Bauhaus – O Teatro do Medo

Cristalizadores – junto com Siouxsie e seus Banshees – do chamado “punk gótico”, o grupo tem agora sua coletânea de compactos enfim lançada no Brasil. quem traça o trajeto é Marcel Plasse

“Agora que eles concordaram em nos deixar continuar, vamos encerrar o Bauhaus.” Com estas palavras, Mier van der Rohe, último diretor do instituto Bauhaus, despedia-se do regime nazista em 1933. Era o fim de um projeto criado em 1919 por Walter Gropius, que tinha por lema “Arte e Tecnologia”.

Desce o pano.

Quatro décadas depois, encontramos Kevin Haskins, baterista de um grupo punk de Northampton, o submerged Tenth, procurando um guitarrista. Encontramos Daniel Ash, então. Este, por sua vez, escrevia umas bobagens com Peter Murphy, que conhecia desde a idade escolar. Alguma coisa em comum eles tinham, pois, em vez de Danny, Kevin foi quem acabou sendo recrutado pela dupla. Havia um baixista, também, mas não muito eficiente. Um fã de reggae chamado David Jay foi convidado apressadamente para substituí-lo nos pequenos shows iniciais. “Legal e quando é o próximo?”, ele perguntou. “Amanhã à noite”.

Assim surgia, sessenta anos após o nascimento original, a segunda encarnação de Bauhaus, a princípio denominada Bauhaus/1919. Uma recordação de arte esmmagada pelo fascismo. Um nome oprimido, uma estética angustiada. Temas potenciais. Na contracapa do primeiro compacto, um fotograma de O Gabinete do Dr. Caligari, ícone do cinema expressionista alemão, apropriadamente de 1919. Sombras sobre fundo branco. A capa inevitável: Bela Lugosi como o vampiro Nosferatu. A imagem do horror clássico. E a canção: “Bela Lugosi’s Dead” (1979).

Sua principal influência foi o glam rock, do qual tiraram  todas as cores e converteram em teatro do medo, apoiados num impacto cênico que tinha em Pete a figura central. Pete, de olhos azuis faiscantes, belo como uma heresia, sempre de preto, saia de couro, atraindo meninos e meninas até o backstage.

‘The passion of lovers is for death”, ele ensinava. A voz no limite do gutural, arrastando-se no chão, enquanto a guitarra de Danny se transformava em guinchos de morcego. Danny com um raio pintado no rosto, David de terninho mod e impenetráveis óculos escuros, Kevin de casaco de couro e brilhantina. A crítica, entretanto, não queria saber dessas máscaras. “Monstro de pomposidade e pretensão”, acusava, caindo de pau.

Nada aconteceu quando lançaram o primeiro LP, o autoproduzido In the Flat Field (1980). Mask (1981), embora mais elaborado e menos sujo, também não entrou nas paradas. The sky’s Gone Out (1982) e o ao vivo Press the Eject and Give me the Tape, incluído nas cópias britânicas deste disco (e posteriormente editado como um álbum separado), tiveram destino semelhante. Sua influência já era sentida nos novos grupos do então chamado “positive punk”, mas sua fama ainda era pálida como seus rostos. Foi preciso gravar uma velha canção de David Bowie para chegar à parada de sucessos. Nada menos do que “Ziggy Stardust”.

Bauhaus já excursionara pelo terreno das versões com seu quarto compacto: ‘Telegram Sam” de Marc Bolam. “Third Uncle” de Brian eno, abria seu terceiro LP e acompanhava a canção de Bowie no lado A do compacto. O B, por sua vez, trazia uma versão ao vivo de “I’m Waiting for my Man”, de Lou Reed.

Burning From Inside (1984) foi o último LP. Mais acústico e ácido. Trazia um pequeno hit: “She’s in parties”, obra prima jamais reconhecida que chegou a ganhar versão dub. Ao mesmo tempo, “Bela Lugosi’s Dead” voltava à evidência com a performance do grupo na abertura do filme The Hunger (Fome de Viver). Gravam ao vivo em paris, quase fazem sucesso.

