Bagageiro, felicidade e outros mistérios

Não, ainda não abandonei este blog – embora já o tenha tentado algumas vezes.

Prometi a mim mesmo que só voltaria a escrever assim que estivesse satisfeito com meu ritmo de redação da dissertação. Acho que atingi algumas metas que estabeleci para mim mesmo. Assim, volto a falar por aqui em um dia de relativa importância, pois hoje foi provavelmente a última aula de um ciclo que se iniciou em março de 2004. Hoje, as 17h, quando o prof. Noeli Rossato encerrou a disciplina que ofereceu neste semestre para os alunos da pós-graduação em filosofia da UFSM, percebi que era a última.

Na verdade, eu já sabia que era a última desde o momento em que pisei no CCSH 74 hoje pela manhã. Sabia que era a última quando conversei com os colegas sobre o futuro profissional e sabia que era a última quando almocei no RU. Tinha consciência disso enquanto rememorava alguns episódios prosaicos desses últimos anos. Rememorava mas não “re-sentia”, ou pelo menos não “re-sentia” no sentido mais negativo do verbo. Lembranças melancólicas repovoavam alguns locais onde histórias aconteceram. Outros locais, contudo, sequer existem mais: rememorar episódios é recriar também os cenários, pelo menos por alguns instantes.

Mas, voltando ao presente, já que o que importa é sempre o futuro… Sem dúvida o momento mais “intenso” desde minha última manifestação por aqui foi o emblemático episódio do assalto à excursão que nos levaria à Toledo. Assalto que vivi apenas parcialmente, pois dormia um sono tão pesado que só percebi o que se passava enquanto era educadamente conduzido até o bagageiro do ônibus onde, ao lado de todos os colegas, deveria esperar os assaltantes fugirem. Tive medo de que minha claustrofobia fosse me matar, confesso, e não esbocei reação. Não pensei em nada, e não imaginava como escapar daquela situação. Sequer meu telefone foi roubado, mas mesmo assim foi inútil: não consegui sequer ligar para a polícia de dentro do bagageiro, pois não havia sinal. Felizmente, um colega arrebentou a porta por dentro e saímos. Mas não fomos mais à Toledo e não pudemos apresentar nossos trabalhos. Confesso que passado o susto, minha maior e egoística tristeza foi a de constatar que não poderia “desvendar o mistério da liberdade” em Toledo. Nem tampouco – e principalmente – pude ter a felicidade de passar na cidade uma semana agradável como foi a visita de 2010.

Felicidade, aliás, foi o assunto da semana anterior, pois um professor, durante palestra, teve a ideia de mencionar minha humilde pessoa em uma lista de “filósofos que não acreditam na felicidade” ou talvez, mais precisamente, “filósofos que não acreditam que a filosofia produza felicidade”. Algo assim. Não sei, pois não estando presente, só soube do fato segundo relatos de colegas. Confesso que não entendi. Mas, começo a aceitar que não se deve ficar ofendido quando se é mal-compreendido. Pois recordo que disse mesmo que a filosofia não tem o dever de pensar a felicidade. Em primeiro lugar, porque filosofia pode ser “filosofia da matemática”, por exemplo, e não ter nada a ver com ideias de “felicidade”. E em segundo lugar porque outros domínios da cultura – como a religião ou a arte – podem ter muito mais a oferecer no que diz respeito à proporcionar felicidade, bem-estar, etc, do que a reflexão filosófica. Afinal, a menos que felicidade seja uma ideia necessariamente atrelada à de esclarecimento e libertação – e sabemos que não é – não creio que toda a desconstrução conceitual e transformação pessoal que o estudo da filosofia pode oferecer seja uma garantia ou sinônimo de felicidade. Que a filosofia possa pensar a felicidade, isso é indiscutível. Que ela seja uma fonte da mesma, discordo: a reflexão filosófica parece possuir, por excelência, o poder de esclarecer e emancipar o pensar. Pode – ou não – fazê-lo feliz. A filosofia parece comprometida com a tarefa de corrigir o pensar, não de alegrá-lo.

Infelizmente, não pude ir para Toledo falar da correção do pensar (e do viver) à qual Jean-Paul Sartre nos convida com sua filosofia. Como alguns poucos leitores aqui sabem, é disso que me ocupo, é isso que estudo. “O Mistério da Liberdade” é um título propositalmente metafísico (praticamente místico) que escolhi, carinhosamente, em tempos em que a metafísica me parece, cada vez mais, o domínio onde toda forma de metáfora sobre a condição humana encontra sua morada legítima, pois é onde é compreendida. A tese é relativamente simples: ao propor que a liberdade não é uma propriedade do arbítrio, mas fundamento deste e também da paixão, Sartre desautoriza concepções que pensem o plano motivacional como determinante da ação. Assim, as razões do agir – motivos e móbeis – não exercem qualquer “força magnética” sobre a escolha, exceto a força que a própria escolha lhe confere, pois é contemporânea à esta. Em suma: as motivações de uma pessoa também são responsabilidade da pessoa e não podem, sob hipótese alguma, servir de “pretextos” ou “desculpas” para a ação na medida em que são livremente aceitas (portanto, escolhidas). Contudo, se a liberdade escolhe até mesmo sua motivação, escolhe “motivada” pelo quê? Escolhe a partir de onde? Eis o mistério da liberdade: a liberdade (a pessoa) cria a si mesma a partir do nada. O que faz com que a antropologia de Sartre seja a de uma realidade humana – individual, singular, pessoal – que exige a constante manutenção (ou eventual transformação) de seu sentido. Ser humano é fazer-se humano e há, na filosofia de Sartre, um forte apelo à tomada de consciência da liberdade, a despeito da angústia que decorre da consciência de se saber criador solitário do sentido da própria existência. Há sempre a perpétua possibilidade de descansar em crenças que proporcionem a ilusão de substancialidade – e talvez, sobretudo, estabilidade – para a qual a realidade humana tende perpetuamente sem poder realizá-la (a chamada má-fé), mas a verdade profunda da necessidade de se refazer constantemente, a verdade da autoria do sentido da própria realidade pode assaltar o indivíduo a qualquer momento, colocando todo um projeto existencial em jogo, podendo fazê-lo implodir por inteiro.

É claro que sempre se pode tentar a manutenção de uma ruína. O convite de Sartre, contudo, é à verdade, e não à felicidade: é um convite à assunção do mistério da própria liberdade.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
Esse post foi publicado em Despojos, Fábulas Para Entristecer, Filosofança e marcado , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para Bagageiro, felicidade e outros mistérios

  1. Ana disse:

    Mr. Sandman me trouxe até aqui. Já releu a “saga”?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s