Os Onironautas: Parte V – O Sonhar

Durante uma semana Sigmund e Victória testaram a teoria de que podiam sonhar juntos. A certeza só era dada pelo relato, no dia posterior, pois consideravam sempre a possibilidade de que o outro era uma projeção deles próprios. Até que Sigmund teve a idéia de tentar exercer controle sobre a personagem de Victória durante o sonho. Não apenas foi completamente impossível controlar Victória quanto também a moça sentiu nitidamente a tentativa de controle de Sigmund. Assim nasceu uma brincadeira onírica de Sigmund e Victória: exceto por eles próprios, todo o resto da realidade onírica estava sob o jugo de seus desejos. Mais de uma vez o casal dispensou a noite inteira na criação de cenários completamente psicodélicos, onde o objetivo do jogo era criar a situação mais estranha possível. No início as ilusões eram simples: desde a simples mudança da cor do céu para, por exemplo, cor-de-rosa até a criação de shows de seus artistas favoritos com milhares de espectadores de sonho ou passeios em montanha russa sob efeito de LSD. Contudo, a sensação mais estranha que conseguiram experimentar foi a fusão: a estranha sensação de serem uma pessoa só. O mais estranho era, sem dúvida, que ver o mundo pelos olhos do outro era menos estranho do que se poderia supor.

Embora fossem semideuses de seu mundo onírico, algumas regras comuns eram respeitadas por ambos: o ponto de encontro era sempre o trailer descrito por Victória em sua sessão de hipnose. A recorrência desse cenário era tamanha que a nitidez com que o trailer se apresentava fazia com que a própria vida desperta parecesse, às vezes, menos real do que o que acontecia ao redor do trailer. O trailer era seu pequeno santuário, já era considerado por ambos como sua morada real, a despeito do lugar em que viviam na realidade. Vale dizer que sua fixação pelo mundo onírico estava tão intensa nesses dias que não é surpresa que tenham negligenciado aspectos de sua vida desperta: jamais tinham se visitado em suas casas reais, embora passassem o tempo onírico inteiro juntos.

Em uma noite onírica especialmente bela, Victória estava deitada no colo de Sigmund. Este acariciava os cabelos da moça, fazendo-a sentir o toque de seus dedos tão doce quanto açúcar. Confundir e misturar os sentidos era apenas um dos truques oníricos básicos que já realizavam naturalmente, e que os havia feito transcender completamente os limites da experiência humana. Assim, se no início de suas aventuras oníricas apressavam-se em tecer uma narrativa dentro de padrões claros e humanos, seu domínio das próprias sensações e a transcendência dos sentidos havia transformado a experiência de sonhar lucidamente em algo completamente indescritível.

Nesta noite específica, Lorde Morpheus percebeu, pela primeira vez em seus domínios, um trailer que nunca havia notado. Percebeu também que era um trailer habitado e, sem hesitar, entrou. Surpreendeu um casal de jovens, sentados um de frente para o outro, de olhos fechados e mãos dadas. Trocavam sensações. Eram sonhadores lúcidos habilidosos. Lorde Morpheus fez sua presença ser percebida e viu o casal abrir os olhos, estarrecido. A moça obedeceu ao hábito humano de dar um grito curto e agudo. O rapaz tinha uma expressão de pânico na face e apenas balbuciou um nome.

“Chamam-me por muitos nomes, mas Montserrat não é um deles…”.

De fato, o homem era idêntico a Montserrat, mesmo na sua voz. Mas havia alguma coisa em sua postura, em sua presença, que realmente fazia parecer com que ele fosse outra pessoa. De qualquer forma, era um invasor dos sonhos, do domínio encantado que Sigmund e Victória haviam construído. Pensando toparem com um sonhador lúcido, Sigmund e Victória trocaram, em pensamento, algumas frases curtas e rápidas. A idéia era expulsá-lo, pois ele devia ser um invasor. De qualquer forma eles eram dois e estavam teoricamente em vantagem.

“Não…”, respondeu o sósia de Montserrat, ainda que tivesse órbitas escuras no lugar de olhos. “Vocês não podem nada contra mim em meu reino.”

“Seu… reino? Quem é você?”

“Chamam-me por muitos nomes. O mais simples é Sonho. E quem são vocês? E o que pensam que estão fazendo nesta Região Branda?”

“Sonho? Região Branda?”

