Os Onironautas: Parte VI – Os mundos paralelos

Sigmund praticamente correu o caminho inteiro entre sua casa e a casa de Victória. Quando tocou a campainha e foi atendido por um sujeito imenso, com uma barriga imensa e um respeitável bigode, acreditou que seu bom e velho azar crônico entrava em ação naquele momento, pois o que parecia era que o pai de Victória havia decidido voltar para casa no meio de uma madrugada. De qualquer modo Sigmund já estava ali e não tinha razões para não terminar o que começara.

“Desculpe-me pelo horário impróprio… Eu preciso falar com Victória. Não precisa abrir a porta… O senhor pode apenas chamá-la, por favor?”

O homem foi hostil, disse que Sigmund estava bêbado e que nenhuma Victória morava ali. Desconsolado, foi até o telefone público mais próximo e ligou novamente para Victória.

“Seu pai disse que você não mora na sua casa…”

“O que? Como você falou com meu pai? Ele está viajando, eu já disse.”

“Pois ele me parecia bem presente agora há pouco.”

“Do que você está falando? Onde você está?”

“Na frente da sua casa, no telefone do outro lado da rua.”

“Não está, Sigmund. Eu estou na janela e não tem ninguém no telefone.”

Sigmund confirmou o endereço e o número da casa de Victória: estava onde supunha estar e Victória devia estar na janela, vendo-o exatamente onde ele estava. A verdade é que o que lhes acontecia era absolutamente surreal e sem sentido, mas a necessidade que tinham de se ver era maior do que o estranhamento que a situação pudesse causar. Assim, preferiram racionalizar esse mal-entendido e acreditar que alguma confusão devia estar acontecendo, qualquer coisa para a qual haveria – depois – uma explicação razoável e convincente. Assim, marcaram de se encontrar em dez minutos em uma praça à alguns quarteirões de onde supostamente estavam. Uma opção sem muito sentido, mas não mais absurda do que a própria sensação.

Ao atravessar – correndo – os quarteirões que separavam a casa de Victória da praça, Sigmund percebeu uma neblina densa que antes não parecia presente. Sem muitas opções, o rapaz continuou correndo até chegar à praça. Enquanto corria, desejava que o sol nascesse de uma vez, pois tinha a impressão que o dia terminaria com aquele pesadelo. Foi interrompido de seus próprios pensamentos ao ouvir passos e uma respiração conhecida. Era Victória, que vinha da direção da praça.

“Primeiro achei que você não viria mais, depois pensei que algo ruim lhe tivesse acontecido. Por que demorou tanto?”

Sigmund ainda estava um pouco suado do esforço. Havia corrido o trajeto inteiro. No entanto, a moça estava certa e havia se passado pelo menos uma hora desde o telefonema. Sigmund pediu para sentar um pouco. Aquela situação o deixava atordoado. Sentaram-se a beira do chafariz central e Victória molhou as mãos, passando-as pelo pescoço e pelo rosto do rapaz. “Venha, vamos para minha casa…”, disse, e levou Sigmund pela mão.

O rapaz estava desorientado e atônito pela situação, mas percebia que o caminho que faziam era exatamente o mesmo que ele havia feito. Caminhavam em passos lentos, e se a neblina não fosse tão densa ele certamente examinaria melhor essa rua. Contudo, quando Victória lhe conduziu pela esquina pela qual ele havia vindo e parou diante da casa onde ele havia tocado a campainha, Sigmund pensou que fosse desmaiar. Estava convencido de que as experiências com sonhos lúcidos estavam lhe turvando o sentido do real e que estava enlouquecendo. Victória abriu a porta e conduziu Sigmund pela mão até seu próprio quarto, onde só havia uma cama de solteiro. Trouxe-lhe água e tirou-lhe a camisa. Sigmund sentia um pouco de mal-estar, como se estivesse com febre, e deitou-se. Victória deitou ao seu lado, abraçando-o. Permaneceram em silêncio por minutos, e foi Victória quem quebrou o silêncio.

