Sobre cinco ou seis discos

Há algum tempo eu não falo de música por aqui. Mas o lançamento recente de alguns álbuns por parte de alguns artistas que acompanho motivou algumas palavrinhas.

Arcade Fire – The Suburbs

Tenho que começar mencionando aquele que achei o menos interessante dos álbuns lançados recentemente. Depois de um primeiro álbum genial e de um segundo não menos cativante, o Arcade Fire parece ter perdido a sensibilidade. Não é sem sofrimento que critico aquela que é uma das minhas bandas favoritas e, em minha opinião, uma das melhores da década que passou. A impressão que tive ao ouvir The Suburbs foi a mesma que tive ao ouvir o In Rainbows do Radiohead: os caras juntaram um balaio de músicas fracas demais pra entrar nos discos anteriores e, se aproveitando da fama, do público e da respeitabilidade consequentemente adquiridas, deram um sentido pro entulho acomulado em meia década de produção. São assim euforicamente acolhidos pela legião de fãs e atendem as demandas de produção que, infelizmente, não poupam nem mesmo a arte dita alternativa.

Interpol – Interpol

Se o The Suburbs representa uma queda na pequena história do Arcade Fire, o quarto disco do Interpol é um verdadeiro salto evolutivo na discografia da banda. Resgatando alguns elementos daquilo que se pode chamar de “post-punk revival” que caracterizavam o primeiro disco, o Interpol nos presenteia com um quarto álbum que é muito mais difícil de ouvir que o Antics e o Our Love to Admire, mas justamente por exprimir uma maturidade alcançada depois de dez anos de atividade. A voz de Paul Banks já não soa trovejante como antigamente, e suas letras manifestam sentimentos que não encontravamos nos discos anteriores (como o despeito e a resignação das duas músicas que encerram o disco). Podemos notar até mesmo que o disco se divide em um lado A, mais fácil de ouvir, e que transfigura-se em um nítido lado B a partir da faixa 6, exatamente como era no primeiro, Turn on The Bright Lights. Imperdível, altamente recomendável.

Film School – Fissions

Mais uma banda com cerca de dez anos e que chega a seu quarto disco, o Film School foi minha porta de entrada no shoegaze. O primeiro disco, Brilliant Career, é simples. Os dois que o seguiram – Film School e Hideout – constituem um bloco de genialidade quase indiscernível, cheios de músicas capazes de arrebatar não apenas os fãs do gênero shoegaze como os ouvintes do mais nervoso indie rock. O quarto disco, contudo, parece uma tentativa de popularizar ainda mais o som. Tentativa que, em minha opinião, descaracterizou aquele misto de noise e indie ao optar por uma fórmula mais pop. O disco é bom, contudo, e continua agradando os fãs de ambos os gêneros. Mas provavelmente não arrebatará os ouvintes com aquela avalanche de hits-por-disco dos dois anteriores.

Escarlatina Obsessiva – Endemic

Depois da pandemia, a endemia. O disco mais curto mostra que a doença está mais localizada. Mas continua intensa. Diferentemente das bandas anteriormente citadas, o post-punk da Escarlatina Obsessiva não é “revival”, é puro: seu rock punk-gótico permanece cheio da mesma vitalidade que abre o primeiro disco com o baixo perturbador e a bateria punk que catapultam o ouvinte para a batcave e para os anos 80. E a vitalidade da Escarlatina Obsessiva percorre todos os três discos de forma contínua e crescente, para chegar ao quarto disco de maneira impecável. Para quem quiser conferir o trabalho daquela que é a melhor banda de “rock gótico” em terras tupiniquins, vale dizer que é possível fazer o download de canções dos dois últimos discos diretamente da página da banda na Last.fm.

Você pega o Endemic aqui.

Loomer – Mind Drops & Coward Soul

Mais uma banda brasileira que exige menção honrosa aqui. Não pelo fato de ser a única que tive o prazer de ver ao vivo, mas por ter, em seus dois EPs, produzido uma pequena, mas sensivelmente rica, amostra do mais puro shoegaze noventista. Se Escarlatina Obsessiva nos faz passar a noite na batcave dos 80s, nada melhor do que ouvir o som da Loomer na ressaca ensolarada do dia e da década seguinte. Séries de cortinas sonoras de um My Bloody Valentine, somadas à pegada de um Dinosaur Jr e o nervosismo noise do Sonic Youth são coroados pelos vocais etéreos se sobrepondo em avalanche e formando uma unidade enfeitada com riffs ou barulheira pura de forma muito esperta. Tudo isso é genialmente mesclado em dois EPs que, não obstante, nos oferecem um som cheio de personalidade e identidade.

Você pega o Mind Drops aqui e o Coward Soul aqui.

PS: Seus problemas acabaram, você pode ouvir toda a música que quiser na vida, você é livre pra isso agora graças ao “Fantastic and Awesome Last.fm Free Music Player for Google Chrome“, que é uma extensão para o Chrome que, uma vez instalado, permite que você ouça as músicas inteiras direto da página do Last.fm através de um recurso que, se entendi direito, recorre à servidores russos com direito à scrooble e tudo (porque na União Soviética a música faz scrooble em você). Se você gosta do Chrome, então, pode dar um “Shift + Del” nos gigas de MP3 que você tem no PC.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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