Os Onironautas: Parte X – A morte de Montserrat

Era uma manhã inacreditavelmente ensolarada. Sigmund bebeu uma grande caneca de café preto e fumou um cigarro, como sempre fazia pelas manhãs. Depois, passou cerca de meia hora lixando uma velha baqueta de bateria, deixando-a com uma ponta fina o suficiente para penetrar em um coração. Guardou a estaca no bolso interno de sua jaqueta e foi até o banco, conferir suas economias. Tinha o suficiente para fazer uma viagem de ida para Praga, se quisesse, embora não lhe sobrasse talvez para mais nada – talvez sequer para o hotel. Telefonou, de um telefone público, para Victória. Ela rapidamente atendeu.

“Onde você está?”

“Em frente ao prédio de Montserrat. Você vem?”

“Em quinze minutos.”, e desligou.

Nesses quinze minutos, que foram vinte na verdade, Sigmund fumou cinco cigarros. Em seguida viu a silhueta de Victória se aproximando, ao longe. Imaginava que a qualquer momento poderia passar um idiota com uma placa onde estivesse escrito algo contraditório e absurdo o suficiente para apagá-lo – ou pior, apagar Victória – da realidade, e achava que sua vida havia assumido um aspecto mais surreal do que qualquer sonho.

Victória chegou e abraçou Sigmund com força. Sentiu a estaca dentro de seu casaco e compreendeu que o rapaz estava decidido. Antes de entrarem no prédio, Sigmund perguntou se Victória estava disposta à ir para Praga com ele.

“Como assim?”

“Se aquilo é uma Região Branda, se existe no mundo real, acho poderemos viver lá como se fosse um sonho lúcido. Lá é uma região limite, sonho e realidade se confundem. Estou disposto a viver lá com você se você estiver disposta à viver lá comigo. O que você me diz?”

“É o que mais quero, Sigmund.”

O rapaz sorriu e segurou Victória pela mão. Conduziu-a pelo saguão do prédio, até que foram abordados por um segurança que perguntava onde eles desejavam ir, deixando claro na pergunta que não iriam à qualquer lugar além dali mesmo. Sigmund disse, um pouco hesitante, que tinham consulta com o Dr. Montserrat.

“Não, Doutor Montserrat só atende pelo período da noite.”

Estava claro que o homem estava sob o domínio de Montserrat, e que não seria tão simples passar por ele. Victória sorriu e, com voz lânguida e uma atitude muito mais segura, foi quem tomou a frente e respondeu ao segurança.

“Ele insistiu que viéssemos hoje, agora. Ele está precisando de nós, se é que o senhor entende. Não sei o que poderia acontecer caso não pudéssemos vê-lo ainda antes do anoitecer.”

O homem assumiu um ar absolutamente preocupado e os deixou entrar no elevador. Victória agradeceu de maneira cortês e quando a porta do elevador se fechou, mostrou para Sigmund o quanto suas mãos estavam tremendo. Riam histericamente, de tão nervosos. Victória não imaginava no que o homem havia pensado quando ela disse o que disse. Sigmund sugeriu que ela só conseguiu passar por ele porque ela tinha uma “variável” diferente dele próprio pelo fato de ser mulher, e poderia seduzir facilmente o segurança. Riram novamente, até que perceberam que estavam na frente do consultório de Montserrat, e que haviam pensado em tudo exceto em como passariam pela porta: obviamente não tinham a chave de Montserrat.

Abrir a porta com um pontapé era fora de cogitação – até porque era uma porta visivelmente resistente, e Sigmund teria de chutá-la mais de uma vez para abri-la, o que causaria um estardalhaço absolutamente inconveniente. Victória tinha um clipe de papel em sua bolsa. Tentou fazer, como nos filmes, uma chave com um clipe entortado. Não foi capaz de reproduzir naquele momento o truque das telas do cinema, e tinha de parar à todo momento, para disfarçar para os passantes aquilo que estavam fazendo.

Estavam à ponto de desistir da sutileza quando a porta misteriosamente se abriu. Não apenas se abriu como foi literalmente puxada para trás. A escuridão era completa. Victória mostrara-se prudente: havia suposto que um vampiro repousava na escuridão absoluta, e havia trazido uma pequena lanterna. Sigmund empunhou a estaca e entrou no consultório, iluminado pela lanterna de Victória. Entraram e fecharam a porta do apartamento. Não havia explicação para o fato de a porta ter se aberto sozinha.

Havia um escritório antes do consultório propriamente dito. E mais uma porta trancada – esta, a porta que levava ao recinto onde Montserrat supostamente estaria. Victória tentou novamente o clipe, mas não foi bem sucedida novamente. Com gestos, Sigmund pediu que Victória se afastasse. Tomou distância e, depois de uma curta corrida, chutou a porta com força, causando um grande estrondo. A porta não cedeu. Repetiu o processo, de novo e de novo. Apenas na quarta tentativa foi capaz de abrir a porta pela força. Entraram, apressados, iluminando a escuridão do consultório, mas Montserrat não repousava no divã. Em pânico, Victória varreu a sala com sua pequena lanterna, em tempo de ver Montserrat saltando sobre ela própria.

