Testemunho

Agora me parece que uma das coisas mais tristes que pode acontecer à uma pessoa é perceber que todo o seu tesouro de memórias não é mais do que uma coleção de imaginações distorcidas e que o vivido confunde-se de modo indistinguível do fantasiado. Sentir a força dessa certeza do leito de morte é perceber que talvez as mais preciosas experiências que guardamos na recordação são corrompidas por uma liberdade inútil, que ilude a alma inventando uma vida que não aconteceu.

Veja, eu sou um filósofo. Ocupei-me das mais altas especulações, das obras mais abstratas do espírito humano, das idéias mais profundas e dos livros mais volumosos que se pode ler. Não produzi uma obra pela qual meu nome possa ser lembrado no futuro como o nome de um pensador sagaz. Fui um professor. Ensinei rapazes e moças sobre a metafísica de Aristóteles, sobre o sujeito de Descartes, sobre a moral de Kant. Mas sou um filósofo. Sei coisas importantes. Sei, por exemplo, que o primeiro dizia que tudo o que fazemos na vida visa a realização da felicidade. Mas essa é uma idéia anacrônica que a ninguém interessa, pois vivi em um mundo que existe para além da idéia de felicidade, de tal modo que nem mesmo eu fui capaz de acreditar nela. Não me parecia possível encarar minha própria vida como uma marcha na qual a sabedoria não é chegar ao destino, mas aprender a não tropeçar nas pedras do caminho. Vivi como se não fosse morrer nunca, construindo um futuro que jamais chegará. Teci uma vida frágil e fantasmagórica, cujo último capítulo será essa certeza incômoda de não poder não ver minha própria existência como um desperdício, uma vida que será esquecida por mim e por todos assim que eu fechar meus olhos pela última vez.

Sou um velho, é verdade. Já deveria estar acostumado com a idéia de que a morte se aproximava desde que meus cabelos começaram a ficar brancos ou desde que percebi que nenhuma mulher desejável deitaria comigo de graça, mas só consegui viver essa certeza neste leito infecto. Dias atrás, por força do efeito dos medicamentos, dei vexame ao tomar pela própria Morte a neta de meu irmão, com suas roupas modernas e seu cabelo desgrenhado. Só fui me acalmar horas depois, mal conseguindo acreditar que estava protagonizando os espetáculos da falta de lucidez que jamais julguei possíveis para um homem como eu. Nunca fui homem de escândalos, pois sempre julguei que a exaltação não combina com a condição humana. Mas deixei meus familiares constrangidos quando delicadamente implorei para a menina me revelar o que é que existe depois da vida.

Padecer de uma doença que eu mesmo produzi com meus vícios não torna a morte mais aceitável ou menos dolorosa. Cada vez que o ar é injetado artificialmente em meus pulmões pelos aparelhos aos quais estou conectado há quase um mês me fazem pensar inevitavelmente que minha vida já terminou, e que esta parte de mim que aceita permanecer ligado à um tubo de oxigênio porque não quer morrer é uma parte perversa, pois a idéia de uma dignidade humana me é inseparável da idéia de vida: por que permanecer vivendo quando já não se tem mais a menor autonomia sobre os processos fisiológicos mais básicos? Por que oferecer o espetáculo do próprio apodrecimento àqueles a quem mais se ama? Mesmo constatando o terrível sentido dessas verdades, o desejo irracional de permanecer de olhos abertos é mais forte, e me arrependo de nunca ter lido Schopenhauer de boa-vontade.

É esse mesmo desejo que me motiva a escrever estas linhas, cuja caligrafia trêmula me faz pensar que jamais será legível, ou talvez no máximo por outro filósofo moribundo. É o desejo de permanecer existindo em qualquer forma, o desejo de possuir, mesmo depois do desaparecimento, alguma forma de existência. Mesmo sabendo que existir como lembrança distorcida na memória de outros que logo tornar-se-ão o mesmo nada não é uma existência das mais desejáveis. Quando percebo que a vida é essa sucessão sem fim de eventos e pessoas totalmente contingentes, que deixam o mundo para voltar ao nada do qual surgiram, fico realmente comovido. Mas não é nada confortável chorar e soluçar com a ajuda de aparelhos, e a impossibilidade de verter lágrimas talvez me prive da possibilidade de viver a tragédia de meus últimos suspiros da maneira apropriada. Assim, não tenho sequer a força de vontade necessária para dar à essa carta o tom que ela deveria ter, o tom de despedida. Porque é completamente inútil morrer sem deixar uma mensagem para aqueles que ficam, um último parecer sobre a vida. Mas a fragilidade desse último testemunho é grande demais para justificar por si sua existência: aqueles que o lerem também desaparecerão. E em algum momento, quando nenhum rastro mais se conservar, um homem como eu terá desaparecido totalmente da face da terra. Já que fui uma pessoa que não foi capaz de impor sua presença às outras pela via da História, minha única alternativa seria a de ter cultivado uma vida na qual meu testemunho final interessasse à meus convivas. Mas eu não tenho convivas. Então, com a parca força que ainda pulsa em meus braços, risco um fósforo e queimo a centésima tentativa de escrever uma despedida minimamente digna, onde eu consiga dar um sentido para uma existência desperdiçada e para o sentimento de vergonha por não ter vivido…

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
Esse post foi publicado em Despojos, Espiando Pelo Buraco da Fechadura, Fábulas Para Entristecer, Filosofança, Por um mundo Punk-Gótico. Bookmark o link permanente.

2 respostas para Testemunho

  1. Saulo Cruz disse:

    Olá.

    Todas as questões levantadas no texto me sensibilizam muito.

    Ganho a vida mostrando aos outros o que vejo. Sou fotógrafo. Meu “pós-morte” será viver através de todas as coisas que registrei.

    E viverei nas fotografias que apareço, também.

    Minha eternidade se dará enquanto conservarem meus HDs intactos e minhas cópias impressas em bom estado.

    Assim vejo minha herança faraônica: viver através de todos os pixels e grãos de película que escrevi com a luz.

    Um abraço.

  2. Excelente quase resignação, que bom que retornaste!

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