O Código de Platão (ou “Platão na Caverna das Maravilhas”?)

Ontem eu conversei com um colega filósofo que estuda filosofia há mais ou menos tanto tempo quanto eu (isso quer dizer pouco mais de seis anos). Dizia pra ele que sentia falta de uma figura como um gigante da história da filosofia. Um Kant realizando uma revolução copernicana na filosofia e nas ciências de seu tempo, um Hegel descobrindo na História do sujeito da própria História, alguém assim. Não foi uma conversa muito otimista, pois parece que os tempos já não oferecem condições adequadas para o florescimento de um herói-filósofo que seja capaz de erguer-se do burburinho histórico e dar uma palavra definitiva sobre o mundo de hoje. O burburinho das humanidades está muito alto, como numa feira – ou, para ser fiel aos tempos, como em um pregão da bolsa de valores.

Há dois ou três dias, venho ouvindo os rumores sobre o Código de Platão. É obviamente um daqueles assuntos que tem grandes chances de se popularizar rapidamente, por seis meses ou quem sabe até quase um ano, como foi o Código da Vinci. Quem sabe pode virar até filme. Dirigido pelo Tim Burton, com Johnny Depp no papel de Platão e Jack Nicholson no de Sócrates. Imagine-se, que luxo? Um filme filosófico com a estética surreal como a do Alice no País das Maravilhas onde Platão-Depp cai em um buraco e vai parar em um Mundo das Idéias musical, onde as idéias ressoam como taças de cristal e ensinam os segredos do universo. Esse eu ia ver no cinema.

Porque parece que essa é a idéia. Além de ser o primeiro gigante da história da filosofia, Platão também pode ter sido uma espécie de Nostradamus? Infelizmente é muito cedo para julgar o que quer que Jay Kennedy, o maior candidato a herói filosófico do ano, afirma em seus livros. O que as reportagens pela rede estão afirmando é que descobriram que Platão decidiu esconder mensagens secretas em forma de enigmas para não ter de beber a cicuta que matou Sócrates, que ele teria antecipado em dois mil anos a descoberta da organização matemática do mundo feita por Galilei e Newton e também que ele “usa seus leitores como instrumentos musicais”. Isso tudo parece tão extraordinário e, reafirmo, já espero um “Plato’s Wondercave” mesmo antes de saber bem do que se trata – e, claro, se se trata de filosofia, afinal.

Mesmo que pareça que pode ser mais um caso de festim literário, como quase-filósofo eu temo pelas implicações que um Código da Vinci filosófico possa produzir na filosofia. Em primeiro lugar, a enormidade de obras nas prateleiras, produzidas por professores no sentido de desmascarar uma eventual farsa – tendo nisso a oportunidade de projetarem a si mesmos como pequenos heróis desmascaradores de um charlatanismo. Em segundo lugar, a enormidade de obras sérias explorando o que dá pra relevar do Dan Brown filósofo – textos que serão, em um primeiro momento, indiscerníveis do burburinho. E em terceiro lugar – mas não menos importante! – as disciplinas sobre o “Código de Platão” que eventualmente podem ser oferecidas nos cursos, a despeito da seriedade do livro. Se a coisa chegar nesse ponto, convenhamos, acho que estou perdoado por torcer pela realização de um filme filosófico pela dupla Burton-Depp.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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