Os Onironautas: Parte XI – O Fim do Mundo

Diz-se que o mundo foi criado em seis dias. Isso é duvidoso. Porém, ele acabou em exatos seis dias.

O que sucedeu com Sigmund e Victória depois do episódio no consultório de Montserrat foi relativamente simples: foram para suas casas com a prudência de não prestar atenção em nada – essa foi a maneira que eles encontraram para se proteger das eventuais contradições que lhes destruiriam. Fizeram ligações para seus entes queridos, reafirmando seus sentimentos, o que foi evidentemente considerado como gestos de afeto aparentemente sem razão. Em lágrimas, ambos seguiram para o aeroporto e lá se encontraram, onde tomaram o primeiro avião para Praga. Acharam de bom augúrio que o avião decolasse antes do sol se pôr.

A viagem foi curta, pois dormiram durante a viagem inteira. Evidentemente, sonharam lucidamente e puderam se reencontrar em paz em seu trailer. Tiveram, dessa vez, uma idéia diferente: explorariam a região para o norte do trailer, a fim de descobrir que direção deviam tomar uma vez que estivessem em Praga. A idéia, infelizmente, não foi bem sucedida: a Região Branda e que se localizava seu trailer tinha um alcance bem definido marcado por uma névoa densa, mais densa do que aquela que descia sobre o mundo quando um invadia a dimensão do outro – aliás, só perceberam durante o sonho o sentido verdadeiro da névoa: esconder aquilo que deve permanecer oculto. A névoa, no fundo, era algo que os protegia.

Quando desceram em Praga, estavam convencidos de que sua entrada física nas Regiões Brandas faria com que a possibilidade de transitar livremente entre o mundo dos sonhos e o mundo real não seria impedida por uma névoa. Mesmo assim, em seus íntimos, estavam com medo de se arrepender pelo resto de suas vidas da decisão de ficarem reclusos em um raio de 14km de terras ermas em torno de um trailer. Não perderam tempo com documentações e passaportes. Mais do que isso: foram capazes de roubar uma motocicleta na qual se dirigiram, pela estrada e depois pelo campo, ao sul de Praga.

Rodaram durante horas, procurando qualquer sinal de um trailer forjado em sonho. Não sentiam que estivessem em uma Região Branda e nada os ajudava a crer que não estavam vivendo, afinal, uma aventura completamente absurda e esquizofrênica. Em sentido estrito, não fazia sentido nenhum o que estavam fazendo ali: procuravam um trailer feito “da matéria que compõe os sonhos”. Realmente acreditavam que podiam encontrá-lo. Perderam a noção das horas e do combustível empreitando nessa busca absolutamente insana. Desolados e exaustos, estacionaram em um ponto qualquer, no meio do nada. Precisavam dormir. Sentiam-se sujos, exaustos e completamente perdidos. Deitaram-se na relva e olharam o céu límpido, cheio de estrelas. O ar estava um pouco frio, mas seria possível dormir ali se quisessem.

Conversaram, sonolentos e confusos, sobre o que haviam feito de suas vidas. Por força de um acaso haviam se encontrado. Por força de uma escolha haviam lentamente transformado completamente suas idéias do que era afinal a própria vida através do aprendizado do sonho lúcido. E em dois dias descobriram que havia um deus dos sonhos que não era um deus e que um vampiro os estava usando para realizar seus objetivos obscuros. Haviam matado esse vampiro, fugido do país e roubado uma motocicleta para estarem ali, agora, procurando por um trailer imaginário e para dormir na relva depois de obviamente não encontrá-lo. Só havia uma explicação razoável para dar conta de tudo isso: haviam enlouquecido.

Mas não estavam arrependidos. O dia seguinte, quando acordassem, seria o momento de recomeçar uma vida inteira, absolutamente virgem, absolutamente em branco. Uma vida para ser vivida da maneira que preferissem, absolutamente inventada e construída por eles desde o princípio. Victória aproximou-se de Sigmund e o abraçou. Ele aninhou-a em seu peito e dormiu afagando seus cabelos. Prometeram de se reencontrar no trailer, como sempre.

