Os Onironautas: Parte III – O consultório do Dr. Montserrat

Quando Sigmund e Victória visitaram o consultório de Montserrat pela primeira vez, em uma noite de sexta-feira, não estavam sozinhos, mas acompanhados de outros alunos que aparentemente já haviam sido companhia do psicólogo em outras noites. O consultório era agradável e lembrava um pouco o consultório do próprio Freud. O divã, contudo, ao invés de ser estampado com temas abstratos era revestido de couro preto. Havia pelo menos três estantes cheias de livros que chamavam mais atenção por sua encadernação fina e de bom gosto do que por seus títulos. Um sem número de títulos de literatura – incluindo coleções completas de Dostoievski, Kafka e Flaubert – parecia ser mais importante do que qualquer outra coleção, como as obras completas de Freud, por exemplo. A mesa de Montserrat era adornada por mais alguns livros, bem como por um cachimbo que foi sacado, enchido e aceso pelo próprio tão logo quanto chegaram no recinto. Um busto em mármore branco do filósofo alemão Schopenhauer olhava os presentes com seu ar severo. Ao acender o cachimbo, Montserrat abriu a janela atrás de sua mesa e foi possível ver o céu noturno, limpo e estrelado. Os presentes se acomodaram em poltronas e uma das alunas – uma moça loira – acomodou-se no divã, pedindo um cinzeiro e acendendo um cigarro. Um dos rapazes surgiu com duas garrafas de vinho e serviu os presentes. O ambiente era ameaçador, de tão acolhedor. Sigmund e Victória se sentaram um ao lado do outro, em um sofá de dois lugares.

O tema desse primeiro encontro foi um assunto que segundo o próprio Montserrat era um tema inapropriado para encontros estritamente acadêmicos. Queria apresentar para seus alunos a teoria dos sonhos lúcidos. Ora, se a realidade humana se estabelece em uma região metafísica de liberdade, nenhum ato humano poderia ser determinado, seja por forças exteriores ou interiores. Assim, como qualquer ato humano, o sonho seria uma manifestação da liberdade humana. Ao sonhar, uma pessoa não poderia estar em estado inconsciente, pois sempre é possível se lembrar dos próprios sonhos – e não é possível lembrar-se daquilo do que não se está consciente. Ao ouvir essa teoria, Victória pediu mais explicações, porque a idéia parecia forçada e inverossímil.

“A noção tradicional de inconsciente…”, dizia Montserrat, sem afastar muito o cachimbo dos lábios. “… É a idéia de que existe uma dimensão do ser humano que funciona sozinha. Isto não poderia estar errado, pois o coração humano bate a despeito da escolha humana. Só que esse inconsciente pode até ser a causa de tudo o que uma pessoa faz, mas se é assim, está tão profundamente enraizado em trevas que é impossível encontrar a equação das forças inconscientes que governam uma ação. Em última instância, tudo o que temos é a consciência. Tentar explicar um sonho por suas influências inconscientes é tão útil quanto querer explicar uma ação humana por influências sobrenaturais, de espíritos ou qualquer coisa parecida…”. Montserrat falava com uma irônica satisfação enquanto belas nuvens de fumaça desenhavam-se a partir do seu cachimbo, escapando para as trevas da noite.

“Tudo bem…”, disse Victória, indiferente à ironia de Montserrat. “Mas se estamos dormindo e sonhando, as coisas que se nos apresentam não são reais. Não obstante as tomamos como se fossem reais, por mais absurdas que sejam, por mais distintas que sejam de nossa vida cotidiana. Isso tem que ter uma explicação e você parece estar sugerindo que nós mesmos escolhemos o conteúdo dos sonhos…”.

“Evidentemente há uma explicação…”, disse Montserrat e era possível ver a admiração que o professor inspirava em seus alunos que bebericavam vinho. “Mas essa explicação precisa ser inconsciente? O que acontece durante o sonho é um fenômeno muito comum e que acontece quando estamos despertos também. Chama-se imaginação. E a imaginação, como ato da mente humana, é livre de qualquer determinação, seja inconsciente ou sobrenatural. Não concorda?”.

“Quando estou acordada não confundo minhas ficções com as coisas reais.”

“Então você não sabe imaginar com força…”, e riu. E os alunos riram – exceto por Sigmund e ela própria, que sentiram uma ponta de constrangimento. Montserrat parecia pedante e desagradável quando instalado em seu próprio terreno. Mas talvez fosse prudente esperar o encontro dessa noite acabar para, no máximo, evitar o próximo. Contudo, Montserrat propôs uma experiência: hipnotizar Victória.

Victória aceitou. Sigmund ficou completamente apreensivo. Era possível ouvir o chiar do fumo do cachimbo no silêncio que se estabeleceu naquela sala. A luz da lua fazia Montserrat não ser mais do que uma sombra de si mesmo, sem contornos. Em movimentos lentos e calculados, o professor deixou o cachimbo no suporte e em passos que pareciam intermináveis, aproximou-se do sofá onde estava o casal. Pediu licença à Sigmund, para que este se afastasse de Victória por alguns instantes. Em tom jocoso Sigmund disse que se afastaria se Victória quisesse. Antes da resposta de Victória, Montserrat olhou profundamente nos olhos de Sigmund e disse “Dê-nos licença.”.

