Os Onironautas: Parte IX – As advertências de Lorde Morpheus

Quando acordaram, Sigmund e Victória estavam em seu trailer. Era um fim de tarde nublado, e uma fina garoa precipitava-se delicadamente no exterior. Estavam seminus, em sua cama, enrolados nos lençóis. O sósia de Montserrat esperava pelo despertar do casal, sentado à uma cadeira. Um pouco zonzos, sentaram-se na cama.

“Estamos sonhando?”

“Isto é relativo. Estamos em uma Região Branda.”

“Você não havia desfeito nosso trailer?”

“Sim, mas vocês o refizeram. Eu apenas segui vocês até aqui.”

“O que está acontecendo? Victória, ela está bem? Ela não respirava quando você apareceu.”, Sigmund perguntou, conferindo se a personagem onírica de Victória estava bem.

“Sim, agora ela está. Está na casa dela.”

Sigmund ainda estava um pouco atônito. Levantou-se da cama e foi até a cafeteira, onde café quente sempre o esperava no trailer. O sósia de Montserrat e a própria Victória apenas acompanharam seus movimentos com os olhos. Serviu duas xícaras e perguntou se o visitante aceitava. Ele aceitou. Uma vez servidos, Sigmund sentou-se à beira da cama e pediu, afinal, explicações sobre tudo o que havia acontecido. A começar sobre quem, afinal, aquele sósia de Montserrat era afinal.

“Eu já me apresentei na outra ocasião. Sou Sonho.”

“O deus dos sonhos?”

“Não sou um deus.”

“Tudo bem, tudo bem. Não sei se entendo isso. De qualquer maneira, por que você apareceu em minha casa? Você estava salvando a vida de Victória?”

“Sim.”

“Como sabia que ela precisava de ajuda?”

“Fui informado por minha irmã.”

“Então há uma família inteira que é feita de sonho e é responsável pelos sonhos?”

“Não. Minha irmã é responsável por outros domínios. Ela é a Morte.”

Sigmund e Victória olharam-se, calados.

“Estamos mortos?”

“Não.”, respondeu Sonho. Sigmund passou a mão no rosto, como se tentasse acordar ou ao menos clarear suas idéias. As coisas ainda pareciam confusas demais. Pediu então para que Sonho explicasse o que significava essa história de mundos que desaparecem e pessoas que são a mesma. Sonho explicou sobre a força das escolhas e sobre as Regiões Brandas que se estabelecem entre os mundos.

“Victória não pode entrar em seu mundo, nem você no dela, ao custo de suas vidas. Minha irmã me avisou sobre uma passagem que não estava no itinerário dela, a saber, a passagem de Victória. A morte de Victória. É isso que acontece quando uma pessoa entra em um mundo que não é seu. Incontáveis almas já se perderam para sempre em mundos paralelos. As conseqüências disso podem ser desde a completa perda da razão até a própria morte.”

“Isso quer dizer que nós nunca vamos poder ficar juntos?”

“Isso quer dizer que vocês estão sujeitos ao desaparecimento imediato se se expuserem às contradições que o encontro de seus mundos necessariamente criará. Quer dizer que teriam de empreender uma vigilância constante sobre aspectos de suas vidas que estão absolutamente fora de seu controle. Um de vocês poderia simplesmente desaparecer a qualquer momento no mundo do outro, bastando para isso entrar em uma rua que não existe, ouvir uma notícia que não poderia ter acontecido em seu mundo, escutar uma música, frase ou encontrar uma pessoa cuja presença é impossível, seja por ter morrido ou por nunca ter existido em seu mundo. O encontro de vocês foi um absoluto acidente, porque vocês são a mesma pessoa.”

“O que isso quer dizer afinal? Que temos a mesma alma?”

“Não. Vocês são a mesma pessoa. A mesma semente plantada em um solo diferente, que deu origem à uma árvore diferente, se prefere uma linguagem metafórica. Vocês são exatamente a mesma fórmula com valores diferentes em suas variáveis.”

“Mas Sigmund é homem, eu sou mulher. Eu sou quase cinco anos mais nova do que ele.”

“Gênero, época, eis algumas de suas variáveis.”

“Espera um pouco. Você está querendo dizer que em algum plano metafísico distante existem infinitas idéias de pessoas esperando para serem semeadas em infinitos mundos paralelos, como um Mundo das Idéias de Platão, que se projeta em infinitos mundos de sombra?”

“Sua comparação é interessante.”

“Isso quer dizer que os seres humanos não são livres, e que toda a história humana é uma brincadeira de manipulação de marionetes?”

