Hedonismo e Melancolia

A palavra “hedonismo” carrega consigo uma cruz pesada, sobre ela depositada pelo julgamento coletivo que afirma a imoralidade de uma busca por prazer meramente individual. A busca pelo prazer individual é a antítese da felicidade coletiva, do bem-estar geral, do delicado calor da lã da ovelha ao lado que não representa uma experiência autêntica de prazer, mas evita desde o princípio a inveja da ovelha do lado. Esta espécie de calor é vista como uma das finalidades mais nobres que o espírito humano pode conceber e que a mão humana produzir. O hedonista seria precisamente aquele que prefere se sujeitar ao frio como regra para receber o calor como exceção, pois pensa que o calor como regra não faz o menor sentido, uma vez que não pode ser fruído sem a experiência do contraste.
O pai de Clarissa considerava a si mesmo um hedonista da melhor espécie. Muito embora todas as suas ações parecessem obedecer ao imperativo secreto de se tornar Deus, a consciência da impossibilidade da realização deste projeto fazia com que a própria jornada, vivida como um interminável jogo no qual se pode sempre acumular mais pontos, fosse desfrutada em um perpétuo estado de insólita melancolia: qual pode ser o sentido de uma vida onde o objetivo estará sempre à mesma distância, no horizonte? Esta foi a questão que surgiu em Clarissa quando ela conheceu seu pai, e foi dela que ele a libertou.
Clarissa vinha de um lugar onde o calor morno do tecido social era considerado o bem em si mesmo, o bem supremo. A instauração deste tipo de bem era mesmo a razão que costurava todos os costumes dos conterrâneos de Clarissa. E o que poderia ser considerado uma utopia se transformou rapidamente na imagem do pior dos pesadelos aos olhos de Clarissa: o casamento da liberdade e da igualdade, a identidade absoluta de perspectivas, a concórdia final de todas as idéias sobre a vida e o mundo não poderia ser senão o fim da própria vida e do próprio mundo. E ninguém que está no mundo de modo vivo e saudável (muita ênfase aqui na idéia de saúde, palavra-chave para o pai de Clarissa) poderia desejar a cessação da vida. O desejo por unidade, identidade e concórdia só poderia surgir no anelo daqueles que não desejam a vida, mas o fim dela, porque a experimentam sobretudo como sofrimento. E, para o pai de Clarissa, apreciar a vida como sofrimento era um sintoma da pior das doenças, a covardia.
Clarissa preferiu o hedonismo à covardia, e teve de defrontar-se com as idéias de seus conterrâneos: se há um hedonismo possível, só poderia ser o deles, o hedonismo coletivo! Tentaram, sem sucesso, apelando a diversas idéias bastante sofisticadas, provar que há uma base comum sobre a qual todas as almas podem soar em harmonia, sobre a qual todos os corpos podem fruir o mesmo, e que esta possibilidade se impunha à qualquer criatura racional com a força de um imperativo. Clarissa ainda tinha um sentimento de carinho e respeito pelo seu passado, e por isso não sentia a menor vontade de convencer seus antigos irmãos do contrário. Respeitava sua diferença. Mas o respeito à diferença, a aceitação do valor da diferença de perspectivas era algo completamente estranho à seus irmãos: se a identidade é um objetivo, a diferença é o inimigo. E não descansaríam jamais das tentativas de recuperar Clarissa.
Talvez eles tivessem sido bem sucedidos em seu empreendimento se o pai de Clarissa, por sua experiência, não julgasse apropriado a eliminação total do inimigo: se a diferença era o valor desejável, aqueles que lutam contra a diferença devem desaparecer. Aliás, Clarissa foi completamente convencida por seu pai de que a identidade coletiva era o suicídio de cada um, e que a vida só pode existir na diferença. Foi por isso que foi sem desespero, mas com melancolia que Clarissa assistiu sua antiga comunidade arder em chamas: com a melancolia hedonista de assistir o passado desaparecer do mundo real e escorregar delicada e definitivamente para o reino de suas memórias, único lugar onde ainda existiria aquela vila de casas iguais. Onde, enquanto memória, estaria sujeita as vicissitudes próprias do passado humano, único lugar onde poderia encontrar sua justa redenção.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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