Os Onironautas: Parte VII – Almas Gêmeas

É preciso atentar para o que aconteceu no mundo real durante o tempo em que Sigmund e Victória estiveram mais ocupados com seus próprios sonhos do que com o mundo desperto. Porque esse período de tempo não chegou a durar dois meses. Durante esse tempo, Sigmund e Victória continuaram freqüentando as aulas de Montserrat, mas recusaram categórica e polidamente os insistentes e incansáveis convites para os encontros pós-aula, no consultório do professor. Portanto, ainda não haviam revelado à este sobre seu sucesso no que diz respeito à técnica dos sonhos lúcidos.

Encontraram-se no corredor do curso uma hora antes da aula. Relataram os eventos de seu dia a fim de perceberem se algo de “extraordinário e absurdo” havia acontecido a qualquer um deles. Não, nada incomum lhes havia acontecido, e isso os tranqüilizava. Estavam tomados por um sentimento de cuidado mútuo, talvez pelo fato de que a existência do outro era, naquele momento, o que havia de mais importante na vida de cada um. Assistiram abraçados ao pôr-do-sol na sacada do prédio onde as aulas aconteciam e viram quando, no início da noite, Montserrat chegou de carro no estacionamento do prédio. Não foram os primeiros a abordar o professor, pois sempre havia um grupo de alunos à espera de Montserrat e que o acompanhavam, como corvos, enquanto este subia as escadarias do prédio até o andar onde as aulas aconteciam. Corvos que sentiram uma ponta de ciúmes quando a atenção de Montserrat foi solicitada pelo casal, para uma conversa em particular, e este aceitou prontamente a solicitação. Foram convidados pelo professor até sua sala, onde foram convidados a sentar.

A pequena sala de Montserrat na universidade não tinha uma fração do charme que seu consultório possuía. Havia um computador em uma mesa, uma única estante de livros, uma cafeteira e um sofá de dois lugares, onde Sigmund e Victória se acomodaram. Montserrat preparava café enquanto pedia para que o casal expusesse a razão de sua procura. Foi Sigmund que tomou a palavra.

O rapaz explicou que há um mês sonhavam lucidamente, mas não deu detalhes sobre o conteúdo dos sonhos. Não disse também que Victória e ele tinham sonhos em conjunto. Falou do sonho onde um homem idêntico a Montserrat o visitava e desmanchava seu ambiente de sonhos lúcidos. Montserrat escutava com atenção, e sua expressão infinitamente cínica não deixava que Sigmund agisse com naturalidade. Quando Sigmund terminou seu relato, o professor iniciou as perguntas.

“E vocês ainda não tiveram nenhum sonho em comum?”

“Não…”, disse Sigmund, sentindo a espinha enregelar.

“Bem, eu não acredito. Do contrário, Victória não estaria aqui. E ela é uma sonhadora lúcida tão capaz quanto você, é impossível que não lhes tenha ocorrido ter o mesmo sonho e que vocês ainda não o tenham conseguido. Se você não me contar toda a verdade, não poderei ajudar…”.

Sigmund e Victória admitiram a verdade. Montserrat levantou-se, serviu aos três de café e acendeu um cigarro. Ofereceu cigarros para o casal, ambos aceitaram.

“O que aconteceu à vocês foi perfeitamente real, tão real quanto a conversa que estamos tendo aqui. O visitante inoportuno de seu sonho lúcido é um sujeito que realmente se considera uma divindade responsável por toda a dimensão do sonhar. Eu confesso que não sei o que ele é, apenas sei que é o sonhador lúcido mais hábil que já conheci. Acho mesmo que essa habilidade onírica é a causa de seu transtorno de personalidade: o sujeito acha que é o deus dos sonhos e afirma zelar por todos os sonhadores. No entanto, volta suas habilidades contra todo e qualquer sonhador lúcido que encontrar sob o pretexto de estar zelando pela segurança do sonhar, das almas dos sonhadores, qualquer coisa assim. O que é, em minha humilde opinião, manifestação de um profundo despeito e uma tentativa de afirmação de si.”

Sigmund ouvia, mas não parecia convencido. Victória tampouco. Foi a vez de ela intervir.

“Isso tudo parece completamente surreal, surreal demais. Então existe um lugar chamado ‘sonhar’ que nossas almas podem visitar enquanto dormem, é isso?”

“Que outra explicação você tem para o que vocês têm feito? Vejam, vocês disseram que ele falou em Regiões Brandas. Se vocês estavam realmente em uma Região Branda, isso significa que vocês estavam nos limites entre o sonhar e o mundo desperto, em algum lugar da terra onde o sonhar e a realidade se tocam. É o limite de dois mundos. Vocês não entraram muito fundo no sonhar puro, meu amigo devia estar fazendo uma ronda, vigiando as fronteiras, e encontrou vocês. E percebeu que estava diante de algo extraordinário, porque a possibilidade de que ocorra algo como isso que vocês são é mais remota do que eu jamais poderia conceber.”

“Do que você está falando?”

“Qual de vocês disse isso?”

