Admirável Mundo Novo?

A natureza não é um idílio, mas um inferno: a quantidade de sofrimento presente a cada instante na natureza é incomparavelmente maior que a quantidade de satisfação ou prazer. Tente comparar o prazer do predador que devora uma presa, com a agonia desta. A única salvação é suprimir, de uma vez por todas, esse sofrimento. Não, esta não é uma postagem sobre Schopenhauer, mas sobre o transumanismo de David Pearce.

David Pearce é um filósofo inglês utilitarista. Ele e seu amigo James Evans estiveram, por cinco dias, participando do III Colóquio de Ética e Ética Aplicada: “Evolução e Transumanismo”. Pearce foi a estrela das manhãs do evento, discursando sobre o chamado “Projeto Abolicionista”, a saber, um projeto de “engenharia do paraíso” que encontra representação em não poucos setores da ciência. O projeto pretende, em termos gerais, abolir todas as formas de sofrimento do espectro da experiência humana através da engenharia genética, da farmacologia e da tecnologia em geral.

Confesso que, desde o primeiro momento, fui mal-intencionado para o evento. Já conhecia alguma coisa sobre o assunto, por ter como interlocutor o colega Gabriel Garmendia (idealizador, organizador e realizador do evento, aliás), que pesquisa tais assuntos. A idéia da manipulação genética para realização de fins tais como interrupção do envelhecimento, abolição da experiência de sofrimento e promoção de um tipo totalmente novo e indescritível de experiência – pensada a partir do binômio prazer/mais-prazer – representava para mim a destruição da espécie humana. Qualquer um que estivesse comprometido com tal projeto era, em algum sentido, um suicida que queria acabar com aquilo que lhe constituía mais fundamentalmente. O desejo de acabar com todos os males deste mundo só poderia ser explicado por um completo desajuste com o mundo tal como está; um juízo de valor que aposenta toda nossa história, cultura e civilização como um enfado a ser esquecido em um paraíso futuro. Não sei se perdi tais impressões, mas tenho que confessar: David Pearce e James Evans eram “very nice guys”.

Depois da primeira conferência de Pearce, pela manhã de quarta-feira, fiz minha primeira pergunta para o sujeito: como pensar a ação humana para além do binômio prazer/dor? Porque realmente não consigo pensar a ação humana sem a experimentação da lacuna a ser preenchida como sofrimento em algum nível. Pearce me falou alguma coisa sobre cérebros e receptores que meu inglês limitado e meus conhecimentos em biologia ainda mais limitados não permitiram que eu compreendesse. Depois, falou que o binômio “prazer/mais-prazer” (na verdade um gradiente de múltiplos níveis) reproduz as condições motivacionais necessárias para a ação humana. E finalmente disse que pessoas felizes querem ficar mais felizes, enquanto pessoas depressivas permanecem presas em um círculo de sofrimento que as vezes não pode ser rompido sequer quimicamente, portanto, era moralmente aceitável uma intervenção em nível genético para prevenção de tal sofrimento.

Também quis saber, como bom gótico que sou, sobre a experimentação prazerosa de certas formas de sofrimento, como a melancolia, por exemplo. Para argumentar, propus uma idéia minimamente bidimensional de ser humano, com um nível profundo e um superficial, onde, em nível profundo, seria impossível negar que “sempre desejamos um bem”, mas que isso assume formas absolutamente diversas em um nível superficial (eu me referia, por exemplo, ao tabaco, que não parece o melhor exemplo de “bem em si mesmo” mas que aparece como desejável para muitas pessoas). Ele concordou em parte, mas admitiu que o transumano tem justamente a intenção de planificar esses dois níveis, e fazer coincidir esse bem formal com o bem prático. Isso me soou totalitário. Pearce então confessou uma fé na possibilidade de que um aprimoramento da condição humana possibilitará uma pluralidade indescritível no nível da singularização e da pessoalidade. E foi politicamente correto: falou que a abolição do sofrimento pode ser uma “abolição do sofrimento involuntário”, que o transumano preserva e potencializa a liberdade a tal ponto que quem quiser continuar experimentando esse “sofrimento gostosinho” poderá fazê-lo. Não consegui me livrar da impressão de que esse argumento é político e que, depois de algumas gerações de pessoas mais-felizes, existencialistas góticos como eu desapareceriam da face da terra. Em última instância, depois do almoço com a colega Lauren Nunes, fiquei com a impressão de que pertenço à uma espécie em marcha de extinção, a saber, a espécie humana.

