Divertissement: Nuvens Sonoras e o Desejo de Ser Deus

Uma das partes mais interessantes e mais misteriosas de todo O Ser e o Nada é o capítulo intitulado “Da Qualidade como Reveladora do Ser”. Nestas poucas páginas, que seguem imediatamente aquelas que versam sobre a “psicanálise existencial”, Sartre segue de perto o pensamento de Gaston Bachelard e pretende poder reconhecer, nas qualidades dos objetos, sentidos ontológicos que poderão orientar a psicanálise existencial. Voltando seus olhos para as qualidades dos entes naturais, Sartre se permite analisar o sentido ontológico da “fluidez” e da “viscosidade”, por exemplo. Através da análise o filósofo supõe poder reconhecer certa possibilidade de paralelismo entre aspectos da consciência humana e aspectos da natureza. A especulação e o trabalho imaginativo de Sartre é de tal ordem que ele acabará por comparar o movimento da consciência com a fluidez e a transparência de um curso de água, associando a viscosidade com a má-fé, ou seja, com a “agonia do líquido”, com um estado no qual o líquido começa a sofrer uma “solidificação” e abandonar as características que lhe são mais próprias, assim como a consciência faz quando começa a escorregar para a má-fé.

Por mais mirabolante que isso pareça, a coisa começa a fazer sentido depois que você a lê pela décima vez. E embora isso mais pareça uma espécie de mística do que qualquer outra coisa, parece realmente possível reconhecer na natureza certas qualidades que, se utilizadas como categorias para pensar a condição humana, ajudam a explicar a existência tal como concebida por Sartre.

Introduzo rapidamente essa teoria apenas para compartilhar aqui uma música. Música de um tipo muito especial, cuja beleza eu não teria sido capaz de compreender sem o recurso dessa “psicanálise da natureza” que Sartre parece estar propondo.

Uma das principais características da música “shoegaze” é precisamente essa síntese e dissolução de todos os elementos melódicos em verdadeiras nuvens sonoras. Quando isso teve início, na música do My Bloody Valentine, a chiadeira ainda se apresentava – exceto por três ou quatro canções mais ousadas – como pano de fundo de uma fórmula melódica comum, típica da música pop. Contudo, essa “orientação” aberta no final dos anos 80 teve diversas continuações. Algumas muito mais pop e fáceis de ouvir. Outras, contudo, mergulharam irreversivelmente na chiadeira indiscernível e produziram “coisas” como essa, que acabo de compartilhar.

Para não desperdiçar a utilização do pensamento sartreano nesta postagem, lembremos que para o filósofo francês uma das maneiras mais apropriadas de descrever a condição humana é pensá-la como “desejo de ser Deus”, isto é, desejo de ser consciência e substância ao mesmo tempo. “Desejo ontológico” de poder realizar a síntese entre existir como consciência e possuir qualidades estáveis e essenciais. Maior do que o desejo de “participar” do ser, esse anseio metafísico que constitui a realidade humana é um anseio por ser maior que o ser (pois é desejo de não perder a consciência ao alcançar o ser) e superar definitivamente o nada (estancando a temporalidade que dissolve toda e qualquer possibilidade de estabilidade).

Pois bem. Sem pretender me comparar à um genial Schopenhauer, que dá à música um papel de destaque em sua metafísica, permito-me levantar uma questão: músicas como essa, que se configuram como síntese de elementos que se dissolvem em uma unidade quase absoluta, não seriam uma das expressões mais vívidas desse desejo de ser Deus?

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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Uma resposta para Divertissement: Nuvens Sonoras e o Desejo de Ser Deus

  1. Gilson disse:

    “e utilizadas como categorias para pensar a condição humana” discordaria, como fiz pessoalmente, do uso de “categorias”, poderia ser trocado por metáforas. Teu texto me lembrou de um trecho da “Superação” do Carnap. Transcrevo: “A música, talvez, é o meio mais puro de expressão da atitude básica, porque é inteiramente livre de qualquer referência a objetos. O sentimento harmônico ou atitude que o metafísico tenta expressar em um sistema monista, é expresso mais claramente na música de Mozart. E quando um metafísico declara a sua atitude heróico-dualista para com a vida, em um sistema dualista, não é, talvez, porque lhe falta a habilidade de um Beethoven para expressar essa atitude em um meio adequado? Os metafísicos são músicos sem habilidade musical.”

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