“O que aconteceu com nosso trailer?”

“Eu não sei. Acho que talvez seja perigoso ser um sonhador lúcido. Acho que estou enlouquecendo.”

“Vamos ter de parar de nos encontrar nos sonhos?”

“Nós vamos resolver isso tudo, Victória. Eu prometo.”

Abraçou-a com força e logo adormeceu. Quando acordou, porém, estava sozinho em sua cama, em sua casa. Acordou com o som do telefone que tocava. Atendeu.

“Por que você foi embora sem me avisar?”

Sigmund levou quase dez segundos pensando e evidentemente não tinha uma boa explicação para o fato de estar em casa. Pediu desculpas e disse que provavelmente havia se tornado um sonâmbulo. Pediu que ela fosse até o café-tabacaria onde trabalhava. Em seguida tomou um banho demorado e bebeu quase um litro de café. O hábito de testar a realidade era involuntário e já o irritava. Pensava em se desfazer dele caso fosse necessário. Primeiro teria de conversar com Victória, pois o fato de ser um sonhador lúcido era um aspecto de um projeto que tinham em conjunto. Passou a tarde inteira de trabalho pensando no que diria à Victória quando esta chegasse, mas o que aconteceu é que ela não chegou. Sigmund ficou mesmo aproximadamente meia hora na frente do café-tabacaria, em um horário onde aquela rua já parecia deserta e perigosa demais. Só quando se convenceu de que Victória não ia aparecer, decidiu ir para a casa – e foi apressadamente, pois lhe ocorreu que algo absurdo e extraordinário – portanto, perigoso – pudesse ter acontecido à Victória. Assim que chegou em casa, telefonou para a moça.

“Por que você não foi me ver?”

“Sigmund… Se a situação fosse outra, qualquer outra, eu teria medo que você não acreditasse. Mas eu estive exatamente onde você me disse para ir, e não encontrei nenhum café-tabacaria.”

O rapaz tirou os óculos e passou a mão no rosto. A doença, afinal, atingia sua querida Victória. Estava desesperado e sem a menor noção do que devia fazer.

“Acho que devemos pedir ajuda à Montserrat.”

“Acha mesmo?”

“Não sei o que mais poderíamos fazer.”

“Tudo bem, eu confio em você.”

“Amanhã, antes da aula, nós combinamos o que vamos contar à ele e como. Agora vamos dormir e descansar.”

“Certo. Sigmund…”

“O que foi, Victória?”

“Vamos nos encontrar hoje, no trailer?”

Como, em nome de todos os deuses, Sigmund poderia dizer “não” à pergunta de Victória? É evidente que ele concordou imediatamente com a sugestão de sua querida amiga. Contudo, nenhum dos dois teve sonhos lúcidos naquela noite. Pelo contrário: tiveram pesadelos e telefonaram um para o outro pelo menos três vezes na madrugada. Antes de o sol nascer, Sigmund e Victória estavam novamente em uma praça onde a neblina era densa e optaram por lá permanecer até o nascer do sol, quando ele iria para o trabalho e ela para casa. Ficaram juntos, de mãos dadas, com medo dos próprios sonhos.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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2 respostas para Os Onironautas: Parte VI – Os mundos paralelos

  1. Sieglynnd Stockhausen; disse:

    Eu não sei o que há comigo, cá estou lendo uma das partes mais tensas d’Os Onironautas, ouvindo todo o álbum Pornography e tem um amigo fazendo piadas cruéis e de mau gosto. Talvez toda essa maluquice me deixe tensa/ansiosa/preocupada/agitada sem algum motivo certo. hahahahahaahah *surtei, bjs*

    Desculpa por não ter voltado do jantar. ♥

  2. Nunca pensei em ter uma obra de Salvador Dalí sob um prisma semântico. Penso que os “sonhos lúcidos” sejam uma ponte entre as obras deste fabuloso pintor e de nosso mundo absurdo. Aliás, o absurdo, posto nessa sua escrita, torna-se ainda mais admiravelmente plausível.
    Vá explicar isso!

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