Dialética do Desejo

TESE

Felizmente era permitido fumar no mezanino. Deus sabe o que eu teria feito se não tivesse podido dissipar meus sentimentos na fumaça daqueles cigarros. Sem eles, eu não teria sequer conseguido enfrentar os dias que se seguiram àquela experiência. Como era possível que uma situação completamente fortuita tivesse transformado tão completamente minha vida? A resposta eu sabia: sempre estive esperando por aquilo, mesmo que não soubesse disso. Saber disso, lhes aviso, não torna menos desesperador o momento em que a coisa acontece e você tem de lidar com ela. Alerto-lhes, sobretudo, para isso: tomem cuidado, pode acontecer a qualquer momento.

Não houve preâmbulo, não houve nada que preparasse as centenas de espectadores para aquilo. Quando uma beldade, ainda que seja pouco mais que uma menina, surge completamente nua no palco e entoa a maior apologia do hedonismo que se pode ouvir, é absolutamente milagroso que a platéia não lhe caia em cima, como uma nuvem de abutres, tomados de desejo. Foi assim que vi Anna pela primeira vez.

Seu discurso não era nada simples. Era uma defesa melancólica do prazer como última ilha de sentido em uma vida finita que, como ela, era completamente nua, despida de qualquer razão de ser. A cada frase, que fumegava de seu belíssimo rosto angustiado, aquela mulher – aquela menina!? – tocava seu corpo e convidava a platéia metafórica e literalmente, para o gozo. Seus seios, seus pêlos, seu corpo se ajoelhando e abrindo os braços implorando por calor estava deixando o público mais que inquieto. Nesse ponto eu já tremia e chorava.

Eis que seu solilóquio é interrompido por um interlocutor imaginário. Um mal-feitor, um estuprador invisível que dobra seu corpo, se debruça sobre ela. Está ali, todos o vemos juntos, mas é invisível. Seu corpo, agora tão delicado, é a imagem de sua liberdade violada. Chora, grita, tenta soltar-se das garras daquele monstro, a quem todos queremos matar. Não sei o que impediu um daqueles senhores das primeiras filas de saltar ao palco e cair de socos no ar sobre o corpo nu daquela moça. É violentada, seu corpo se contorce e ela chora. Quer morrer. Queremos morrer com ela, porque não queremos viver em um mundo onde um anjo como ela sofre com tal violação.

O vilão, tão imundo quanto etéreo, se satisfaz. O que resta é uma moça nua em um palco de madeira, com os cabelos em desalinho e o corpo coberto por arranhões e poeira. Ela ainda chora. Eu já morri por ela e não sou mais o mesmo, só perceberia quando alcançasse a calçada, minutos depois. Mas ela precisa mostrar que nos transformou. Certamente não a todos: muitos terão que deixar esta experiência escorregar para o esquecimento para poder continuar com a vida. Alguns, como eu, não terão uma vida que possa fazer aquilo ser esquecido. Ela nos conta sua solidão. Nos conta que seu hedonismo é uma fuga e sua liberdade o capricho que distingue aquele estupro de tantas outras noites de falsos amores. Sua recusa era a única maneira de fazer o desejo dos homens mostrar sua verdadeira face. Chorava a dor de sua solidão e o amor que sentia por aquele violador sincero. As luzes se apagaram. Com um cigarro aceso, desabei histericamente em lágrimas. Todos a entendíamos, todos a amávamos.

 

ANTÍTESE

Nunca imaginei que depois de ter concluído meus estudos voltaria a vê-la. Mesmo assim, se eu estava ali era por causa dela: jamais teria procurado a verdade do desejo na psicologia se ela não tivesse me mostrado seu belo corpo ávido de verdade naquele palco. O que aquela atriz teria a me confessar no divã?

Era precisamente o contrário. Sua completa incapacidade de se relacionar as outras pessoas se dissimulava sorrateiramente sob uma personalidade magnânima. Atraía a todos, como um ímã. Mas não lhes desejava nada: nem mentira, nem verdade. Honestamente, a companhia dos outros era sempre enfadonha e ela não podia ser sincera. Mas algo não fazia sentido: falava como se não fosse sujeita a mesma torrente de necessidades dos demais. Não falava de pessoas. Falava de um rebanho que, em seu discurso, parecia se suceder com a velocidade de grãos de areia ao vento sobre a terra. Não fazia distinção entre homens, mulheres ou crianças – todos eram, na verdade, um pouco crianças. Precisava de um novo propósito, uma companhia com quem pudesse dividir sua perspectiva. Nesse momento, senti minha espinha enregelar: ela não viera perguntar, nem me oferecer material para análises intelectuais. Era um convite. Um segundo momento que confirmava o primeiro, no palco, e lhe dava sentido. Aquela peça fora um campo de caça e eu, uma das presas. Teria tentado outras? Nunca soube. Mas, evidentemente, não resisti quando ela me ofereceu um lugar a seu lado pelo resto de minhas noites. Era para isso que, afinal, eu tinha me preparado.

