Sobre o V Conifil

Entre os dias 14 e 18 de junho de 2010 foi realizado o V Congresso Internacional de Filosofia da Unicentro, em Guarapuava, interior do Paraná. O evento foi organizado pelo Departamento de Filosofia da Unicentro e contou com a presença de professores do Brasil e do exterior. Mesmo disputando a atenção com a Copa do Mundo, a presença de cerca de 500 participantes entre conferencistas e ouvintes nos auditórios e salões nobres da Unicentro e da Faculdade Campo Real permitiu a realização de interessantes debates, que versaram sobre “Linguagem, Ética e Política”. Ocupando as tardes e noites da semana, as conferências encheram os salões. Mesmo as apresentações de trabalhos de acadêmicos contavam com publico satisfatório. Destaco a seguir alguns momentos que chamaram a minha atenção.

Na abertura do evento, o prof. Dr. Diogo Ferrer, da Universidade de Coimbra, falou sobre “Ética e Sistema em Hegel”. Recortando momentos-chave da filosofia do pensador alemão, o professor Diogo discorreu sobre as condições da moralidade e da eticidade dentro de um sistema filosófico que digere racionalmente toda a história humana. Como sartreano, não pude deixar de concluir que a filosofia prática de Hegel parece truncada por um movimento da história que tudo subsume em nome de uma Razão em movimento. Evidentemente tais conclusões são absolutamente perspectivas e parciais, e o prof. Diogo, presente em todas as conferências seguintes, não deixou de dialogar suas teses sobre Hegel com as mais diversas perspectivas filosóficas sobre o tema.

A noite de quarta-feira contou com uma inusitada conferência sobre algo que foi chamado de “paleofilosofia” e que passava ao largo dos meus conhecimentos em filosofia. Projetando em slides imagens que iam desde esculturas pré-históricas, passando pelo homem vitruviano de Da Vinci até as imagens de Madonna ou Schwarzenegger, o prof. Dr. Constantin Rauer, da Universidade de Tübingen, Alemanha, discorreu sobre o papel da imagem naquilo que os filósofos chamariam de uma “auto-imagem” da humanidade. Contando com a impecável tradução do prof. Ernesto Giusti, a palestra foi realizada em francês e alemão e me apresentou um território filosófico que parece pouco explorado e ainda novo.

O próprio professor Ernesto Giusti, da Unicentro, merece uma menção naquela que foi, para mim, a melhor conferência do evento, realizada na mesa-redonda da quinta-feira pela tarde. Versando sobre “Epistemologia, ceticismo e realismo moral”, o prof. Ernesto discorreu com extrema desenvoltura sobre alguns conceitos da filosofia analítica e sobre as contradições intrínsecas à algumas posições céticas, demonstrando as razões pelas quais não é exagerado definir como impossíveis algumas perspectivas de ceticismo moral. Em um daqueles momentos filosóficos que bagunçam um pouco as convicções do ouvinte relativamente atento e interessado no assunto, preferi digerir em silêncio e sem questionar as considerações do prof. Ernesto que, sem perder o foco por um instante sequer, cercou habilmente o tema em seus limites e me ofereceu umas duas ou três idéias que terei sempre em mente quando o tema for fundamentação da moral.

(Entre outras coisas, descobri que o tipo de reflexão que gosto de realizar em ética é algo mais próximo de uma “metafísica dos valores” do que uma “filosofia prática” em sentido estrito)

A conferência de encerramento foi uma belíssima apresentação de um professor que eu já tivera a oportunidade de prestigiar em casa, na UFSM: o prof. Dr. João Carlos Salles pontuou algumas coisas importantes sobre o sujeito em Wittgenstein, compondo a mesa com o prof. Dr. Marciano Spica, coordenador do evento, que pronunciou as palavras finais depois da palestra do prof. Salles. Não sem que antes eu cedesse a tentação de pedir explicações básicas sobre o sujeito wittgensteiniano ao professor Salles, grande especialista no assunto. Saí com a impressão de que o sujeito não tem “lugar” numa “ontologia wittgensteiniana” porque ao se perguntar sobre os limites da significação, Wittgenstein questiona sobre as condições de possibilidade da inteligibilidade de uma ontologia, ou seja, ataca uma dimensão supostamente mais profunda. Evidentemente não quis – e não quero e não vou – problematizar a questão com um gigante como Salles, mas não será a questão ontológica – isto é, sobre o ser da significação – mais central, mais profunda, mais bonita e mais legal do que a questão da significação?

Brincadeiras à parte, penso que o evento foi interessante – para usar os termos do prof. Salles – para analíticos ou cartesianos, para todos aqueles que, da área ou não, tem interesse em filosofia.

PS: Por último, mas não menos importante, uma outra comunicação brilhante foi realizada: a minha. Apresentei um trabalho, parte da dissertação que venho construindo. Por cerca de vinte minutos, falei sobre “Valores Morais, Má-Fé e Psicanálise Existencial” para um publico sartreano qualificado. Na imagem é possível perceber que minha comunicação foi um sucesso de público.

Crédito das imagens: Sieglynnd Stock.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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2 respostas para Sobre o V Conifil

  1. Sieglynnd Stockhausen; disse:

    Engraçadinho! :D
    Na próxima vou incomodar os filósofos me locomovendo, tacando flash e fotografando incovenientemente o público até me expulsarem. Só pra evitar piadinhas, hahaha.

    Mas veja as linhas da foto, que composição, que profundidade! -not

    No mais, esquisofrenia filosófica é o que há! -q

    Hahahahahahaha. ♥

  2. Victor disse:

    Não esqueça de gritar coisas como “lindo, tesão, bonito e gostosão” ou levantar uma placa com “CALA BOCA VITOR”. (:

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