Os Onironautas: Parte VIII – Batcave

A Batcave não era senão uma homenagem à Batcave original, ainda que provavelmente não tivesse o glamour decadente que constituía a atmosfera da casa onde nasceu o punk-gothique dos anos 80. Era um lugar limpo e arejado, cheio de pessoas escabeladas, sósias de Robert Smith, Siouxsie Sioux ou qualquer outra coisa que encarnasse idéias ou sentimentos obscuros. Animados com a idéia de ir à Batcave, Sigmund e Victória compuseram para si mesmos um figurino delicadamente exótico e obscuro: Sigmund bagunçou os próprios cabelos e vestiu roupas largas, maquilando os próprios olhos ao modo de um já citado Robert Smith. Victória preferiu compor um figurino mais elegante, completado por um chapéu-coco que fazia clara referência à personagem principal do livro que tinham em mãos quando se conheceram. O próprio Montserrat saudou o bom gosto e a sensibilidade do casal quando chegaram à seu consultório. Seus três corvos inseparáveis estavam lá – a moça loira e dois outros rapazes. Havia também um quarto acompanhante, um homem desconhecido e cuja expressão era decididamente tão ou mais sinistra que a do próprio Montserrat. De qualquer forma, o professor os colocou à vontade, oferecendo-lhes uísque, vinho e mesmo outras coisas. Um pouco hesitantes, Sigmund e Victória acabaram por aceitar tudo o que lhes foi oferecido e antes de saírem do consultório de Montserrat em direção à Batcave, já estavam completamente embriagados.

Após algumas rápidas horas na Batcave, conversando com conhecidos ao som de clássicos dos anos 80, era a vez de Montserrat e sua banda tocar. O homem mais-sinistro-que-Montserrat era seu tecladista, a moça loira tocava contrabaixo enquanto um dos rapazes – que mais parecia um anjo – assumia uma das guitarras e o outro a bateria. O próprio Montserrat era o frontman da banda, e chamavam a si mesmos de Pornography.

Depois de quatro ou cinco clássicos da música gótica oitentista, Montserrat e seu Pornography tocaram algumas músicas de autoria própria. Sigmund e Victória estavam demasiado bêbados para exercer qualquer juízo lúcido sobre a qualidade das músicas de Montserrat, e as guitarras atmosféricas dividindo o espaço com o teclado de notas infinitas parecia fazer suas mentes escorregarem deliciosamente para um estado semelhante ao estado onírico, ainda que bem menos lúcido do que os padrões aos quais haviam se acostumado. Assim, nessa atmosfera etílica, ao som de notas intermináveis e o falsete da voz de Montserrat confundindo-se à fumaça dos cigarros, Sigmund e Victória se beijaram pela primeira vez. Do palco, poder-se-ia ver um sorriso nos lábios de Montserrat neste preciso momento, mas a platéia estava demasiadamente fascinada pelo concerto.

As horas se passaram, Sigmund e Victória não se desgrudaram e o concerto da Pornography havia terminado. Montserrat e seus corvos voltaram para a pista ao som da música mecânica e logo estavam todos no mesmo grupo novamente. Sigmund e Victória estavam visivelmente alterados. Ao perceber, chegou perto do casal e falou-lhes alto, olhando fixamente nos olhos de cada um por vez. Primeiro, colocou as mãos sobre os ombros de Victória:

“Vocês estão muito bêbados, é melhor irem embora. Acompanhe Sigmund.”

Em seguida fez o mesmo com Sigmund, com as mãos em seus ombros e fitando-lhe profundamente:

“Leve Victória para sua casa e tenham cuidado no caminho.”

Por alguma razão, o ímpeto de obedecer a sugestão – ou, melhor dizendo, a ordem – de Montserrat não passou nenhuma vez pelo crivo da dúvida do casal. Talvez já estivessem inclinados a idéia de passar a noite juntos, talvez estivessem se julgando sem condições de continuar na festa. De qualquer modo, quando perceberam, já estavam na casa de Sigmund. Embriagados que estavam, ficaram cegos para a rara beleza do caminho, absolutamente coberto por uma densa neblina, muito semelhante à da noite anterior, que era mesmo responsável pela leve falta de ar que acometia a moça sem que ela percebesse.

Embriagados de álcool e de desejo, entraram na casa de Sigmund aos beijos, abraçados e cambaleantes. Contudo, antes que pudessem cair sobre um sofá e prosseguir as carícias, Sigmund percebeu que Victória perdia o tônus muscular e parecia desmaiar. Segurando-a e evitando que caísse, segurou a moça e a pôs no sofá no qual preferia que ela tivesse se deitado espontaneamente, onde ela começou a balbuciar qualquer coisa sem sentido. Julgando que Victória estava muito bêbada, Sigmund pôs-se a preparar um café bastante forte e doce, para acordar a moça e amenizar o efeito da bebida. Ia e voltava da cozinha para ver se Victória estava bem e acordada. Deu-lhe água duas vezes e tirou os óculos da moça, colocando-os sobre a mesinha que ficava no centro da sala. Quando voltou com o café, a moça dormia. Colocou o café sobre a mesinha e tentou acordá-la, sem sucesso. Entrou em pânico ao constatar que a moça não respirava. Correu para o telefone, mas quando ia discar para a emergência, uma mão firme e magra, de pele completamente pálida, segurou sua mão. Olhou, supondo que era Montserrat, mas era mais alto, mais magro, tinha olhos completamente negros e vestia um manto ao invés de trajes convencionais. Os cabelos eram desgrenhados como os do professor, mas a voz era completamente inumana e indescritível. Sigmund síria qualquer coisa, mas o sujeito apenas lhe disse “Shh. Durma.”

E Sigmund adormeceu.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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2 respostas para Os Onironautas: Parte VIII – Batcave

  1. Sieglynnd Stockhausen; disse:

    Tenso, tenso, teeeenso! @____@
    Quando li Os Onironautas pela primeira vez pensei “Caralho, eles podiam pelo menos ter feito sexo antes de morrer!”.
    Mentira, hahhahahahahahahaha.

    Puxa, eu queria ser Victória ♥

  2. Victor disse:

    Eles vão resolver esse problema logo, Victória. =)

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