só por razões completamente desconhecidas. Vale dizer que Sigmund e Victória não habitavam o mesmo mundo, mas mundos quase gêmeos. Mundos em que a Revolução Russa inicia o processo que termina com a queda do Muro de Berlim e onde a bomba atômica arrasou cidades japonesas em 1945. Contudo, ainda que o mesmo Robespierre nomeasse ruas francesas, Sigmund e Victória viviam em mundos onde a Rua Robespierre ligava pontos completamente diferentes. Como o curso de psicologia não ficava na Rua Robespierre, eles não perceberam que cada vez que se encontravam, criavam um espaço de instabilidade ontológica através do qual dois mundos entravam em contato. Mais do que isso, eram completamente cegos para a força de seus espíritos: suas escolhas poderiam ter uma força tal que poderia facilmente determinar o destino de um mundo inteiro.

A força das escolhas era, aliás, o tema da primeira aula do professor Montserrat. Psicanalista renomado, Montserrat substituía a idéia de uma dimensão inconsciente por um conceito existencialista de liberdade, e encantava seus alunos falando de angústia e responsabilidade, em uma linguagem virtualmente imune à qualquer tipo de ataque ou crítica. Sigmund e Victória assistiam essa primeira aula tomados pela sensação de que estavam participando de algo realmente grandioso.

– Vocês serão muito perspicazes se perceberam que falar em liberdade é falar de um absurdo. Kant não conseguiu justificar seu postulado da liberdade: se o mundo é um sistema fechado de causa e efeito, como é possível pretender que o homem, que participa do mundo, seja livre? Dizer que a liberdade é um “fato da razão” é não dizer nada. A própria psicanálise de Freud já nasce emaranhada nesse problema conceitual: o paciente fala de angústias que obedecem processos inconscientes que as determinam, mas o psicanalista deveria ser uma entidade de ordem superior no qual a ordem da realidade se inverte e a consciência detém poder sobre o inconsciente? Sartre admitirá que a existência é um absurdo e que a liberdade possui um ser de outro tipo que tudo o mais, mas não poderá se livrar do problema das “duas causalidades” que nos acompanha desde Descartes: coisas causam efeito sobre coisas e pessoas causam efeitos sobre coisas, embora coisas não exerçam efeitos sobre pessoas. Postulados injustificados por trás de todas as idéias de liberdade. Idéia sem a qual, porém, e é o que pretendo mostrar para vocês, é impossível compreender a condição humana.

O sujeito era alto, magro, usava um penteado estrategicamente desalinhado e parecia bastante jovem. E desde o primeiro dia já havia percebido algo de especial em Sigmund e Victória, demonstrado sua absoluta predileção por aquele par de alunos que trocavam sorrisos de compreensão mútua do fundo da sala. Como as aulas eram noturnas e uma delas era precisamente na noite de sexta-feira, o professor Montserrat não hesitou em estender à Sigmund e Victória o convite que sempre fazia à uma meia-dúzia de alunos: acompanhá-lo até seu consultório, em sua casa, e continuar a aula ao sabor de um bom vinho para, depois, irem todos até o clube gótico no qual ele próprio eventualmente se apresentava com sua banda. Desnecessário dizer que o casal acompanhou o professor sem hesitar.

(continua…)

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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Uma resposta para Os Onironautas: Parte II – Um pouco de Metafísica

  1. Sieglynnd Stockhausen; disse:

    A tempestade que ontem estava pra destruir Santa Maria, chegou na minha cidade com algumas horas de atraso. Acordei com um daqueles trovões que fez meu quarto de casa de vila vibrar todo. Agora nuvens cinzas e espessas descolorem o céu e Guarapuava então volta pra sua cor natural. Eu deveria estar estudando, mas resolvi verificar as atualizações do blog e tudo isso, é claro, ao som de Shoegaze. Nessas condições fica difícil não pensar no trailer, nos aparelhos noventistas, nas xícaras de café e nos cigarros que eu gostaria de estar fumando com a melhor companhia do mundo.
    E sinceramente lamento por Montserrat, ele é um personagem muitíssimo interessante.

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