Despiu-se do vestido e fui tomado pela vertigem de ver aquele corpo, meu mais absoluto objeto de desejo e raiz última de todos os traços vagamente estáveis de meu caráter. Desejei seu corpo. Ela, por sua vez, queria minha vida, por inteiro. A metáfora tinha mais poder do que eu supunha, mas devo confessar que, por anos, Anna me ofereceu as melhores noites que eu jamais pudera imaginar.

 

SÍNTESE

A tarde cinzenta é a imagem da melancolia. Quando vem acompanhada do vento frio, leva para longe qualquer aura de resignação, nos atirando na mais pura angústia: é a certeza de que algo precisa ser feito e de que nada dará certo. Então, fica o aviso: jamais exponha o amor ao vento das tardes cinzentas, sob a pena de vê-lo afastar-se para sempre no horizonte inatingível.

Evidentemente, eu não soube disso desde sempre. Mas a verdade é que eu e Anna já não tinhamos mais o que falar. Dividíamos a nossa vida, ela me transformou nela própria e por algum tempo se divertiu com o que eu tinha a oferecer. Narcisismo masoquista, o prazer de transformar os outros no nada que se é. Mas, em nosso modo de viver, é impossível evitar para sempre os caminhos desertos do tempo. Caminhávamos de mãos dadas, sentávamos, olhávamos as nuvens, as crianças, as árvores, os pássaros. O desejo, imagem incendiária de seu corpo nu e depois descoberto como farsa, estava ausente de nossa vida em tons-de-cinza. Já não havia nada que pudéssemos querer. Já não havia nada que pudéssemos oferecer um ao outro. E o pior, é claro, é que sabíamos disso.

Foi naquela tarde que decidi falar. Ela já havia vivido mais tempo do que eu e, sem a Morte para esperar no final, a cada dia nos tornamos melhores mestres da paciência (é de se estranhar que a vida acabe se tornando esse deserto cinzento?). Estávamos sentados à grama e o vento soprava.

“Vou embora.”

“Pra onde?”

“Pra longe de você. Precisamos de algo diferente. Estamos mortos.”

Ela riu. Eu não sabia, naquele instante, o que ela poderia dizer.

“Há muito que estamos mortos.”

“Não. É recente.” Eu diria mais alguma coisa, mas ela riu de novo. Olhava-me com terna compreensão, quase compaixão.

“Não diga mais nada. Dê-me um último beijo. Eu prometo que antes de poder tornar esta separação mais dramática, você estará livre de mim. Beije-me e, quando abrir os olhos, eu terei desaparecido.”

Eu não havia percebido até então. Depois de dizer aquilo, Anna estava nua. E as nuvens melancolicamente coloridas, em tons róseos que davam à tudo o terrível tom onírico que eu temia. Ela estava certa: se eu percebesse que não estávamos de fato ali, tornaria tudo mais difícil. Segurei seu rosto e fechei os olhos. Não queria mais abri-los. Mas, quando o fiz, tive de constatar triste e inutilmente que Anna havia ido embora antes que eu pudesse acordar, levando junto minhas ilusões e me deixando seu destino.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
Esse post foi publicado em Despojos, Espiando Pelo Buraco da Fechadura, Fábulas Para Entristecer, Por um mundo Punk-Gótico. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para Dialética do Desejo

  1. Gabi disse:

    Nossa acabei caindo aqui sem querer por conta do Cocteau Twins.
    Descobri Milan, Joy, e até Knife, filosofia, O Perfume e mais uma porrada de coisas de uma forma que parece que foi eu quem pedio para falar de cada assunto, rs.

    meu blog não é o mesmo, mas bom é isso.

    Voltarei mais vezes!

    http://gabiiasipilch.blogspot.com/search?updated-max=2010-09-14T20%3A12%3A00-07%3A00&max-results=7

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