Excertos do Subsolo I – Moral e Medo

“(…) Veja, sobre este caso da mulher que ateou fogo no corpo do marido adúltero, não vejo sentido em julgá-la moralmente como não vejo sentido nesses julgamentos de um modo geral. Concordo que em um nível estatístico os crimes de ciúmes são cometidos por mulheres, mas não há verdade em estatísticas, não para mim. Não creio que o que ela fez seja diferente daquilo que fiz quando dei dois tiros no vendedor de jornais. Apenas semanas depois do ocorrido fui capaz de reconhecer o tipo de valor que estava em jogo quando derrubei aquele moleque. Hoje sei que agi segundo a convicção de que um cidadão tem o direito de reagir, mesmo que de forma extrema, quando perturbado em seus interesses. Naquele momento eu queria tranqüilidade, e aquele garoto feriu meu interesse. A mulher das manchetes queria fidelidade. Eu mesmo, quando vendia jornais, queria atenção. Achava que aqueles burgueses, motoristas gordos em seus automóveis, tinham o dever moral de me ajudar comprando jornais. Não foi por outra razão que mais de uma vez anotei suas placas e furei seus pneus, bem como furtei seus toca-fitas. Estava interessado em piedade e atenção, e estas são moedas de troca informais em nosso sistema. A habilidade em esconder os crimes é uma dimensão secundária dessa questão, e não tem importância nenhuma no que quero dizer agora, que é simplesmente o seguinte: os atos humanos tem um fundo mais verdadeiro que os interesses que justificamos. Primeiro queremos algo, depois construímos edifícios de argumentos que dão uma aparência lógica àquilo que fazemos. Mas essa lógica é superficial, vem depois de uma dimensão ilógica, porque nada explica o que queremos. Por isso esses juízos morais não valem nada. As pessoas sempre querem coisas diferentes umas das outras, seus julgamentos pífios só valem para elas mesmas. A concórdia pública sobre os pneus sabotados, jornaleiros baleados ou maridos adúlteros queimados vivos não são senão a expressão do medo daqueles que temem o mesmo destino.”

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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