“Não entendo sua conclusão. E não creio que ainda haja um títere brincando em algum lugar do universo.”

“Então é ainda pior! Pois tudo não passa de um mecanismo que funciona a despeito do que pensemos estar fazendo, que nossas escolhas são ilusões e que nossa consciência é um fenômeno sem o qual o mundo permaneceria tal e qual, um fenômeno completamente fútil e dispensável.”

“Agora você cometeu um erro. O valor de suas variáveis pode ser diferente, mas sua fórmula é a mesma. E a fórmula não é senão o modo que vocês se dispõem na vida, diante dos acontecimentos. A fórmula é precisamente o código de suas escolhas. Vocês não nasceram gêmeos, vocês se constituíram gêmeos. Ou melhor: todas as pessoas nascem gêmeas, com uma fórmula em branco e algumas variáveis geográficas, históricas, econômicas, fisiológicas e muitas outras. O que chamei de fórmula é precisamente as escolhas que você faz, a relação que estabelece entre as variáveis. E vocês nasceram e permaneceram gêmeos. Isso é raro. É exponencialmente mais raro porque vocês pertencem à mundos diferentes e tenham se encontrado.”

“Então há aqui uma série de coincidências: duas pessoas que são uma só que se constituíram como almas gêmeas e que se encontraram em uma Região Branda do mundo real, isso é uma coincidência enorme.”

“Ainda ampliada pelo fato de terem descoberto uma maneira de se manterem em contato à salvo de um risco que desconheciam. Eu diria que é a maior das coincidências, se o Destino não fosse meu irmão mais velho.”

“Aí está. Nunca houve escolha então. O Sonho é irmão da Morte e do Destino? E o Destino decide tudo o que irá acontecer? Logo, nunca escolhemos absolutamente nada.”

“Não, o Destino apenas lê o Livro dos Dias. Quem escreve o livro são precisamente pessoas como vocês, através de suas escolhas. É de suas escolhas que eu quero falar.”

“Escolhas?”

“Sim. Agora vocês têm uma escolha imensa diante de vocês. Pois se continuarem vivendo como se suas vidas pudessem coexistir, eu creio que é uma questão de tempo para que um de vocês desapareça. Contudo, vocês são sonhadores lúcidos traquejados, poderão permanecer se encontrando nos limites do sonhar sempre que desejarem, isolando-se e se mantendo à salvo cada um em seu mundo. Mas vocês tem um problema: Montserrat não vai deixar vocês em paz.”

“Montserrat?”

“Ele está interessado em vocês por diversas razões. A primeira delas é pelo fato de que ele era um sonhador lúcido quando era humano, e há décadas ele deseja reaprender a sonhar lucidamente para se livrar dos pesadelos que tem com a noite em que matou sua esposa. Nesta noite, ele fez um negócio comigo e com minha irmã: ele é um dos raros da espécie dele que servia à mim, e não à minha irmã. Mas ele se sentiu traído por mim quando eu disse que estava vedada à ele a possibilidade de sonhar lucidamente por força do que ele havia se tornado. Desde então ele procura sonhadores lúcidos, em parte para reaprender, em parte para frustrá-los. Quando percebeu que estava lidando com contrapartes de mundos alternativos, ocorreu-lhe outra idéia com a qual ele tem tido pesadelos terríveis: se há dois mundos paralelos à espreita, ele só precisa descobrir ao mundo de qual de vocês dois ele pertence. Se ele simplesmente transitar de um mundo para o outro, estará para sempre livre de uma vida constituída apenas de arrependimentos, poderá recomeçar tudo do zero, em um mundo novo. E sem ser assombrado pelo fantasma da ex-esposa, diga-se de passagem.”

Sigmund e Victória escutaram em silêncio as revelações sobre Montserrat, antes de prosseguirem com as perguntas.

“Ele não pode sonhar lucidamente porque é um assassino?”

“Ele não pode sonhar lucidamente porque é um vampiro, e vampiros não podem sonhar lucidamente.”

Mais uma vez o silêncio permitiu que se ouvisse cada uma das gotas de chuva no exterior.

“Isto está relacionado à uma maldição que foi aplicada por outro que não eu, ao primeiro dos vampiros. O problema é que se os mundos paralelos não matarem vocês, ele vai acabar matando. Pois ele tem a eternidade inteira para caçá-los, e cedo ou tarde vai descobrir que vocês não podem fazer nada por ele, que ninguém pode, e que essa foi a escolha dele ao aceitar o Abraço. Mas a responsabilidade é um fardo pesado demais e eu duvido que ele deseje carregá-lo.”

