My Bloody Valentine – Loveless

Tento imaginar a experiência de quem, em 1991, comprou esse disco…

… Depois de ter ouvido o aclamado Isn’t Anything de 1988 e EPs como You Made Me Realise, de 1988/89. Então a pessoa pegou o disco…

… E naturalmente colocou o Lado A pra tocar. Imagino alguém de vinte-e-poucos anos, terminando a faculdade ou em um emprego mediano, sem filhos – ou com no máximo um – e morando em um apartamento pequeno. Essa pessoa – rapaz ou moça – provavelmente foi fazer um café, pegou um cigarro e, enquanto esperava o café ficar pronto, deu uma olhada na capa.

Provavelmente, o que esse jovem rapaz, ou essa jovem moça estava ouvindo era isso:

E é aqui que eu começo a me perguntar pelo tipo de experiência que essa pessoa estava tendo. Porque se essa pessoa ouviu o Isn’t Anything, ela pode ter ouvido também SisterDaydream Nation e o Goo do Sonic Youth. Com alguma sorte ela pode ter ouvido alguma coisa de Slowdive, Chapterhouse e Ride. Com muita sorte ela já conhecia os Psychocandy e Darklands do The Jesus and Mary Chain. Se era essa a situação, essa pessoa de sorte não voltou até a loja e pediu para trocar o disco por outro exemplar quando, na quarta faixa, ouviu isso:

Afinal, Loveless, do My Bloody Valentine, conseguiu repetir a proeza do Psychocandy e mandou muitos desavisados de volta para a loja, para trocar o disco porque as músicas estavam todas com “chiado”. Chiado que não é senão o “pink fuzz” milimetricamente planejado por um Kevin Shields que, especula-se, esgotou financeiramente a Creation Records para a produção do genial Loveless.

A imagem de Kevin Shields, com sua aparência frágil, em um estúdio, com fones de ouvido e girando infinitos botões é outra imagem emblemática, que só posso imaginar. Um gênio incompreendido. Acrescentando cortinas sonoras à melodias às vezes quase pop, como Soon, ou absolutamente nada convencionais e quase ininteligíveis, como Touched. Um gênio que inventava, nesse disco de capa cor-de-rosa, um gênero musical: o shoegaze, como ficou conhecido o gênero de tantas bandas que tocavam olhando para os próprios pés, tímidos, incapazes de encarar o público enquanto sussurravam, em meio a nuvens sonoras, suas delicadas letras sobre sentimentos frágeis. Se não inventava o gênero – que ninguém sabe dizer se começou no próprio Isn’t Anything, no Psychocandy ou até mesmo em Garlands, primeiro disco dos Cocteau Twins – conseguia reunir e sintetizar toda a cena em torno desse disco, realização máxima do estilo, o sentido da história de toda chiadeira daqueles anos. Kevin Shields. Um gênio de vinte-e-poucos anos que atrasou UM ANO INTEIRO o lançamento do disco porque provavelmente não achava nunca que as camadas sonoras estivessem da forma que seu gênio musical concebia, mas custava a realizar. Um gênio que, como se pode perceber, antecipou e certamente influenciou um The Smashing Pumpkins em sua sonoridade, como em Sometimes

… Que, em 2003, foi escolhida à dedo por Sofia Coppola para estar na trilha de seu Lost in Translation (Encontros e Desencontros). Que canção era aquela do Smashing que, afinal, ninguém conhecia? Não era Smashing. Era My Bloody Valentine. Era o Loveless tocando, doze anos depois. Fazendo trilha sonora para as memoráveis atuações de Bill Murray e Scarlett Johansson perdidos em Tóquio. Para quem já conhecia o My Bloody Valentine, era o Loveless tocando enquanto se esperava, há doze anos (que hoje já completam vinte) o terceiro disco da banda.

Loveless sintetiza a cena shoegaze que acontecia até o momento. É seu sentido. É como se todas as outras bandas fossem coadjuvantes de um My Bloody Valentine que vai na frente, carregando todas em seu vácuo. Quem é que duvida que a cena se extingue e cai no esquecimento por quase dez anos justamente pela falta do terceiro disco dos MBV? Sim, certamente não foi o rápido declínio da cena e o desmanche de várias bandas do gênero que determinou o não-lançamento do terceiro disco do My Bloody, mas precisamente o contrário. Pois de um lado as sementes lançadas pelo shoegaze podiam ser percebidas no pop-rock/grunge do Smashing, por outro lado a quase-ininteligibilidade de Shields motivava a criação de bandas como Lovesliescrushing, onde as nuvens sonoras são levadas as últimas consequências. Em suma, o shoegaze estava sustentado e possuiria público consumidor em mais de um círculo musical. Mas o terceiro disco não veio, e Loveless ficou sendo para sempre o disco para o qual todo o shoegaze rumava, conspirava, ascendia, e onde afinal o gênero finalmente se realizou. A última canção do disco, Soon (Logo)…

… Poderia dar a impressão de um breve retorno. Feliz ou infelizmente, não foi o que aconteceu. A magia da dupla Kevin Shields & Bilinda Butcher não se repetiu, pelo menos em estúdio. O My Bloody Valentine se reuniu algumas vezes e realizou alguns concertos. Os fãs de vinte anos atrás acreditaram, como crianças, que isso era um sinal do terceiro disco. Muito provavelmente, não é. Eu não ouvi o Loveless quando foi lançado, pois tinha seis anos de idade, ou seja, teria que ter muita sorte de ter crescido ouvindo My Bloody Valentine por conta de outros. Mas eu devia essa “resenha” – meio romanceada e apaixonada, é verdade – ao disco pelo qual sou mais obsessivamente apaixonado há mais ou menos uns três anos. Aqui o Loveless arrebatou, com sua delicadeza, um ouvinte do som quadrado, analítico e soturno do Joy Division. E embora o shoegaze seja post-punk, My Bloody Valentine não tem nada a ver com Joy Division. A melancolia serena das nuvens sonoras do Loveless, suas letras que flutuam entre o erótico e o romântico, as vozes de Shields e Bilinda se fundindo à massa sonora de suas canções, é tudo milimetricamente perfeito em Loveless, planejado por um gênio que sabia exatamente que tipo de sentimentos desejava suscitar em seu ouvinte. “Onírico”, “etéreo” e tantos outros adjetivos exaustivamente utilizados pelos fãs constituem um clichê, é verdade, mas não por isso menos verdadeiro: My Bloody Valentine, em seu Loveless, é tudo isso, e tudo isso faz com que este álbum seja meu momento favorito dos últimos vinte anos de rock. Meu álbum favorito.

1 – Only Shallow
2 – Loomer
3 – Touched
4 – To Here Knows When
5 – When You Sleep
6 – I Only Said
7 – Come in Alone
8 – Sometimes
9 – Blown a Wish
10 – What You Want
11 – Soon

Link pra Download: Não vou colocar. Acho que a Creation Records caça, até hoje, os links para download do My Bloody Valentine (já tive um vídeo retirado do YouTube por usar música do MBV como fundo). Mas, sempre tem por aí. No mais, linkei tudo para o LastFM, onde se pode ouvir tudo direto da rede, com assinatura ou aplicativos para navegadores.

Agradecimento ao blog VinilGrafias de onde “roubei” as belas imagens do disco em vinil.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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