Os Onironautas: Parte XII – A Recriação do Mundo

Quando acordaram, Sigmund e Victória não sabiam se estavam despertando em um sonho lúcido ou se estavam realmente acordando. Pois seu trailer estava exatamente à seu lado, como se tivesse sido instalado ali no meio da noite por uma mão invisível. Testaram para ver se estavam dormindo ou acordados e o céu obedeceu-lhes tornando-se cor-de-rosa quando assim desejaram. Contudo, desejaram imediatamente que ele voltasse a ser absolutamente branco (o céu rosa era reservado às horas de brincadeira). Estavam, portanto, sonhando.

Foi sem dúvida o dia mais longo de suas vidas. Estranharam o ritmo da passagem do tempo porque por mais que fossem capazes de estender quase indeterminadamente seus sonhos lúcidos, costumavam despertar quando estavam saciados de suas brincadeiras ou quando haviam realizado os propósitos estabelecidos no início da noite de sonhos. Contudo, dessa vez parecia que os dias passavam em sentido literal e que o sonho lúcido se estenderia indefinidamente se assim desejassem. Foi assim que decidiram despertar e perceberam que não conseguiam. Perceberam também que não conseguiam mais dormir. Alguma coisa havia mudado.

Decidiram, depois do decurso desse período indefinido de tempo, explorar os limites da Região Branda onde estavam instalados. Na motocicleta roubada – que lhes obedecia a despeito de não ter combustível – visitaram a cidade de Praga. Acharam estranho o fato de que chegaram à cidade em um período de tempo muito mais curto do que levariam para percorrer os quatorze quilômetros. Contudo, o mais assustador era que a cidade estava completamente deserta. Não tardaram, contudo, a perceber que a cidade estava deserta, e que o mundo parecia ter acabado como estava profetizado que aconteceria se decidissem ficar juntos. Não entendiam, contudo, como isso podia ter acontecido. Era sem dúvida o sonho lúcido mais estranho que já tiveram. De qualquer modo, visitaram os lugares de Praga que sempre sonharam visitar e a despeito da situação, viam um sentido estranho e romântico no fato de que Praga era, enfim, só deles.

Quando voltaram ao trailer, Sonho estava à sua espera, sentado em uma cadeira, do lado de fora. Estacionaram a moto e o cumprimentaram. Sentaram-se ao chão e perguntaram o que havia acontecido. Sonho explicou que havia acontecido o que ele havia avisado que podia acontecer. Explicou como o mundo havia acabado. Sigmund e Victória ficaram atônitos como só pode ficar atônito quem é responsável pela destruição de um mundo inteiro.

“Mas achei que estivéssemos sonhando! Olhe, se quisermos, mudamos as cores do céu!” e o céu ficou cor-de-rosa, brilhante como um crepúsculo.

“Graças a vocês, não existem mais Regiões Brandas. Ou melhor: o mundo inteiro é uma Região Branda. O que impedia que o mundo dos sonhos coexistisse com o mundo desperto era a crença humana na realidade do mundo desperto. Não havendo mais uma humanidade, não há crenças que exilem os sonhos a uma dimensão própria e os sonhos podem ser reais. O problema é que sem humanidade não há sonhos. O mundo está em um estado muito semelhante àquele que vigorava no princípio da história, no princípio dos tempos. Há tão poucos humanos ainda vivos que me pergunto se terão forças para descobrirem que tem o poder de recriar a humanidade e a história. É absolutamente extraordinário que no final dois sonhadores lúcidos tenham sobrevivido para aproveitar o potencial de um mundo onde os sonhos podem forjar a realidade. Isso é mais do que raro, é absolutamente inédito.”. Victória gargalhou.

“Está dizendo que somos Adão e Eva?”

“Não. Adão e Eva foram criaturas. Vocês são Criadores.”

“Somos deuses?”

“Sua comparação é interessante.”

“Somos mais poderosos do que você?”

“Acho que é mais correto dizer que agora, dado o insignificante número de seres humanos sobre a terra e sua perícia no domínio dos sonhos em uma Região Branda infinita, eu não sou mais do que uma personificação de seus poderes.”

“Então por que você está aqui?”

“Por que vocês queriam respostas.”

Sigmund e Victória riram. Depois riram novamente, até que gargalharam, rolaram na relva gargalhando, em um riso tão histérico quando aliviado. De uma vez por todas sua vida havia se tornado um conto fantástico. Era absolutamente inacreditável. “Somos deuses!”, diziam, seguravam as mãos e se abraçavam. Desnecessário dizer que voavam, giravam em círculos enquanto o céu mudava mil vezes de cor em um segundo, então caiam na grama e rolavam novamente, e a grama era macia como algodão. Eram deuses. Sonho permanecia ali, e eles próprios perceberam que a presença daquela entidade gótica tão exótica não será senão um reflexo de seu desejo por respostas, que ainda não havia saciado. Em um ambiente surreal, onde o céu cintilava translúcido em milhares de cores simultaneamente, se recompuseram e sentaram-se novamente aos pés do rapaz magro, pálido e descabelado.

“Somos imortais? Nunca vamos morrer?”

“Isso depende do que vocês decidirem que é a vida e o tempo.”

Gargalhavam em êxtase à cada resposta do rapaz que, indiferente, permaneceria ali por toda a eternidade, enquanto quisessem respostas.

“E Montserrat, sobreviveu?”

