“Ladeira abaixo”

“A verdade é que essa excelente opinião sobre mim mesmo decaiu bastante. Hoje me sinto vulgar e, em alguns aspectos, indefeso. Suportaria melhor meu estilo de vida se não tivesse consciência de que (apenas mentalmente, claro) estou acima dessa vulgaridade. Saber que tenho ou tive em mim mesmo elementos suficientes para me alçar a outra possibilidade, saber que sou superior, não em demasia, à minha esgotada profissão, às minhas poucas diversões, ao meu ritmo de diálogo: saber tudo isso não me ajuda por certo a me tranqüilizar, pelo contrário, faz com que eu me sinta ainda mais frustrado, mais inapto para sobrepujar as circunstâncias. O pior de tudo é que não me ocorreram coisas terríveis que me cercassem (bem, a morte de Isabel é algo forte, mas não posso chamá-la de terrível; depois de tudo, existe alguma coisa mais natural do que partir deste mundo?), que freassem meus melhores impulsos, que impedissem meu desenvolvimento, que me prendessem à uma rotina anestesiante. Eu mesmo fabriquei a minha rotina, mas pelo caminho mais simples: a acumulação. A segurança de saber-me talhado para algo melhor colocou em minhas mãos a postergação, que no final das contas é uma arma terrível e suicida. Daí que minha rotina não tenha tido nunca caráter nem definição; sempre foi provisória, sempre constituindo um rumo precário, a ser seguido apenas enquanto durava a postergação, apenas para agüentar o dever da jornada durante esse período de preparação que, ao que parece, eu considerava imprescindível, antes de me lançar, em definitivo, à cobrança de meu destino. Que bobagem, não? O resultado agora é que não tenho vícios (fumo pouco, e vez por outra, quando estou enfadado, tomo um traguinho), mas creio que já não poderia deixar de me postergar: este é meu vício, por outro lado incurável. Porque, se agora mesmo eu decidisse garantir por meio de uma espécie tardia de juramento: “Vou ser exatamente o que quis ser”, seria inútil. Primeiro, porque sinto a escassez de minhas forças para realizar qualquer mudança de vida e, depois, porque de que vale para mim aquilo que eu quis ser? Seria algo assim como me lançar conscientemente em uma senilidade prematura. O que desejo agora é muito mais modesto do que aquilo que desejava há trinta anos e, sobretudo, importa-me muito menos obtê-lo. Aposentar-me, por exemplo. É uma aspiração, naturalmente, mas uma aspiração ladeira abaixo. Sei que chegará, que virá por conta própria, sei que não será preciso que eu faça nada. Assim é fácil, assim vale a pena entregar-se e tomar decisões.”

Em A Trégua, de Mario Benedetti.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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