Sigmund obedeceu. Foi para a janela. Montserrat fitou fixamente os olhos de Victória, atrás das grossas lentes dos óculos.

“O que vou lhe mostrar agora é algo que você não vai esquecer, e que lhe ensinará algo fundamental sobre o ser humano. O sonho é possível porque confundimos imaginação com percepção. E essa confusão só acontece porque é da natureza da consciência humana a possibilidade de enganar a si mesma. Agora, você vai imaginar com mais força do que jamais o fez em toda a sua vida. Quando eu disser três, você fechará os olhos e seguirá com plena obediência as sugestões que me ouvir proferir, bem como responderá a todas as minhas perguntas. Percebe como está relaxada? Mais relaxada do que jamais esteve? Agora você vai fechar os olhos… Um… Dois… Três.”

Victória estava de olhos fechados. Montserrat olhou para todos os presentes com um meio sorriso, e Sigmund sentiu sua espinha enregelar quando os olhos do professor encontraram os seus. Tinha vontade de pedir para aquela brincadeira parar, embora achasse que seu medo era uma reação irracional e injustificada. Serviu-se mais um copo de vinho e bebericou nervosamente. Montserrat deitou Victória no sofá tão firme quanto delicadamente. Pegou uma cadeira e sentou ao lado dela, ficando de frente para os presentes.

“Agora você está com uma pessoa com a qual gostaria de passar a maior parte de seu tempo, em um lugar que você considera perfeito para estar com essa pessoa. Quero que me descreva essa pessoa e esse lugar…”. Victória respondeu lentamente, com voz sonolenta.

“É uma manhã cinzenta e chuvosa… Estou voltando de algum lugar… Não sei… Moramos num trailer. Ele está me esperando… Vestindo um agasalho preto… Os óculos estão diferentes… Ele tem uma xícara de café na mão… Eu queria muito voltar pra ficar com ele.”.

Os presentes assistiam completamente fascinados.

“Quem é ele, Victória? Qual é o nome dele?”

“Sigmund.”

O rapaz fica completamente encabulado quando todos, inclusive Montserrat, fitam-no com um meio sorriso cúmplice. Sem saber se sorri ou se pede para a sessão terminar, acende um cigarro. A moça loira do divã ri um pouco alto demais e Montserrat a fulmina com o olhar, ao que ela imediatamente silencia.

“Como foram morar num trailer? O que vocês fazem no trailer, por que é tão importante estar com Sigmund?”. O rapaz ficava cada vez mais apreensivo, imaginando que todos aqueles puxa-sacos do professor cafajeste ficariam sabendo de segredos íntimos de Victória.

“Conversamos, ouvimos música… Fomos morar no trailer desde o dia em que o mundo acabou… Estarmos juntos é a melhor coisa… Melhor que tudo… Preferimos ficar juntos à salvar o mundo…”

Risinhos abafados foram ouvidos. As respostas de Victória pareciam um pouco confusas e Sigmund estava decidido: só deixaria Montserrat fazer mais uma pergunta. Depois, perderia a compostura e mandaria o professor encerrar a sessão antes que sua querida Victória se transformasse na piada do corredor na semana de aulas seguinte. Montserrat fez, assim, a próxima pergunta com um riso mal-contido no rosto e no tom de voz.

“Responda-me, Victória: quando é que o mundo acabará?”

“Quando… Sua mulher… Contar a verdade sobre você.”

Montserrat ficou tão desconcertado e apreensivo diante da resposta da moça quanto Sigmund mudou completamente de idéia sobre encerrar a sessão. O professor ordenou rapidamente que Victória acordasse da hipnose, o que deixou a todos um pouco desconcertados. Afinal, as respostas de Victória pareciam completamente sem sentido, mesmo assim Montserrat encerrou a hipnose no exato momento em que Victória diria algo sobre ele. De qualquer forma, o professor recobrou o controle da situação e quando Victória perguntou o que havia dito, respondeu apenas que dissera coisas sem sentido, que a sessão foi rápida demais, que estavam bêbados e que não é assim que se procede um método terapêutico. Em seguida, foi até sua mesa e sacou meia dúzia de cartões com a frase “estou sonhando?” e distribuiu para os alunos. Disse que deveriam olhar para o cartão no mínimo a cada meia hora e tentar alterar aspectos da realidade com o pensamento, até o momento em que isso tivesse se tornado um hábito. Antes de aprenderem a técnica do sonho lúcido suas verdadeiras pesquisas não poderiam progredir.

Victória foi até Sigmund, na janela, e perguntou o que havia acontecido. O rapaz prometeu que contaria, mas no dia seguinte.

(continua…)

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
Esse post foi publicado em Despojos, Espiando Pelo Buraco da Fechadura, Fábulas Para Entristecer, Por um mundo Punk-Gótico. Bookmark o link permanente.

2 respostas para Os Onironautas: Parte III – O consultório do Dr. Montserrat

  1. Sieglynnd Stockhausen; disse:

    Victória é foda, mesmo hipnotizada destrói a possibilidade de virar chacota e ainda dá um fatality no professor. \o/

    Essa é a parte da história em que a gente fica louco pra passar logo pro capítulo seguinte. ;)

  2. Victor disse:

    Sim, Victória é foda. É, aliás, a minha personagem preferida. Mas confesso que fui muito pouco artístico ao criá-la, tendo preferido controlcezeá-la e controlvezeá-la da realidade. ;)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s