Excertos do subsolo – A moça que fuma

Sou um homem do subsolo. Portanto, como todo homem do subsolo, forjado no ressentimento. Uma incapacidade de fruir as alegrias simples dos homens comuns deveria me fazer odiá-los, mas até isso já passou: uma espécie de “princípio de compostura” me ensinou a simular um homem comum ao ponto em que conduta e fingimento se tornaram um. Curei-me do ressentimento. Sem ele, perdi minha interioridade e tornei-me personagem de mim, por trás do qual já não há ator (embora “títere”, penso, seja uma metáfora mais apropriada). Mas, por costume e por não saber (ou querer) fazer diferente, permaneço no subsolo, com meu cigarro e minha finitude. E como qualquer ser humano, ajo segundo a correção moral e quero ser exemplo. O curioso é que quero ser exemplo negado: nada me aborrece mais do que meus iguais, os homens do subsolo. São vocês, os homens comuns, que me divertem com o espetáculo da sua ingenuidade: crêem na felicidade, no amor, na liberdade e eventualmente crêem viver tais ilusões como se fossem realidades – pior, como se fossem possibilidades! Nos tempos do ressentimento confesso que os invejei. Hoje, não saberia viver sem a umidade do subsolo, sem assisti-los escondido nos bueiros, sem os ocasionais passeios na superfície quando, disfarçado de gente, me faço passar por um de vocês. Já não desejo que cada um de vocês passe uma temporada no subsolo, vocês se tornariam enfadonhos se sobrevivessem. Vocês me divertem tanto que eu quase seria capaz de prometer que ergueria a mão em sua defesa diante de qualquer tirano que desejasse salvá-los de si mesmos e, portanto, me privar de minha única diversão, a saber, essa brincadeira que vocês tornam perigosa levando a sério e chamam “vida”.

Mas, devo confessar: sou péssimo em cumprir promessas. Prometi – a mim mesmo, o que é um contra-senso – que não falaria mais das mulheres que fumam. Sobretudo dessas, que fumam em cafés, compenetradas em suas leituras ou escritos, magras, de cabelos negros, de olhar angustiado e marcadas pela finitude e pela insatisfação. Essas mulheres do século XX, de cabelos negros e olhos delineados, que cultivam o hábito masculino de alimentar o espírito. Em primeiro lugar, porque elas deixaram de existir antes de existir e, mesmo assim, as procuro todos os dias. Minto: as espero, apenas, mesmo que seja uma esperança convicta do próprio fracasso, plena da certeza de que não as encontrarei. Acostumei-me a esperá-las porque mesmo que elas não existam, acabam vez ou outra esbarrando em mim nas filas, nos restaurantes e nas madrugadas. E as noites que posso passar em seus braços aspirando esse aroma misto de finitude e insatisfação que seus corpos exalam são, sem dúvida, a melhor justificativa para os passeios na superfície. Vejam bem: refiro-me aqui a lábios, seios, pernas e pêlos que não existem e que talvez, apenas por não existirem, possam ser justificativa de qualquer coisa.

O leitor comum pode – e deveria! – estar perturbado com todo esse flerte com a contradição, o que não é surpreendente: esconder contradições profundas com contradições superficiais faz parte dessa atitude levar a sério as brincadeiras – que, aliás, já é uma contradição. A diferença é que no subsolo nós vivemos em paz com a contradição. Talvez seja a umidade, a escuridão ou a claustrofobia essencial de viver encerrado em si. Não pensem, aliás, que não incorremos no mesmo pecado que vocês: nosso próprio ressentimento cumpre para nós o papel que vocês destinam, por exemplo, ao amor. Eu mesmo não teria aprendido isso sem os passeios pela superfície, enquanto procurava (esperava, melhor dizendo) encontrar as mulheres que fumam e me via obrigado a esquivar das que guincham (ou, alternativamente, contentar-me com elas).

Na hipótese de estar sendo lido por uma dessas mulheres (das que existem e, portanto, guincham) sou capaz de antever as objeções: “Há, homem do subsolo, tão diferente dos homens da superfície e, no entanto, só quer ver-se aninhado entre um belo par de pernas!”. Quisera ouvir essa crítica em pessoa, para poder sorrir e dar a única resposta possível: “Querida, somos homens do subsolo, mas somos homens!”. Talvez a diferença é que não desejamos entupir suas entranhas com sementes e desesperos e produzir essas gerações híbridas que o século XX viu, década após década, oscilar entre o subsolo e a superfície, em um desajuste perpétuo. Conhecemos o perigo: essas gerações de meninos e meninas, compostos por dois sangues opostos, cheios de energia e frígidos para os prazeres da superfície poderão – e quase sempre o fazem – tornar-se seus algozes, tiranos e profetas. São os tipos que enfiam uma espingarda na boca e acabam com a brincadeira quando se vêem cercados de tudo o que queriam, só por perceber que não valia nada, afinal. Pobres criaturas híbridas, lamento seu destino.