Na escuridão, quase às cegas, não fosse pela pequena lanterna de Victória caída no chão, Sigmund saltou sobre Montserrat. Este já estava no chão, sobre Victória, que gritava e chorava. Prendendo o vampiro em uma “gravata”, tentando estrangulá-lo, forçava para que ele não encravasse suas presas no pescoço de Victória. Tomou uma, duas, três cotoveladas nas costelas, e já estava completamente sem ar, perdendo as forças. Com a ajuda da própria Victória, conseguiu tirar o vampiro de cima dela, mas Montserrat parecia tomado de uma fúria bestial, saltando em ato contínuo sobre Sigmund, como fizera com Victória. Se ele estava enfraquecido pelo fato de ainda ser dia, sua força plena deveria ser assustadora.

Victória chutou sucessivas vezes as costelas de Montserrat, mas o vampiro não cedia e era uma questão de tempo até que afundasse suas presas no pescoço de Sigmund. Victória, em um último ato desesperado, pegou a lanterna e foi até a mesa de Montserrat, onde havia um pesado busto de mármore do filósofo Schopenhauer. Segurando a lanterna entre os dentes, ergueu o pesado busto e depois de mirar por um segundo com a ajuda do facho de luz, arremeteu na direção de Montserrat, atingindo-o com um pesado Schopenhauer na têmpora. O vampiro caiu para o lado, um pouco atordoado, e Victória pôs-se a chutá-lo na cabeça, embora não parecesse surtir o efeito desejado, que era o de deixá-lo inconsciente. Sem pensar muito, Sigmund sacou a estaca e com um golpe seco a enterrou fundo no peito do vampiro. Montserrat deu um gemido surdo e amoleceu. Permaneceu de olhos abertos, como um morto, como o morto-vivo que de fato era.

Choraram. Abraçaram-se e choraram, tentando se acalmar. Conferiam os próprios ferimentos e exceto por algumas escoriações, estavam bem. Montserrat permanecia inerte. Fitaram o vampiro empalado, com o auxílio da lanterna, sentados no chão à seu lado. Os olhos de Montserrat se mexiam um uma lentidão quase imperceptível, mas suficiente para que percebessem que ele estava consciente.

“Podíamos abrir a cortina agora, Montserrat! Podíamos destruí-lo se quiséssemos!”, dizia Sigmund, tentando conter as lágrimas. Victória o abraçava e também conversava, em lágrimas, com o professor. “Não podemos dar aquilo que você procura, você devia ter nos deixado em paz!”. Para dar o direito de resposta à Montserrat teriam de tirar a estaca, e isso significaria sua morte. Em silêncio, como que em um acordo tácito, saíram da casa de Montserrat. Antes, porém, foram ao banheiro e se recompuseram: seria preciso ser convincente e parecer calmo para o segurança lá embaixo, sem deixá-lo perceber que estavam naquele lamentável estado de tensão e desespero.

Desceram e passaram pelo segurança, afirmando que Montserrat estava bem e que pela noite provavelmente lhe daria uma recompensa por abrir essa exceção especial da qual tanto necessitava. O homem mostrou humildade e gratidão para com aqueles dois jovens e sorriu, desejando-lhes um bom dia. Sigmund e Victória saíram do prédio e na multidão das ruas, sob a segurança da luz do sol, se perguntaram, pela primeira vez, se haviam agido corretamente.

“Como assim, Sigmund?”

“Será que não deveríamos ter aberto as cortinas? Nossa indulgência não garante que ele será indulgente conosco caso se liberte. E sabemos que ele pode se libertar. Pior: que cedo ou tarde o fará.”

“Estaremos milhares de quilômetros distante dele, no meio do nada, à salvo.”

“Nesse caso, foi completamente desnecessário o que fizemos aqui agora.”

“Você está certo. Agimos sem pensar. Poderíamos ter ido embora, simplesmente.”

“Estou com uma sensação estranha.”

“Que sensação, Sigmund?”

“Eu não sei. Uma melancolia. Um sentimento esmagador, como se tivesse acabado de perder algo de valor inestimável.”

“Estranho. Também estou. E não acho que foi por causa do que fizemos. Estou me sentindo mal por isso, mas sei que não é isso, sei que estou sentindo o mesmo que você.”

E estavam absolutamente certos. Sentiam uma melancolia imensa porque haviam acabado de semear o fim do mundo.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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Uma resposta para Os Onironautas: Parte X – A morte de Montserrat

  1. Sieglynnd Stockhausen; disse:

    Eu teria pensado em praticamente todas as utilidades possíveis pra minha baqueta, mas transformá-la em uma estaca pra acabar com um vampiro definitivamente não seria uma delas.
    Essa é uma das partes mais tensas e mais broxantes d’Os Onironautas. hahaha

    A Victória da “vida real” não seria capaz de acertar de acertar o tal busto na cabeça do professor (pois é vesga etem uma visão muito ruim), mas faria todo o resto e até mais, pra ficar com seu Sigmund. ♥

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