“Respondam minhas perguntas…”, disse a voz imperiosa, e pareceu impossível não obedecer-lho. Assim, Sigmund e Victória explicaram que eram sonhadores lúcidos que se encontravam todas as noites.

“E como vocês encontraram uma passagem para o Sonhar?”

Sigmund e Victória realmente não compreendiam as perguntas daquele homem. Explicaram, da forma que puderam, o que faziam. Haviam se doutrinado na técnica do teste de realidade e em seguida imaginaram com tanta força um lugar que ele parecia mais real do que as coisas reais. O homem tinha uma expressão infinitamente indiferente, mas seu tom de voz era um pouco melancólico.

“Compreendo…”, disse e continuou. “O que sucede a vocês é um fenômeno muito raro. Como senhor desse reino confesso ter visto poucas vezes. Sonhar lucidamente é complicado. Escapar da própria mônada é quase impossível, exceto quando se é a mesma pessoa.”

“Desculpe, não estamos entendendo nada…”.

“Qual de vocês disse isso?”

Sigmund e Victória se entreolharam e não sabiam responder qual dos dois havia falado. Começavam a compreender.

“Ouçam bem: vocês não pertencem ao mesmo mundo. Quando almas como as suas se encontram, os mundos perecem, desaparecem. Devo zelar pelos sonhadores de seu mundo, portanto, vou descriar esse lugar e vocês acordarão. De qualquer maneira, o sonhar, mesmo numa Região Branda, é perigoso demais para qualquer alma, então compreendam que estou lhes fazendo um bem imensurável.”

“Você não tem esse direito!”, disseram.

“Sim, eu tenho.” E enquanto os olhava profundamente com suas órbitas vazias, o trailer, a terra e o próprio céu se desfizeram em areia, até que uma escuridão branca lhes tomasse por completo com o som de uma ventania. Em seguida, acordaram. Correram imediatamente para o telefone e o sinal de ocupado tocou de ambos os lados. Sabiam que o outro estava ligando, e sentiram que deviam esperar. Como a experiência onírica lhes sugeria que eram a mesma pessoa, sabiam que o outro pensaria a mesma coisa e nenhum dos dois esperou. O telefone deu sinal de ocupado uma segunda vez. A sorte do casal é que o calor havia feito com que Victória tivesse bebido muita água antes de dormir. Assim, a moça precisou correr para o banheiro e pode ouvir o telefone tocar. Ansiosa, correu e atendeu.

“O que aconteceu?”, perguntou Victória assustada.

“Eu não faço a menor idéia. Será que tivemos um pesadelo juntos?”

“Isso é impossível, somos bons em sonhar lucidamente, não temos mais pesadelos!”

“Nesse caso fomos visitados por um deus do sonho com a cara do professor Montserrat?”

“Tá, isso é mais impossível.”

“São cinco da manhã, vamos voltar a dormir?”

“Nem pensar. Meus pais viajaram. Vem pra cá.” E lhe deu o endereço que ate hoje não havia dado. Sigmund vestiu a primeira roupa que encontrou e, em passo apressado, foi encontrar Victória.

(continua…)

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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Uma resposta para Os Onironautas: Parte V – O Sonhar

  1. Sieglynnd Stockhausen; disse:

    “And our lives are forever changed
    We will never be the same
    The more you change the less you feel
    Believe, believe in me, believe
    Believe that life can change
    That you’re not stuck in vain
    We’re not the same, we’re different tonight
    Tonight, so bright
    Tonight (…)

    Believe, believe in me, believe
    Believe in the resolute urgency of now
    And if you believe there’s not a chance tonight
    Tonight, so bright
    Tonight
    We’ll crucify the insincere tonight
    We’ll make things right, we’ll feel it all tonight
    We’ll find a way to offer up the night tonight
    The indescribable moments of your life tonight
    The impossible is possible tonight
    Believe in me as I believe in you…
    Tonight”

    Tinha colocado “Tonight, tonight” da Smashing Pumpkins pra tocar enquanto re-re-relia esse trecho d’Os Onironautas e ambos combinaram perfeitamente. Esta, sem dúvida é a trilha sonora perfeita pra toda essa história. http://www.youtube.com/watch?v=XQSxwzOngMU

    E Victória foi precisamente controlcezeada e controlvezeada da realidade, até fica “bebendo água e mijando” excessivamente. HAHAHAHAHAHAHAAAH

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