Ela Perdeu o Controle

No consultório do Dr. Montserrat

– Quer explicar por que você fez o que fez?

– Você sabe. Porque ele gostava de ficar invisível no banheiro das meninas.

– Sim, eu sei. Quero saber por que alguém que faz isso merece esse julgamento.

Ela não se importava com a fumaça do cachimbo, desde que a janela pudesse ser mantida aberta, o que fazia com que a luz azulada da lua entrasse no consultório. Montserrat tentava manter uma atenção dupla: precisava encontrar o verdadeiro sentido das ações de sua amiga e precisava se manter alerta para o caso de uma perda de controle da parte dela, pois ela sempre perdia o controle. E ficava perigosa.

Quando entrou no consultório de Montserrat, sua amiga deixou um presente sobre a mesa. Pelo formato, pela embalagem e pela natureza de sua amiga ele sabia o que era. Deveria se tratar de um espelho, muito provavelmente um espelho quebrado. Um espelho quebrado que deveria ser mantido como ornamento do consultório enquanto ele estivesse naquela cidade, como sinal da amizade. Muito embora Montserrat soubesse que só manteria o espelho na parede por uma espécie de prudência, porque é sempre perigoso discordar de alguém tão temperamental e com valores tão radicais.

Por alguns momentos Montserrat simplesmente perdia essa atenção dupla direcionada à sua amiga, seja por estar saboreando a fumaça de seu cachimbo, seja por perder-se em devaneios eróticos com a figura da amiga.  Ela expunha seus valores na medida em que explicava os fatos, facilitava o trabalho dele. Não era muito profunda ou inteligente, mas possuía uma capacidade analítica tão grande quanto a cegueira para as próprias contradições. Mas as coisas funcionam exatamente assim, ou pelo menos é nisso que Montserrat acredita: todos vivem em um ponto cego sobre si mesmo e se não fosse o caso, pessoas como ele – médicos da alma – não existiriam.

Ela, uma moça bonita, deixava claro que não achava correto que os outros agissem sem levar em consideração a felicidade coletiva. “Felicidade coletiva”. Mesmo sendo quem era e sendo obrigada a fazer o que fazia, a moça ainda encontrava meios de pensar na coletividade. Identificava o “egoísmo” ao próprio Mal e se torturava todas as noites pelas ocasiões em que foi obrigada a fazer o Mal. Contudo, a frieza com que via a própria conduta de julgamento e punição dos pecadores era o que a tornava categoricamente uma psicopata aos olhos de Montserrat. Evidentemente, era uma espécie de santa aos próprios olhos. Ia conversar com Montserrat apenas porque ficava perturbada com o fato de que ninguém concordava com seus valores e, portanto, condenavam suas ações como imorais. Ora, justamente suas ações, a expressão máxima da justiça!

É preciso mencionar que Montserrat já fora amante de sua amiga. Desde o reencontro, quando ela foi enviada para o consultório por seus superiores, Montserrat viu entrar em marcha um processo dialético cujo desenlace já se anunciava no primeiro momento: exercer a análise ou a terapia sobre sua amiga era completamente impossível, destruir o transtorno seria destruí-la, pois ela era feita do próprio transtorno, era sua substância. Especialmente naquela noite Montserrat sentia – e o espelho como presente era o sinal – que seria a noite do desenlace. Ela não iria ceder de sua posição radical. Permaneceria em sua moralidade em preto-e-branco. Montserrat, naquela noite, não estava na posição de analista. Ele era uma presa.

Como previra, a moça sentou-se no divã quando seu discurso estava na antecâmara do clímax, saindo da posição de paciente, olhando Montserrat nos olhos. Filetes rubros paralelos desciam por um rosto delicado e pálido, emoldurado por cabelos negros, lisos e desgrenhados como os dele próprio.

– Você acha que eu estou errada?

– Eu compreendo você.

– Não foi o que eu perguntei.

A moça até teria capacidades intelectuais para dar um passo “para trás” de si mesma, tornar-se relativa, ver de frente a natureza das próprias crenças e valores. Mas isso seria um pecado fundamental em sua escala moral. Os valores não podem ser vistos como caprichos, precisam ser vistos como certezas, ou o Bem seria uma brincadeira. Discordar do Bem é duvidar de uma certeza, de uma evidência. E alguém que não é capaz de ver o Bem com evidência é um praticante do Mal em potencial. E certamente Montserrat entraria na lista negra de sua amiga tão imediatamente quanto admitisse que não concorda com a mínima fração de sua moralidade – que, aliás, ele considera como sintoma de uma doença cujos portadores deveriam ser enjaulados para o bem de hedonistas como ele. De qualquer forma, era o momento do desenlace. E se os momentos obedeceram uma lógica, o momento final era agora.

– O que é o presente que você está me dando?

– É um espelho, você sabe. Um espelho quebrado no qual você só vai ver a si mesmo se eu morrer. Se me matar.

