A identidade, de Milan Kundera

Neste 20 de agosto, um de meus mais estimados amigos e colegas dos tempos da graduação em filosofia – já homenageado em outra ocasião por aqui – encerra mais um ciclo de estudos, concluindo seu mestrado com uma dissertação acerca do tema da “identidade pessoal” na obra de Paul Ricoeur. Tendo isto em mente, decidi presenteá-lo com um pequeno livro do meu autor preferido, um livro que eu próprio não havia lido até então. Mais precisamente A identidade, de Milan Kundera. Pode ser de extremo mau gosto usufruir de um presente antes de entregá-lo, mas não pude resistir. E a leitura de um livro de Milan Kundera simplesmente não poderia passar em branco aqui neste blog que leva como título um termo da obra deste pensador.
O romance, concluído em 1996 (quando Kundera tinha quase setenta anos) se encaixa naquilo que eu chamaria de uma “segunda fase” da obra de Kundera, precedido por A imortalidade, A lentidão e sucedido por A ignorância (que também não li, problema que estou resolvendo). Segunda fase caracterizada por uma inconfessa preocupação filosófica da parte do autor no tratamento dos temas centrais da narrativa, preocupação que substitui nitidamente a então obsessão com regime soviético do qual Kundera foi vítima e por força do qual “se exilou” na França em 1975.
Escrito em uma forma que o próprio Kundera chama de vaudeville (em oposição à sua “arquitetônica das sete partes”), o romance é curto, de rápida leitura e avassalador. E embora o título pareça apontar para uma problemática em voga no cenário filosófico, o tratamento dado ao tema pelo romancista difere dramaticamente do tipo de reflexão que minha modesta competência filosófica reconhece nas páginas dos filósofos contemporâneos. Mestre na arte de tornar inteligíveis ao grande público algumas das mais refinadas formas de narração, Kundera constrói uma história que assume, de maneira extremamente delicada, contornos cada vez mais oníricos, fazendo com que o leitor escorregue, quase sem perceber, da mais absoluta verossimilhança cotidiana para uma atmosfera cada vez mais surreal – empreitada que eu ainda não havia visto ser realizada dessa forma pelo autor.
A trama central orbita por temas clássicos dos romances de Kundera: relações amorosas, mais precisamente relações conjugais. Chantal, a heroína do romance, é uma mulher de meia idade que, em um dia fortuito, percebe que os homens já não olham para ela. Sensibilizado, seu marido Jean-Marc aceita que a auto-estima da esposa dependa mais dos olhares de desejo dos estranhos do que de seu olhar devoto e monogâmico. Assim, começa a enviar cartas anônimas à própria esposa, no intento de restaurar sua estima de si mesma. Assim vemos uma mulher de meia idade deslizar para experiências quase esquecidas, próprias de meninas mais jovens. Quando, porém, Chantal descobre que é seu marido o autor das cartas anônimas, sequer imagina que o marido apenas quer lhe fazer se sentir bem consigo mesma: Jean-Marc está pregando-lhe uma armadilha para poder acusá-la de adultério e, desse modo, se separar dela. Desse modo Chantal decide que ela mesma irá embora antes, e em uma torrente de ações que beiram o irracional, Chantal e Jean-Marc assistem o desabamento do sentido e da estabilidade de suas vidas através de inusitados eventos que já não permitem que se perceba se a narrativa nos oferece fatos, sonhos ou devaneios, até uma misteriosa e nada esclarecedora conclusão onde vemos Chantal vigiar o sono de Jean-Marc nas últimas linhas do romance.
A temática da identidade pessoal se impõe nos momentos em que Chantal e Jean-Marc não se reconhecem mutuamente através de suas ações, fazendo com que lentamente se tornem simulacros de si mesmos aos olhos do outro. O passado de Chantal, sua vida conjugal apresentada pela personagem da cunhada que surge para além de qualquer bom-senso com uma legião de crianças insuportáveis, suas atitudes para com seus colegas de trabalho e até mesmo suas atitudes diante das ações de Jean-Marc – que não entende como Chantal poderia ficar tão ofendida diante do gesto de amor que foram as cartas de amor – fazem com que Chantal apareça como uma estranha aos olhos de seu companheiro. O próprio Jean-Marc – que insiste que sua vida estável ao lado de Chantal é uma contingência e que seu destino é a marginalidade – vive a crise da própria identidade na medida em que Chantal anuncia a saída de sua vida: sem Chantal, Jean-Marc não existe, pois é só através do amor que sente por ela que Jean-Marc julga possível se sentir parte do gênero humano.
Como eu já disse, o romance é curto, de rápida leitura e possui o final mais avassalador que já encontrei nas obras de Kundera. A temática do sonho recorre em seus romances, mas jamais a ponto de fazer com que a barreira entre sonho e realidade desapareça: mesmo em O livro do riso e do esquecimento, quando Tamina vai parar em uma totalmente inverossímil ilha de crianças, o tom onírico é utilizado apenas como elemento, não como base sobre a qual a narrativa se desenrola. A maestria com que Kundera lentamente intensifica o tom surreal da narrativa faz com que o leitor viva com os personagens o desabamento do sentido de suas experiências, sem perceber o quanto tais experiências são na verdade inusitadas.
Há ainda outra passagem memorável do romance, que não pode deixar de ser mencionada: o discurso de LeRoy, chefe de Chantal, que subverte o sentido do “amai-vos uns aos outros” cristão em um “trepai” último, usado como tese a partir da qual o personagem pretende demonstrar que não é a felicidade o sentido último da existência humana, mas apenas a perpetuação da espécie. Espécie humana que, segundo o personagem, não é senão o executor de uma força história que a transcende e a domina, e que pode ser vista no progresso da civilização – expressão dos desejos de um suposto Deus Criador. Ou seja, através da figura de um publicitário Kundera nos permite refletir sobre temas centrais e ainda muito atuais do pensamento contemporâneo.
A obsessão anti-comunista de Kundera ainda deixa seus vestígios no romance, embora de maneira sutil e incorporada à uma reflexão mais ampla: fazendo seus personagens refletirem sobre um trotskista, Kundera sussurra a tese da impossibilidade de se salvar a humanidade. Através da imagem publicitária de um feto praticando felação em si mesmo ainda no útero materno, Kundera ironiza todo o conjunto das finalidades da cultura como um resíduo do imperativo divino da perpetuação da espécie. A única escolha que parece sobrar à todo ser humano é a de aceitar ou de se indispor com essa verdade fundamental da existência nua e crua. A imagem de Chantal e Jean-Marc em seu leito, em uma vigília obsessiva é antes um prêmio de consolação do que uma redenção: em um mundo onde a identidade pessoal é instável e que não admite finalidades além da perpetuação da espécie senão em caráter de auto-engano, o olhar de Chantal e Jean-Marc parece uma tentativa desesperada de lançar uma âncora em um universo caótico onde o amor representa uma pequena ilha, frágil e instável, em um universo de contingência pura, onde nem o sentido da realidade está garantido.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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Uma resposta para A identidade, de Milan Kundera

  1. Ricardo disse:

    Interessantes reflexões sobre o livro do Kundera. Aqui vai uma crítica construtiva: a necessidade de revisão do texto por parte de quem o escreve. O acumulo de redundâncias, como repetição de “que” e passagens como “gestos de amor que foram as cartas de amor”, enfraquecem qualquer credibilidade filosófica que possa existir nas reflexões textuais.

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