“Não.”

“Alguém poderia nos matar?”

“Talvez apenas um sonhador lúcido melhor do que vocês, o que não existe nessa dimensão.”

“Então nada mais poderá causar o desaparecimento de um de nós? Nada de contradições que nos apagariam da existência?”

“Suas ações levaram à destruição de tudo aquilo que poderia destruí-los em ambos os mundos.”

Era tanto motivo de êxtase quanto de assombro.

“Outra coisa, Sonho: existem outras dimensões paralelas onde a humanidade continua existindo?”

“Inumeráveis. Mas sua relação com a realidade desse mundo provavelmente impedirá que vocês encontrem outros mundos paralelos. Seria preciso que os outros poucos sobreviventes tivessem força de crença suficiente para iniciar comunidades de pensamento comum, mas com seus poderes sobre este mundo vocês seriam imediatamente vistos como deuses, como seres que unificam perspectivas em torno de suas figuras. Acho que mesmo sendo onipotentes nesse mundo, vocês estão presos à ele e não tem mais como deslizar para mundos humanos paralelos.”

“Tudo bem, tudo bem. Acho que só perguntamos para ficar em paz com nossas consciências e saber que em algum lugar nós não somos os cavaleiros do apocalipse, certo Sigmund?”

“Acho que sim. Por mais que eu amasse a humanidade, a história e o mundo, nunca senti muita vontade de participar dela!” E gargalhou. E Victória gargalhou. E até mesmo Sonho parecia sorrir, enquanto se levantava para ir embora.

“O veremos de novo, Sonho?”

“É provável. Principalmente se criarem seres à sua imagem e semelhança, provavelmente serei o responsável por zelar por suas noites.”

Mesmo depois de tudo isso, Sigmund e Victória ainda não compreendiam exatamente a natureza daquela entidade gótica e misteriosa. Enquanto ele caminhava em direção ao nada, perguntaram – e é difícil saber qual perguntou – uma última coisa:

“Sonho!”

“Sim?”

“Quantas pessoas sobreviveram à tudo isso?” Sonho sorriu.

“Ficariam surpresos se eu dissesse.”

Sigmund e Victória gargalharam, e o mundo gargalhou com eles. Sonho desapareceu e eles continuaram rindo, como se estivessem drogados por sua própria consciência. Quando enfim se acalmaram – e o céu voltou a ficar branco e o mundo silencioso – estavam deitados na grama.

“Vamos ter que aprender a ser deuses, Victória.”

“Vamos deixar de ser quem somos em pouco tempo.”

“Você está certa. Não é a maior das ironias?”

“Sem dúvida. Destruímos o mundo para permanecer juntos e, no entanto, vamos fatalmente desaparecer.”

“Sabe o que é pior? Não podemos mais responsabilizar nada nem ninguém por isso!”

Riram novamente.

“O que fazemos agora? Tem alguma idéia?”

“Na verdade, tenho.”

“O que é?”

“Vamos fazer um filho.”

Riram mais uma vez.

“A idéia é genial. Mas eu quero uma filha. Não, quero duas filhas! Gêmeas!”

Riram de novo.

“Do modo convencional?”

“Acho que sim. Afinal, muitas mitologias sugerem que deusas engravidaram de deuses e deram a luz à outros deuses. Acho que eles viviam uma situação parecida com a nossa agora.”

“Verdade. Vamos ser os novos Zeus e Hera.”

“Nem pensar! Zeus era capaz de virar até touro se fosse preciso pra transar com as mocinhas gregas! Pense logo em outro panteão!”

E riram como ainda ririam centenas de milhares de vezes. Durante o dia, recriavam o mundo à seu modo, segundo sua vontade. À noite, sonhavam lucidamente: sonhavam que eram apenas seres humanos, duas pessoas que viviam longe de tudo, em um trailer perdido no meio do nada. E mesmo que a eternidade os tenha transformado totalmente, todas as noites, em sonho, eles se lembravam de quem haviam sido um dia e que, no fundo, nunca deixaram de ser.

E o mundo havia recomeçado.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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4 respostas para Os Onironautas: Parte XII – A Recriação do Mundo

  1. Sieglynnd Stockhausen; disse:

    No fim das contas a imagem acabou mesmo caindo como uma luva. \o/

    E, veja, a última parte da história foi publicada justamente no dia em que o autor do livro que começou toda essa história completa oitenta e um anos. Um belo acaso, não? ♥

    Miluji tě

  2. Victor disse:

    Foi um prazer dividir essa bagunça esquizofrênica com você por esses doze dias, mesmo que você já conhecesse a história. Embora haja um descarado uso do personagem de Neil Gaiman aqui – e uma referência direta à outras obras – é ao ao velho mestre tcheco que devo prestar homenagens, mesmo que essa brincadeira superfantástica pouco ou nada tenha a ver com sua literatura.

    Miluji tě.

  3. Carol disse:

    oi! nossa, achei seu site quando estava procurando por sardas no google images (não que eu precise disso, basta me olhar no espelho). A foto do seu cabeçalho é mto legal, uma das cenas que mais gosto de sandman, sou apaixonada pela série e pelo autor. foi muito legal passar aqui e ler as suas coisas. espero que possamos nos ler mais vezes, fica o convite pro Divina Comédia. Vou te add nos meus links pra eu não me esquecer de voltar. Gostei daqui. Até mais ler.

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