Enquanto isso, a ex-mulher de Montserrat – que, como Lorde Morpheus havia dito, é um fantasma muito rancoroso que assombra o pobre vampiro – tratou de operar a vingança que sempre sonhou realizar contra seu marido, mas nunca havia tido oportunidades. Ao invés de simplesmente incendiar seu consultório ou de fazer o esforço de abrir suas cortinas e deixar o sol devorá-lo, preferiu adotar outra atitude. Apossou-se do corpo do segurança do prédio de Montserrat e, munida de uma máquina fotográfica, fotografou o ex-marido empalado. Enviou então um sem-número de fotografias do vampiro empalado para todos os jornais da cidade, acompanhadas de uma carta dizendo como deveriam proceder e quando: deveriam estar em grande número, durante o dia, tirar a estaca e verificar que ele despertava. Se ele fingisse não despertar depois da remoção da estaca, certamente a luz do sol faria com que ele reagisse para salvar-se. Assim, Montserrat seria o vampiro através do qual seriam descobertos todos os vampiros do mundo. E Montserrat teria que suportar sobre seus ombros a vergonha de ser o vampiro mais tolo de toda a espécie.

Tudo bem que a ex-mulher de Montserrat quisesse provar a tolice de Montserrat – afinal, segundo ela apenas um tolo poderia deixar de amá-la. Mas não foi menos tola a idéia de fazer de Montserrat o arauto da revelação dos vampiros para o mundo, pois as conseqüências de sua idéia foram exponencialmente maiores do que poderia prever. Pois quando aquele inofensivo psicanalista vampiro teve de admitir publicamente, em um programa de televisão, que todas as evidências presentes em todos os jornais do mundo eram verdadeiras – ou seja, que ele era um vampiro – e que ele não era o único, que existiam pelo menos umas cinco dezenas de milhares de vampiros sobre o mundo, Montserrat não foi senão o arauto da guerra. Pois todas as autoridades mundiais solicitaram imediatamente audiências com as autoridades vampíricas a fim de estabelecerem os limites de suas relações morais e legais a partir daquele dia. Ou os vampiros adotavam as leis humanas ou seriam caçados e destruídos.

Houve grande confusão no mundo inteiro. Cientistas, políticos e religiosos debatiam abertamente e em todas as mídias sobre quais deveriam ser as atitudes cabíveis perante essas novas criaturas. Antes de qualquer consenso da parte dos humanos, surgiram vampiros de todas as partes, falando em todas as mídias, dispostos à conviver com seres humanos e se submeter à suas leis. Muitas pessoas achavam de uma beleza mórbida e completamente sedutora que a partir daquele dia teriam de conviver com mortos-vivos imortais bebedores de sangue. Outros sentiram a inescapável inveja que um mortal sentiria de um imortal, e tomados de ressentimento sugeriam a destruição completa da espécie abominável. Assim, houve grande discórdia entre os humanos.

Evidentemente muitos outros vampiros se sentiram ofendidos pela submissão de seus irmãos e imediatamente adotaram uma postura agressiva, causando grande destruição. Organizavam-se em bandos e, com poderes inacreditáveis, atacavam cidades, destruindo tudo o que vissem pela frente, matando inescrupulosamente os seres humanos. Assim como as pessoas que preferiam a morte à ter de conviver com aquelas bestas do inferno, estes vampiros preferiam desaparecer da face da terra levando o máximo de vermes humanos que pudessem.

Foi assim que houve guerra. Por dias inteiros, a maior das guerras. Não apenas entre humanos e vampiros: a existência dos vampiros havia revelado um aspecto fundamental da própria humanidade, e dividido a própria humanidade. Os intolerantes e os tolerantes não se toleravam mutuamente, e ao lado de vampiros – e muitas outras bestas que permaneceram escondidas por séculos à sombra do racionalismo humano – se aniquilaram mutuamente no campo de batalha que não era outro senão cada cidade humana. Em seis dias, carros de combate, aviões garras e presas havia aniquilado aquilo que se conhece por humanidade e civilização. Onde antes havia cidades e países, agora havia ruínas.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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Uma resposta para Os Onironautas: Parte XI – O Fim do Mundo

  1. Sieglynnd Stockhausen; disse:

    Achei que Sigmund e Victória virariam dois andarilhos esfarrapados que todos dariam por loucos e que teriam como amigos os hippies vendedores de artesanato, bêbados de rua, entre outras figuras similares a quem contariam sempre suas histórias, sobre como aprenderam a sonhar lúcido, como conheceram o deus dos sonhos que não era deus – embora tivesse irmãos interessantes -, como derrotaram o professor vampiro e falariam sempre do trailer onde se encontram todas as noites.
    Pra conseguir alguns trocados, Sigmund tocaria violão nas ruas de Praga ao lado de Victória, que cantaria covers da Ana Carolina (em tcheco).

    Hahahaha, ainda sim seria lindo! ♥

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