Existentialist Night Fight

(…) Ontem troquei meu ninho verdejante por Paris, e lá deixei meu quarto rosa-dentifrício por uma dessas caves chiques, nas quais atualmente as pessoas dançam e bebem. Já lhe falei de duas delas, mas esta é uma outra, situada na mesma rua onde moro. No ano passado era um clube privado, freqüentado por antilhanos, mas hoje em dia todo o Saint-Germain-des-Prés intelectual se reúne ali, noite após noite. Perto das onze horas, bate-se na porta de um café com um clima de mistério e uma mulher de cabelos negros nos abre a porta. Desce-se até uma cabe das mais elegantes: tapetes, poltronas de um vermelho profundo, piano-bar, discos. Toda espécie de gente freqüenta esse lugar, todos batendo misteriosamente à porta, todos intelectuais brandindo agressivamente os estandartes de seu clã: bandeiras opostas. Micheline Presle estava lá, essa bela atriz francesa que interpreta Adúltera, de que lhe falei e que agora atua no filme de Sartre. Ela estava com Pagliero, o ator italiano de Roma, cidade aberta, seu coadjuvante, e dois outros caras do cinema que conheço. Eles não levavam nenhuma bandeira. Mas os outros se proclamam existencialistas (inclusive eu), ou comunistas, ou fascistas. Entre esses se achava um cara safado e muito esquisito, maluco e odioso, que deveria ter sido fuzilado após a Libertação e que dançava com uma mulherzinha bêbada e odiosa. Vários colaboradores e fascistas os acompanhavam, e a atmosfera estava muito tensa. No fim da noite, os fascistas proferiram em voz alta uma reflexão nojenta sobre os judeus, e um comunista perguntou: “O que há de errado com os judeus?” Alguns existencialistas vieram propor aos comunistas uma aliança temporária para cair de socos sobre os fascistas. Os comunistas recusaram e começaram a discutir asperamente com os existencialistas, cada um dos dois grupos agitando agressivamente ao vento sua bandeira. Depois os comunistas foram embora, para furor dos existencialistas, dentre os quais um avançou sobre um fascista, pisando-lhe o pé. Este último disse “você esmagou o meu pé”, e eles começaram a se insultar. Todo esse mundo se reagrupou em dois clãs, excetuando-se três ou quatro caras nas poltronas vermelhas que estavam bêbados de cair. Todos saíram para brigar. As mulheres permaneceram no interior, esperando e bocejando, porque eram quatro horas da manhã, até que os homens voltaram sem que nada tivesse acontecido. Esse tipo de incidente acontece todas as noites, disseram-me, nessa elegante cave intelectual.

Em Cartas à Nelson Algren – Um Amor Transatlântico, de Simone de Beauvoir.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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