O clipe de “Ziggy Stardust” é bastante significativo como instantâneo do grupo. Pete cantando numa jaula, enquanto o público-zumbi, de preto e camisetas Bauhaus, avança. Imagens que vêm à mente junto à expressão: “I can’t take the pressure” (“eu não aguento a pressão”).

“Quando estavamos em New York eu consumi muita cocaína”, confessa Pete. “Eu estava me dado mais energia nervosa do que precisava. Isso me causava mais paranóia do que euforia.” O fato de sua figura estar sempre em evidência começou a pesar: “Eu acabei me identificando com as idéias que os outros tinham de mim”. E, no entanto, “havia canções que eu estava cantando e não havia composto”.

Para resolver seu problema existencial, Pete abandona a banda. Sua posição é clara: “Gostaria de passar mais tempo desenvolvendo alguma espécie de música em que eu possa estar totalmente envolvido e não apenas numa quarta parte”.

Seu projeto com o ex-baixista do grupo Japan, Mick Karn – intitulado Dali’s Car (título de uma música de Captain Beefheart) -, foi uma experiencia musicalmente oposta ao Bauhaus. A essência é o som do Japan, aliado à letras de tal forma luminescentes que chegam a assustar olhos acostumados com a escuridão. Um compacto e o LP The Waking Hour foram os únicos registros desse projeto. Apenas este ano Pete decidiu-se pela carreira solo, através de três compactos e do LP Should the World Fail to Fall Apart, para variar bombardeado pela crítica.

David Jay prometeu nunca mais ter grupo fixo. virou David J. , em trânsito pelos Sinister Ducks, Jazz Butcher, Jaywalkers (veja discografia em Cartas & Serviços, BIZZ 15), até juntar-se novamente com Haskins e Ash, que trocaram seu segundo grupo, Tones on Tail (que mantinham com o ex-roadie Glenn Campling) por uma pálida lembrança chamada Love and Rockets (Porão de BIIZ 6). A imprensa não poupou seu LP , Seventh Dream of Teenage Heaven. Talvez Tones on Tail tenha sido melhor. Talvez Bauhaus tenha sido melhor…

Danny e Pete continuam amigos até hoje. Encontraram-se e tocam juntos. Quem sabe apreciem a coletânea de compactos recém editada pela sua ex-gravadora, Beggar’s Banquet: 1979-1983, feito uma lápide. Um álbum duplo, ainda por cima – que realizou a façanha de entrar nas paradas.

Agora que concordam em deixá-los continuar, não existem mais. Uma piada suja. E o refrão é: “We love our audience”.

Em Revista BIZZ, nº 16. Novembro de 1986. Cr$ 20,00.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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4 respostas para Bauhaus – O Teatro do Medo

  1. Oh man, cada vez me encanto mais pelas revistas velhas e empoeiradas da BIZZ.

  2. Victor disse:

    Que eu jamais teria conhecido se você não me apresentasse o Sebo Akadêmico de Gorpatown. ♥

  3. Débora disse:

    Apesar de não gostar do disco, percebi que não faz referencia ao album de 2008 – Go Away White. Algum motivo em especial para esta omissão?
    Devo confessar que entrei no seu blog, pela primeira vez a alguns meses, procurando coisas sobre Milan Kundera e estou impressionada com o número de coisas você escreve sobre e que também aprecio.
    Parabéns pelo blog.
    Já está entre meus favoritos.

  4. Victor disse:

    O Go Away White – que eu não detestei e até acho que guarda certa semelhança com os discos anteriores – não está presente porque esta postagem é uma colagem de uma matéria de uma revista BIZZ de 1986, ou seja, 22 anos antes do disco ter sido lançado. :P

    No mais, obrigado pelos elogios. Como você deve ter percebido, a unidade temática das coisas que aparecem por aqui não é conferida senão por meus gostos pessoais. Fico feliz que também sejam os seus. :D

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