Os Onironautas: Parte IV – Sonhos Lúcidos

Por mais estranha e inverossímil que fosse a teoria de Montserrat, ela funcionava. Sigmund e Victória tiveram extrema facilidade para se habituar com os chamados “testes de realidade” e o hábito, como o professor disse que aconteceria, foi levado para o mundo dos sonhos. Pelo menos três vezes por semana Sigmund e Victória tinham sonhos lúcidos.

No início foi bastante fácil: desde o dia seguinte ao episódio da hipnose, dia em que Sigmund contou a Victória sobre seu comportamento quando hipnotizada, combinaram que o cenário de seus sonhos lúcidos seria no trailer, no meio do nada, em uma manhã chuvosa. Victória ainda não sabia explicar como havia produzido esta imagem durante uma sessão de hipnose, mas concordava que era uma imagem muito agradável. Assim, durante os sonhos, os dois acabavam testando a realidade e, em algum momento, ela lhes obedecia. Tomavam a imaginação pelo que era e lentamente se tornaram senhores de seus mundos oníricos. No início ainda iam até o trailer através de um carro ou bicicleta de sonho, por uma estrada de sonho. Depois se acostumaram a fazer o trailer surgir onde quer que estivessem ao ganhar a lucidez.

Se por um lado aprenderam a desfazer rapidamente o auto-engano da mente adormecida, não eram tão talentosos com respeito aos próprios auto-enganos despertos. Ao relatarem mutuamente o conteúdo de seus sonhos lúcidos o faziam com uma compostura pudica, criando histórias inacreditáveis, para as quais faltavam enredos verossímeis. Na verdade ambos os jovens realmente compunham cenas belíssimas para suas personagens oníricas, mas é preciso ressaltar que o conteúdo erótico que imprimiam aos próprios sonhos era completamente velado em seus relatos. Um dia, por respeito à beleza do próprio sonho – do qual só ganhou lucidez quando a cena erótica já se desenvolvia e, por isso, não quis alterar o cenário – decidiu falar a verdade.

“Não éramos nós. Éramos Sabina e Tomas, mas éramos nós ao mesmo tempo, e isso era engraçado. Eu percebi quando abri a porta, era como a cena do filme. Talvez tenha sido porque conversamos muito sobre isso ontem, eu não sei. Percebi que você estava sem óculos. Era a cena em que Tomas chega ao ateliê de Sabina na Suíça, e eu atendi você com casaco longo e apenas roupas íntimas por baixo. O diálogo, contudo, era completamente diferente e embora tenha sido muito erótico no sonho, é hilário. Coisas meio íntimas, sabe?” Victória parou de falar ao ver que Sigmund estava branco, suava, e parecia que ia desmaiar. Ele disse que estava tudo bem e depois de um minuto esfregando o rosto com as mãos, falou em tom quase profético.

“Eu tive o mesmo sonho, Victória. Eu era Tomas. Eu estava no seu sonho.”.

Victória escutou apreensiva, depois riu e perguntou se era verdade mesmo.

“Sim. Acordei quando caímos no chão e seu chapéu rolou para trás de um espelho…”.

Foi a vez de Victória ficar completamente pálida. Era verdade. E talvez não tivesse sido apenas o mesmo sonho. Victória estava convencida de que haviam sonhado juntos.

(continua…)

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
Esse post foi publicado em Despojos, Espiando Pelo Buraco da Fechadura, Fábulas Para Entristecer, Por um mundo Punk-Gótico e marcado , , . Guardar link permanente.

2 respostas para Os Onironautas: Parte IV – Sonhos Lúcidos

  1. Sieglynnd Stockhausen; disse:

    Queria ter a facilidade que Sigmund e Victória tiveram pra sonhar lúcido e pra “invadir” o sonho alheio.
    Hoje consegui sonhar lúcido por um momento, quando acordei no meio da manhã e cai no sono logo em seguida, tentei invocar o meu ‘personagem’ favorito, mas hoje não deu muito certo.

    Mas veja que linda coincidência: acaba de começar um documentário sobre o escritor Victór Hugo na TV. ♥

  2. Victor disse:

    Queria ter a facilidade que você tem de submergir nos temas que escolhe para sonhar. Mesmo quando não dá muito certo vai mais longe do que eu geralmente vou. ♥

    E esse Victor Hugo… um dia eu tenho que ler uma coisa que ele escreveu. Muito embora as razões do meu nome ignorem quase que totalmente a existência desse escritor. :P

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s