“E o que devemos fazer?”

“Devem escolher. A existência de Montserrat e a sua segurança está em seu poder. O futuro de vocês está em seu poder. E o destino de seus mundos está em seu poder.”

“Em nosso primeiro encontro você disse algo parecido com o que está dizendo agora, mas não compreendemos o que isso significa. O que é isso de destino dos mundos?”

“Eu também não sei por que as coisas se passam assim. Talvez seja um capricho, talvez uma lei, talvez os dois. O fato é que sempre que vi almas gêmeas de mundos paralelos se encontrarem, isso significou o fim de ambos os seus mundos. Ficariam surpresos com o número de almas gêmeas que hospedo nos limites do sonhar porque ficaram sem mundo.”

“Há tantas almas gêmeas de mundos paralelos assim?”

“Não. É precisamente o contrário. Não há meia dúzia de casos iguais ao de vocês.”

E mais uma vez o silêncio tomou conta do cenário. A noite caiu na Região Branda. Sigmund e Victória deram as mãos.

“Não queremos destruir nossos mundos. Queremos apenas ficar juntos.”

“Eu não sei se isso é possível. Não estou dizendo que se ficarem juntos vão necessariamente destruir seus mundos. Só estou dizendo que nunca vi nenhum caso onde isso não tenha acontecido. Mas como disse, a escolha só cabe à vocês. Não estou aqui para aconselhar, mas para alertar. Para que a escolha seja lúcida como seus sonhos, para que seja consciente das conseqüências possíveis. Agora devo partir. Quando vocês acordarem, será uma bela manhã de sol, o que significa que estarão protegidos de Montserrat e poderão destruí-lo com facilidade se desejarem. Ele repousa no divã de seu consultório, protegido por grossas janelas e cortinas negras. Com uma estaca de madeira vocês podem paralisá-lo. O consultório de Montserrat é uma Região Branda de seus mundos, vocês podem entrar nele juntos e destruí-lo facilmente. A luz do sol o consumiria em segundos.”

“Você quer que nós o destruamos? O que nos garante que você não é afinal um sonhador lúcido muito capaz que realmente apenas quer destruir Montserrat?”. Sonho parou na porta do trailer e virou-se para o casal, respondendo uma última vez.

“Eu não preciso lhes dar garantia, nem vocês precisam acreditar em mim. Estão livres. Apenas os ponho em pé de igualdade com ele através dessa informação. Adeus.”

“Espere!”, disse Sigmund.

“O que foi?”

“Você chamou nosso trailer de Região Branda e disse que uma Região Branda é um local onde o mundo dos sonhos o mundo desperto se tocam. Certo? Isso significa que é possível chegar aqui através do mundo desperto, ou estou errado?”

“Está certo.”

“Então onde exatamente estamos no mundo desperto?”

“Estão 14km ao sul de Praga, na República Tcheca.”

República Tcheca. O país encantado onde acontecia a história do livro que Sigmund e Victória tinham em mãos. Sorriram, absolutamente encantados com a agradável ironia do destino, que se apresentava como beleza do acaso.

Sonho saiu pela porta do trailer e o fechou. Sigmund e Victória permaneceram sozinhos com o barulho da chuva. Ele levantou-se e, calado, colocou um disco no rádio. Sorriu. Victória levantou-se e foi até ele, abraçando-o. Dançavam, como se o tempo nunca fosse passar e nenhuma decisão lhes fosse exigida. Foram para o exterior e dançaram na chuva, fazendo o céu noturno brilhar em tons róseos, enquanto a música ecoava como se viesse de toda parte. A chuva morna molhava seus corpos e logo se deitaram na grama, de costas. Victória deslizou até Sigmund e o abraçou quando uma das canções acabou. Ela desejou que a próxima canção esperasse um pouco antes de começar, pois queria perguntar algo à Sigmund e queria ouvir sua voz, e apenas sua voz.

“O que vamos fazer quando acordarmos?”

“Vamos nos encontrar no consultório de Montserrat.”

E se abraçaram com força, ouvindo o início de mais uma canção.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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Uma resposta para Os Onironautas: Parte IX – As advertências de Lorde Morpheus

  1. Sieglynnd Stockhausen; disse:

    Estou quase chorando, Victor. Fico quase sem palavras pra dizer o quanto certo trechos d’Os Onironautas me encantam e emocionam.

    Às vezes acho que o Victor tem o manual de instruções da Sieg, o único exemplar, guardado em algum lugar de seu quarto. ♥

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