Volto, porém, à moça no café. Ela fuma, lê, escreve, bebe café, tem cabelos negros e as linhas dos olhos acentuadas por maquiagem. Veste preto. Seu olhar oscila a atenção entre a leitura e as páginas que escreve. Folhas brancas, sem linha. O que lê? Não faço idéia. É literatura. Literatura universal, daquela que não tem fronteiras, que é da humanidade. Dostoievski? Kafka? Talvez Camus ou Sartre? Dificilmente estará lendo a obra de outra mulher (exceto se for Virginia Woolf), pois mesmo a mulher que fuma é rival das que guincham. Não, a mulher que fuma não é a mulher do subsolo: os homens da superfície são amigos, se abraçam; os do subsolo andam em bandos, como corvos e odeiam os da superfície, que em geral nem imaginam que existimos. As mulheres que fumam, que guincham, que gostam de flores, as que são mães, filhas, belas, horrendas, as velhas, as meninas em flor, as famosas e – arrisco dizer – as que não nasceram ainda ou já morreram se odeiam mutuamente, todas. “E as mulheres do subsolo?”, perguntaria qualquer uma destas, ferida em sua vaidade. “São nossas irmãs.”. Não são, portanto, mulheres.

A moça no café fechou o livro. Apagou o cigarro no cinzeiro. A xícara já estava vazia. Ela não olha para os lados, senão muito rapidamente. Evidentemente, me olha. Não existe, mas me olha. É preciso não existir para poder ver os que existem pela metade, semitransparentes, fantasmagóricos e esmaecidos pela pressão atmosférica do subsolo. Nos olhos de uma moça que não existe um homem do subsolo, como eu, ganha plenitude. Em seus lábios, com sabor de café e cigarro, um homem do subsolo como eu ganha substância. Para facilitar, digo que ela me conhece. Felizmente até as moças que não existem são incapazes de detectar o odor do subsolo, nem sabem que ele existe (mesmo nossas irmãs do subsolo vivem em outra dimensão e tomam o subsolo pelo cume de um monte, mas essa é outra história). Sorrio, e isso basta. Ela se aproxima e eu descubro o que ela estava lendo e escrevendo. Conversamos. Eu falo do subsolo, através de um bueiro, e a vejo na superfície. Na superfície, ela vê apenas meu fantasma, substancializado e pleno, e julga estar comigo. Encantá-la é fácil e é impossível não agitar, como um satélite, as marés de seus sentimentos: mesmo que eu afirmasse que sentimentos são melhores experimentados quando ela lê seu romance ou ouve música, dizer isso já é magnético. A insatisfação fundamental da moça que fuma faz com que suas marés estejam sempre a espera de alguma Lua. Assim, não me surpreendo em ver-me logo em seu quarto, em seus lençóis, envolvido em seus braços e pernas, fruindo seu aroma de cigarro e perfume de flores, aromas que tornam o ar da superfície respirável. Com melancolia, sou obrigado a confessar: acabo de assistir, do subsolo, meu fantasma deitar-se com uma moça que não existe.

Não há salvação: abandono a moça que fuma e retorno ao subsolo onde, como sempre, acordo. A moça permanecerá naquele café, com seu cigarro, seus olhos delineados, vestindo preto. Permanecerá lendo, escrevendo e soprando com angústia a fumaça do cigarro. Permanecerá não existindo. Quanto a mim, estarei no subsolo, dividindo meu tempo entre espioná-la e passear na superfície. Força do hábito? Não sei, mudar é difícil. Mas não o desejo, de qualquer forma. Agrada-me que tudo seja assim.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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5 respostas para Excertos do subsolo – A moça que fuma

  1. quemsera disse:

    Genial. genial.
    Só discordo da segunda frase, sobre ‘sermos forjados no ressentimento’. Flertamos como ressentimento desde o café da manhã, ele é a nossa sombra, mas bem dominada; tanto que essa sombra é o reflexo da superfície onde, pelo que notei, o lugar onírico tem seu endereço nos ‘cafés’ que, ainda que imorais, são banhados pela ingenuidade tácita dos que existem como se não existissem.

  2. lealamode disse:

    essa teoria do homem do subsolo era exatamente o que eu procurava. procurava algo que correspondesse aos meus pensamentos .. a respeito “disso tudo” que é a vida. arg

  3. lealamode disse:

    definitivamente, já sou sua fã. blog nos favoritos.

  4. Gilson disse:

    Bastante bom, Vítor. Bom ver que continua escrevendo sobre essas coisas ainda. Era isso que eu tinha em mente quando, lá por 2007, pedi que subisse um blog, sabendo que o issoeocio ia morrer.
    Curado? sei…
    Abraços e mantenha-se.

  5. Bruce Wayne disse:

    Vitor.
    Não li tudo que escreveste, mas vejo que és realmente criativo. Achei interessante a tipologia: homens da superfície e das profundezas. Mas não será que os chamados da superfície escolhem onde preferem navegar, tanto como os outros. Todos nós temos os dois lados. Podemos preferir cultivar um ou outro lado.
    Batman

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