Sigmund e Victória se entreolharam. Era exatamente a mesma pergunta que o invasor de seu sonho havia feito. Uma pergunta sobre a qual já poderiam ter refletido um pouco mais, se os eventos “absurdos e extraordinários” não lhes tivesse tomado tanta energia.

“Vocês são a mesma pessoa. A mesma pessoa em dois mundos diferentes. Vocês não vivem no mesmo mundo, na mesma dimensão. Apenas isso explica a facilidade com a qual vocês transpuseram os limites da própria mônada e conseguiram alcançar uma Região Branda. Sonhadores lúcidos experientes levam anos para conseguir escapar ao próprio mundo particular, caso consigam. Encontrar outro sonhador lúcido mesmo nos limites do sonhar é sempre uma experiência meramente especulativa: talvez jamais se encontrem no mundo real para se certificarem de que não toparam com suas próprias projeções.” Montserrat terminou o cigarro e o atirou pela janela. “É completamente extraordinário que eu possa conversar com vocês dois ao mesmo tempo e a única explicação para isso é a de que deve existir uma espécie de ‘região branda’ entre seus mundos, pontos que liguem suas dimensões. Este prédio é um desses lugares.”

Sigmund e Victória estavam completamente atônitos. Haviam aprendido a permanecer despertos em seus sonhos e eram os deuses das próprias noites. Agora lhes era atirada no colo a mais terrível das verdades, e a mais difícil de acreditar: a vida era uma espécie de sonho. Victória, contudo, ainda tinha dúvidas.

“Seu sósia disse coisas parecidas. E disse que quando almas como as nossas se encontram, os mundos desaparecem. Que essa era mesmo a razão pela qual ele estava desfazendo nosso lugar. O que tudo isso significa?” Montserrat deu uma breve gargalhada, enquanto terminava seu café.

“Em minha humilde opinião, são profecias estapafúrdias de um fundamentalista religioso. Acho que se vocês estão realmente interessados no que essa balela significa, deveriam perguntar à ele. Eu próprio sei que vocês não pertencem ao mesmo mundo, mas apenas pelo fato de que reconheço sonhadores lúcidos por sua aura, e vocês tem a mesma aura. Se querem um significado metafísico ou até mitológico para isso, perguntem à ele, ele saberá explicar melhor.”

“Ele desfez nosso lugar. Tivemos pesadelos essa noite.”

“Ora, ele não ‘desfez’ nada. Vocês podem refazer seu recanto quando bem entenderem. Tiveram pesadelos porque, como qualquer pessoa normal, tiveram experiências ruins e não conseguiram tirá-las da cabeça. Aliás, se querem mesmo chamar sua atenção, proponho que refaçam seu lugar e o esperem. Ele é decoroso e raramente é agressivo. Se quiserem, os perdôo da falta à minha aula de hoje e os deixo dormirem aqui e agora para encontrá-lo, os hipnotizo se preferirem. Se não, os convido para minha casa hoje e, depois, para o Batcave. Vou me apresentar lá hoje. Posso prometer que a noite será divertida!”

Todos os três já haviam terminado seus cigarros, seus cafés, e estava na hora da aula. O retorno à Montserrat havia sido bastante positivo. Por mais absurda que fosse a idéia de que eram a mesma pessoa em mundos diferentes que se tocavam aqui ou ali, em um sentido estritamente prático isso apenas tornava a situação ainda mais romântica, dotada de uma beleza ímpar: um dos maiores sonho da humanidade, desde os primórdios, é o reencontro das almas que um dia foram uma só. Sigmund e Victória estavam convencidos de que eram almas gêmeas, e trocaram alguns bilhetes durante a aula, onde as poucas frases apenas confirmavam o que eles já sentiam e sabiam: estavam em plena sintonia. Estavam de tão bom humor que concordaram que o cinismo e a arrogância de Montserrat era um aspecto de sua personalidade, nem positivo nem negativo, que apenas o distinguia das outras pessoas. E que no fundo ele era bastante perspicaz, e que poderia ajudá-los a lidar com essa espécie de “superpoder” que tinham. Estariam atentos às tentativas de serem feitos de cobaia.

Mas achavam que deveriam consultar o sósia de Montserrat nos sonhos: o fato de que não podiam visitar um ao outro precisava ser objeto de ponderação: estariam dispostos à viverem a eternidade nas “regiões ermas” do sonho e da realidade? E o que aconteceria quando um deles invadisse o mundo do outro, quando a realidade tivesse que lidar com as contradições que a presença simultânea dos dois engendraria?

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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2 respostas para Os Onironautas: Parte VII – Almas Gêmeas

  1. Sieglynnd Stockhausen; disse:

    Victória, na realidade, costuma pensar nas consequências de seus atos precipitados quando as sofre. Não é de me admirar que ela prefira ficar com Sigmund a salvar o seu mundo. (Na verdade, a Victória da “vida real” só está dando uma justificativa qualquer pra não admitir assim, de cara, que tudo o que mais quer é fugir de tudo e de todos e ficar com seu Sigmund só pra si). ;D

  2. Victor disse:

    Se preciso for, eu destruo o mundo para que isso aconteça. *Psicopata com uma auréola* =)

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