Hermann Hesse e o sentido lúdico da cultura

Entre o final de 2008 e o fim do primeiro semestre de 2009, fui perturbado por uma questão tão prática quanto metafísica: para que serve um filósofo? Motivada talvez pela ocasião da conclusão da minha graduação de minha filosofia – e acentuada pelo fracasso da minha primeira tentativa de ingressar em uma pós-graduação – a questão chegou a me fazer fantasiar com um dia derradeiro em que os descaminhos da história nos sujeitariam novamente à um totalitarismo qualquer que, de uma vez por todas, fechasse os cursos de filosofia. Sob o argumento de que engenheiros produzem casas, médicos produzem saúde, químicos produzem substâncias e filósofos não produzem nada, um ditador final fecharia para sempre as portas de todos os cursos de filosofia. Contudo, depois que fui enfim aprovado em um curso de pós-graduação, é provável que a pergunta decantasse lentamente para o esquecimento, não fosse a leitura de O Jogo das Contas de Vidro, de Hermann Hesse.

Antes de tudo preciso dizer que Hesse é um de meus pensadores preferidos. É um pensador que me incomoda, que escreve de um modo que me enfada, mas que se impõe para mim pela força de seu gênio a ponto de fazer com que eu tenha enfrentado as quatrocentas páginas do romance que lhe deu o Nobel em 1943. Fez com que eu o enfrentasse e ainda me sentisse impelido a julgar positivamente a leitura, mesmo me sentindo enganado por Hesse imediatamente depois do ponto final da narrativa. Explicarei.

O livro conta a história de Castália, do jogo de avelórios e de José Servo (Joseph Knecht). Castália é uma província utópica onde, de forma extremamente organizada e hierarquizada, a única ocupação de seus habitantes é o profundo estudo das mais diversas disciplinas, sobretudo matemática e música. Situada no ano de 2200 d.C. e depois da “era folhetinesca” (certamente uma alusão pejorativa ao tempo do próprio Hesse, que talvez ainda seja o nosso), Castália é um lar de intelectuais que não ocupam suas vidas com outra coisa que não seja o profundo estudo dos temas que escolheram. José Servo será o protagonista da história, e todo o livro será sua biografia. E o jogo de avelórios será a mais alta realização do espírito humano, uma atividade lúdica na qual se manipula uma linguagem capaz de tocar a unidade à qual todas as disciplinas, no fundo, se referem.

O enredo é simples e move-se na mesma esteira temática em que todos os romances de Hesse que li: a querela entre a vida do espírito e a vida vulgar. José Servo realiza seus estudos avançando todas as fases até alcançar – por mérito e por reconhecimento – a posição de mestre do jogo de avelórios. Contudo, mesmo em sua posição (enfadonha por suas responsabilidades, como a posição de um rei-filósofo platônico) Servo acaba percebendo, depois das lições de um monge cristão, que a história – disciplina um tanto desprezada pelos castálicos – tem muito à ensinar: Servo sente-se inclinado a crer que a confortável posição de Castália no “país” (que não é mencionado) está na iminência de sofrer um abalo ímpar, e que como mestre do jogo e castálico ele próprio tem a responsabilidade de fazer alguma coisa por Castália. Contrariando todas as expectativas da direção da província, Servo deixa o cargo e vai para o mundo exterior – fazendo portanto a opção pelo vulgar mundo da ação ao do espírito –, onde em poucas páginas o vemos ocupar-se, como mentor, da tutela do filho de um amigo. Nesse ponto da história, um acidente absolutamente gratuito em um lago gelado tira a vida de Servo e a biografia acaba, sendo sucedida pelas poesias de Servo e por três contos em que Hesse nos mostra três encarnações passadas do personagem. Depois de uma morte digna de um romance existencialista, cinqüenta páginas de elementos que não esclarecem nada.

Conseguem entrever por que me senti enganado?

Vi algumas pessoas comentarem que o que mais lhes irritou na obra foi a falta de uma descrição precisa do funcionamento do jogo de avelórios. É-lhes muito difícil visualizar qualquer coisa que tenha a pretensão de tocar a unidade por trás de todas as disciplinas. Pra mim, contudo, esse não é o problema. Talvez porque eu tenha feito uma interpretação um pouco apressada e que acabou, em minha opinião, sendo paulatinamente confirmada durante a leitura: o jogo de avelórios é uma metáfora para a própria filosofia e se não o é, pelo menos pode ser. Parece-me que nada na cultura humana poderia ocupar o lugar dessa atividade lúdica completamente inútil que é ao mesmo tempo a mais nobre realização da civilização, cuja inutilidade intrínseca não é senão um espelho (reafirmo aqui: um espelho quase existencialista) da gratuidade da cultura humana. Gratuidade de talvez toda a existência humana, atingindo até mesmo a dimensão da vida individual, representada por Hesse nessa morte absurda de Servo.

Eu teria esquecido minha desconfiança para com o caráter de minha profissão se não tivesse lido sobre a Castália de Hesse, uma espécie de “admirável mundo novo” para o qual parece estar marchando o estado atual das coisas de nosso tempo. Hesse como que descortinou uma resposta que já pode ser vista, mas ainda não pode ser plenamente vivida: as realizações do espírito humano culminam em uma atividade lúdica que será, em última instância, aquilo que de mais nobre a humanidade pode criar. Saio da leitura sem entender o que aconteceu com José Servo, o porquê de Hesse apresentar três existências anteriores ou mesmo o porquê de acabar com o protagonista em um acidente gratuito (deus ex machina?), mas saio pensando, sem culpa, que talvez seja lúdico o sentido último daquilo que estamos fazendo.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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5 respostas para Hermann Hesse e o sentido lúdico da cultura

  1. Bruno Alvarenga disse:

    No préfácio do livro, já é dito que “O Jogo das contas de vidro” é um romance enigmático.. Concordo com você quanto à subjetividade do Jogo (e da sociedade idealizada). Gostei muito das suas interpretações. Acho que este é o livro menos acessível de Hesse, e os temas tão pertinentes que compõem sua obra aparecem aqui de uma maneira mais evidente a medida que se aproxima o final da biografia de José Servo e de sua decisão pela “vita activa”. Até então, temos pura filosofia (o que de forma alguma tira o sabor do texto).

    Hermann Hesse é meu escritor preferido. Parece que “O lobo da estepe” foi escrito especialmente para mim.. Mas acredito que todo leitor se sente um pouco confuso ao final de “O jogo das contas de vidro”…

  2. Fabíola Lima disse:

    Também me senti enganada com a leitura desde livro do Hermann Hesse. Em outro livro de um psiquiatra havia uma sintese do mesmo, Irvin D. Yalom, Os desafios da terapia, onde o mesmo tem uma utra abordagem para o livro.
    Enfim quando o livro estava para acabar, veio a morte insignificante de Servo num lago congelado e o livro acaba. E ponto final.
    enfim, tive uma abordagem que seria a amizade entre duas pessoas de mundos diferentes que seriam, servo e Plinio e o respeito entre os dois.

  3. lealamode disse:

    herman incomoda. não li esse livro ainda, li o lobo da estepe. incomoda incomoda mesmo.

  4. Gilson disse:

    Duas decepções: Lobo da Estepe e o tão indicado Demian. Quando/se voltar a ler Hesse vai ser por esse.

  5. Boa noite. Lembrei dos jogos enquanto passava por uma angústia como o do autor do blog. Recorrendo a Hesse, e a vs, colaboro com a opinião de quem leu o romance aos 16 anos e esta interrogação que continuo a levar até hoje, talvez seja a razão de nunca ter esquecido.

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