Depois, entre a tarde de quarta-feira e a noite de domingo, tive quatro dias de cicerone e veganismo: evidentemente, como um abolicionista, Pearce é vegano e não admite causar sofrimento à outro ser senciente. O sofrimento é o fundamento de sua ética global. Durante esses dias, entre conferências, cafés, almoços, jantares e passeios, fui convidado diversas vezes “to join the cause” da abolição do sofrimento. Fiz e vi muitas outras questões pertinentes serem levantadas: benefícios genéticos não podem promover uma civilização dividida entre transumanos imortais e escravos mortais? Transumanos, por sua condição, serão necessariamente mais morais que nós e poderão impedir o estabelecimento de uma burguesia – ou mesmo de uma aristocracia – perpétua à servir-se de uma classe inferior – os humanos? Como lidar com o paradoxo de uma transumanidade que controla sua reprodução e seu envelhecimento? Como lidar com o dilema moral de que o abolicionismo exige um progresso técnico para o qual o sofrimento de animais, como objetos de experiências científicas, é imprescindível? Trabalhar na construção de um futuro indescritível não é apostar, jogar dados? E em uma linha que segue Heidegger e Huxley, o que dizer sobre o sentido de uma existência sustentada pela técnica e para a técnica? Não nos transformamos, no fim, em meios e objetos de e para uma técnica-sujeito?

Foram questões discutidas, como eu disse, em meio à uma agradável e amistosa atmosfera de fruição (hedonista?) de momentos belíssimos, que deixaram boas lembranças. Quando, na última conferência – um debate entre Pearce e dois biólogos brasileiros – Pearce foi confrontado com os limites e as dificuldades do estado-da-arte de nossas ciências, não vi tanto um filósofo, pensador ou cientista à responder, mas um profeta. Um profeta que, armado de consciência histórica e fé, acredita que podemos tomar nós mesmos as rédeas da evolução e transformar lobos em ovelhas, construir uma comunidade global de criaturas superiores. Domingo, pela noite, ao nos despedirmos de David e James, no Morotin da faixa nova, fiquei ao lado de James na última foto. Dessa vez, diferentemente das outras fotografias, não dissemos “vegan cheeeese” para aparecer sorrindo nas fotos. James, ao meu lado, entoava – ou invocava, como em uma oração – os valores transumanistas: “infinite bliss”, “love”, e mais algumas sete ou oito palavras que expressavam sua fé em nossa capacidade de evoluir racionalmente. Senti que estávamos nos despedindo de dois profetas de um mundo novo.

De um admirável mundo novo.

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Crédito das imagens: Gabriel Garmendia.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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3 respostas para Admirável Mundo Novo?

  1. Lauren disse:

    Nossa Vitor. A última foto encaixou com o texto de uma maneira assustadora.

  2. Lauren disse:

    Ah, e obrigada por lembrar que eu sou aquela que te lembrou da nossa condição humana durante o almoço.
    hahaha, ai, ai. Infite bliss!!

  3. Leo disse:

    Achei suas reflexões interessantes, e de fato, o transhumanismo propõe mudar a experiência humana e neste sentindo ‘eliminar’ certos valores e as experiências estéticas consideradas negativas (e assim pessoas como o seu ‘eu’ atual). A ética aplicada não é separável da política, e traz estas questões que mencionou, é preciso pensar em tudo isto.

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