• • •

Montserrat sabia que o momento final de sua amiga seria um último clamor desesperado por atenção, por aceitação. Seus valores evidentes e inquebrantáveis lhe davam uma força infinita para agir como uma agente do Bem sobre a terra, mas não podiam lhe oferecer um mínimo de companhia. Antes de conseguir imobilizar a amiga, Montserrat não conseguiu evitar que a moça quase destruísse por completo seu consultório. Diria mesmo que foi por um detalhe que teve êxito, e que ela poderia ter destruído a ele próprio se realmente quisesse, se talvez não estivesse impregnada de uma última esperança de ser aceita por ele, que tudo compreendia. Agora ela estava imobilizada sobre o divã.

Ironicamente, o presente continuava intacto na embalagem.

– Você me obriga a fazer o que eu mais detesto, justamente com você, que é quem menos merece algo assim. Mas você se tornou perigosa demais para continuar existindo. Veja, se você não depositasse justamente sobre mim a responsabilidade de acolher essas suas exigências irrealizáveis, nada precisaria acabar assim. Mas eu acho que você veio aqui hoje com a intenção de pôr um fim nisso, para me obrigar a fazer o que estou fazendo, porque você só poderia morrer em paz morrendo como vítima. Sabia que eu a deixaria neste estado, sem poder reagir, responder ou se defender. Meu veredicto, meu julgamento sobre você é o último capítulo de sua tragédia, de seu fracasso, o único final digno para sua história. Como se eu fosse o próprio representante do Mal sobre a terra e sua história fosse a história de uma injustiça. Mas você está errada, e esse suicídio simbólico é a prova de que você sabia disso.

Ela perdeu o controle novamente. Emitia guinchos que cessaram quando ele ordenou que ela se calasse. Ela o acompanhou com os olhos confusos quando este desembalou o presente. As linhas no espelho quebrado obedeciam a padrões que só ela poderia explicar, mas que nunca explicaria. Ele colocou o espelho na parede. Era um dos poucos itens no lugar correto em uma sala em total desordem, com objetos quebrados e espalhados pelo chão. Montserrat demorou-se a olhar para o espelho, vendo sua figura recortada em diversas partes naquele ornamento doentio, símbolo da desordem que tanto o assustava.

Olhando a própria imagem distorcida acompanhada da imagem de sua amiga imobilizada no divã atrás de si, era impossível não ver a si mesmo no papel do psicopata, do perigoso, daquilo que vai ao extremo e que deveria ser controlado. Sabia – o olho de sua mente via com certeza e evidência – que ele próprio só agira como ela porque precisava se defender, porque precisava se preservar, salvar a própria pele. Sabia que não fazia aquilo do mesmo modo que ela, em nome de caprichos insistentemente sustentados como valores. Mas diante daquele espelho quebrado era impossível não ver o conteúdo da própria ação, impossível deixar de notar que os motivos das ações eram invisíveis e que tudo o que se oferecia em concreto era aquela moça imobilizada, com lágrimas de sangue nos olhos infinitamente tristes, infinitamente carentes, infinitamente solitários. Seria um truque dela? Aquele espelho interferia na ordem lógica dos eventos? Era um elemento que ele não previra? Era impossível saber o que aconteceria depois daquilo, mas era inegável que Montserrat já não tinha mais forças para acabar o que tinha começado. E que só havia uma coisa à fazer. Então caminhou lentamente na direção da moça, sem fitá-la diretamente.

– Eu não concordo com suas atitudes. Você sabe, sabia quando entrou aqui. E agora tem tudo o que queria. Deve-me a vida, e o fato de eu preservar a sua é a prova de que eu não sou um monstro, o que a desobriga para sempre de dar cabo da minha vida. Sou o único que a compreende, isso já é o nível mínimo de aceitação de que você precisa para continuar sua cruzada contra o Mal. Meus parabéns.

Com um movimento brusco, Montserrat liberta a moça, que não consegue conter um sorriso tímido, que ostenta sem piscar enquanto olha para Montserrat. Montserrat quase pode sentir o abraço que a lunática deseja lhe dar. Volta para sua mesa e, de costas, reacende seu cachimbo. Ela não vai matá-lo, nunca planejou isto. Trabalhar todo o tempo com essa premissa fez com que Montserrat errasse a conclusão, com que ele não pudesse prever os passos seguintes ao desenlace que ele próprio via. E se ela não representava perigo para ele, ele não tinha razões para odiá-la. E ela sabia disso.

– Vá embora. Deixe-me em paz. Vá fazer o Bem lá fora.

Falou ainda de costas para a amiga que, sem desfazer o sorriso, saiu do consultório sentindo-se mais leve do que nunca, pois não estava mais sozinha.

E Montserrat ligou seu aparelho de rádio, colocando um de seus discos preferidos. Era a hora de arrumar a desordem que ela fizera.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
Esse post foi publicado em Despojos, Espiando Pelo Buraco da Fechadura, Fábulas Para Entristecer, Por um mundo Punk-Gótico e marcado , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para Ela Perdeu o Controle

  1. Sieglynnd Stockhausen; disse:

    Brilhante, mas eu queria ver sangue!

  2. Victor disse:

    Sangue? Mas eu sou um Jedi! -q

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