Pele de Asno, novamente!

Eu devia ser proibido de fazer resenha sobre a Pele de Asno, mas já vou fazer a segunda. Se na primeira tentei ser econômico ao tecer algumas palavras sobre a Demo que eles lançaram, dessa vez isso será impossível.

Intitulado simplesmente “Pele de Asno”, o disco de estréia da banda homônima conta com 13 faixas que eu classificaria em um Lado A, um Lado B e uma bônus track.

O Lado A – as seis primeiras músicas – contudo, são o verdadeiro Lado B. As quatro primeiras faixas mantém o ouvinte em uma atmosfera afetiva entre a melancolia e a serenidade. “Que Sorte há de Vir”, a primeira faixa, já dá o tom do que será o disco. A cadência das melodias deixando a voz de Luciana flutuar suas letras, sintetizando todos os elementos e dando unidade ao som da Pele. É imediatamente seguida por “Naufrágio”, onde a guitarra de Ronaldo Palma me fez lembrar as dos Los Hermanos em seu 4.  “Sala de Esperar” é pura poesia intimista, com uma levada hipnótica e misteriosa. “Ladeira da Consolação” é uma jóia de delicadeza, e parece contar com batida eletrônica fazendo fundo à frases como “acho que Deus não vai suportar”.

“Monstro”, a 5ª música, é a primeira que começa a fazer bater o pé do ouvinte vulgar como eu. O chiado da guitarra – um “tiquinho de shoegaze” – também me fez ouvi-la mais de uma vez. “Fado”, a sexta música, parece ter cumprido bem seu papel: fecha o “primeiro lado” de forma densa e pesada.

Aqui, meu destaque e ênfase para aquela que é, para mim, a melhor música do disco e da Pele de Asno até agora: “Desengano”. Os teclados melancólicos fazem o fundo para uma guitarra que vai do início ao fim “lacrimejando” riffs. A letra é impecável e nos oferece uma “dialética do ‘mas não'”. Percebi mesmo um som de vento ao fundo? Daquelas de ficar ouvindo no repeat, no escuro, acompanhado de uma bebida forte e um cigarro. A voz de Luciana Alves está perfeita. Ponto alto, divisor de águas do album, não se encaixando nem no “lado A”, nem no “lado B”. Ou talvez pertencendo à ambos, como ponto de virada.

Depois de nos comover paulatinamente, o pessoal da Pele nos deixa descontrair na segunda metade do álbum. “Lenço de Papel”, por exemplo, eu tive o prazer de ouvir em uma versão bastante rudimentar. A versão final é talvez a canção onde a banda esteja mais entrosada, cada elemento caprichado de forma que fica difícil prestar atenção em um elemento em separado. “Doze Badaladas” me fez pensar até mesmo em qualquer coisa de Ennio Morricone. “Nada Mais Que Uma Cor” dói, como uma lamúria, e a voz de Luciana Alves merece novamente minhas considerações (confesso ter achado que o vocal dessa canção soou bem próximo de uma Maria Rita). Mas é o último golpe da Pele em nosso coração. Em “Tudo é Verão”, ouvimos o teclado de Daniel Stringini fazendo com que toda a música seja tocada dentro de uma nuvem sonora. A bateria de Braziliano é empolgante, e o baixo de Lucas Machado me parece nitidamente inspirado no post-punk. O vocal e a letra dão, porém, o tempero necessário: uma certa “brasilidade”,  a identidade da Pele. O disco termina com “Noites Quentes” – “Dizem que a distância é o esquecimento”, é o até logo que a Pele de Asno nos dá enquanto o baixo caminha entre as nuvens que o teclado emite. A guitarra do Los Hermanos 4 de Ronaldo Guerche volta para nos dar esse até logo.

Um prematuro salto qualitativo em relação à Demo, que já me agradava bastante e que havia me fisgado com pelo menos umas três músicas que sei, há quase um ano, assobiar de cabeça. Altamente recomendável. Falaria mais sobre cada uma das canções. Para não ficar ainda mais extenso, reitero que são os melhores de Santa Maria e tem algumas canções na minha lista de favoritas.

“Pele de Asno” (2011)

1. Que Sorte Há de Vir
2. Naufrágio
3. Sala de Esperar
4. Ladeira da Consolação
5. Monstro
6. Fado
7. Desengano
8. Infância em Casa
9. Lenço de Papel
10. Doze Badaladas
11. Nada Mais que uma cor
12. Tudo É Verão
13. Noites Quentes

Download

Pele de Asno é formada por Luciana Alves (vocal), Ronaldo Guerche (guitarra), Braziliano (bateria), Daniel Stringini (teclado) e Lucas Machado (baixo).

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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