A vida na Terra é má

“Em algum remoto rincão do universo cintilante que se derrama em um sem-número de sistemas solares, havia uma vez um astro, em que animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da ‘história universal’: mas também foi somente um minuto. Passados poucos fôlegos da natureza congelou-se o astro, e os animais inteligentes tiveram de morrer.”

O parágrafo acima pertence à um texto de Nietzsche, que alveja a soberba do conhecimento científico – e mesmo filosófico – de seu tempo. Se pretende fazer uma crítica do conhecimento e de seu lugar no cosmos, as balas perdidas de Nietzsche acabam respingando em todo o sentido da existência humana: o que é a história humana na Terra diante da vastidão do tempo universal? Nietzsche “congela” o planeta com sua imaginação e mostra a insignificância da experiência humana sobre a Terra. Contudo, o filósofo alemão preserva a integridade do globo terrestre para que a contingência – ou o Eterno Retorno – repita o fenômeno humano.

Lars Von Trier não poupa nada.

Fragilidade e absurdo. Talvez sejam as duas idéias mais fortes transmitidas por uma atenção superficial à “Melancolia”, filme de Lars Von Trier. Afinal, o que pensar sobre a existência humana quando, do nada, um gigantesco planeta azul, chamado “Melancolia”, entra em rota de colisão com a Terra? A falta de sentido chega à seu limite diante da possibilidade de que a única esfera habitada por formas de vida de todo o universo seja destruída por puro acaso, ao colidir por outra das inumeráveis esferas que flutuam no vazio do espaço infinito. O fim da vida no universo seria causado por um acaso estúpido.

Mas essa não é a única forma que Trier encontrou para atingir o espectador. Um segundo elemento que se atira no colo de quem atenta para o conteúdo explícito do filme é o papel inalienável do indivíduo na construção de sentido de seu mundo: diante da iminente destruição daquela que é provavelmente a única ilha de vida do universo (sentimento potencializado pela ausência de contato ou comunicação com outras pessoas ou com o mundo exterior), a melancolia impede que essa tragédia das tragédias seja experimentada em toda sua magnitude. Seja uma disposição existencial, seja o nível baixo de serotonina, essa profunda melancolia que infectará gradativamente a personagem principal a deixará em um estado de resignação tal que o último dos acontecimentos parecerá apenas mais um, em sua quase insignificância.

Mas não é assim que quero ver o filme.

Quero propor uma leitura que chamarei de paranóica. E sua premissa é muito simples: Justine é responsável pela destruição do mundo. Justine é responsável pelo fato do mundo afundar em Melancolia.

Minha leitura paranóica

Não vou fazer uma sinopse aqui. Vou pressupor que o leitor já assistiu o filme. E que, portanto, percebeu que a maioria dos personagens possui nomes que guardam significados filosóficos ou bíblicos. A própria protagonista é Justine (Justiça). Seu noivo é Michael (Miguel, o senhor das hostes celestiais). Sua mãe é Gaby (Gabriel, o anunciador da vinda de Cristo). Seu cunhado é John (João Batista, que dá o batismo à Cristo). Sua irmã é Claire (Clara) e seu pai é Dexter (Sábio). Seu patrão é Jack (variação de Jacó) e seu novo colega de trabalho é Tim (diminutivo de Timothy, que “respeita Deus”). Finalmente, seu cavalo é Abraham (Abraão). Tendo isso em mente, já temos os elementos básicos para a confecção da paranóia bíblica em torno de Melancholia.

Minha paranóia de fazer uma leitura simbólica do filme não se resume à minha paranóia, mas – penso – é corroborada pelos delicados elementos de mistério que Trier salpica de forma não muito sutil (nada é sutileza quando se trata de Trier, afinal). Como a onisciência de Justine – que, ao contrário da Justiça que é cega, vê tudo – que nos garante que havia 678 feijões em uma garrafa, número sobre o qual teria se realizado um jogo de apostas na cerimônia de seu casamento. Também garante que não existe vida em nenhuma outra parte do universo. E que a vida humana na Terra é má, e que não se deve ter pena dela. Como uma simples moça depressiva poderia ter certeza sobre essas coisas, se o filme não fosse justamente uma alegoria?

Para terminar a lista de elementos que eu consegui colecionar para a livre-paranóia, temos o vestido azul-melancolia de Gaby, mãe de Justine. Mãe que, vale dizer, estava ausente dos momentos mais importantes de sua vida. Temos uma sala, no castelo de John, onde Justine troca a posição de vários livros, substituindo as páginas que estes exibiam por outras distintas. O que ela estaria fazendo, com esse gesto simbólico, senão desorganizando a própria Criação, cuja manutenção deveria ser perpetuada com seu casamento com Michael? Temos também os “18 buracos” do campo de golfe do castelo de John, que na verdade são 19, e a ponte da qual Justine não passa com Abraham. E este castelo, com seus dezoito – ou dezenove? – buracos de golfe é a extensão de todo o mundo conhecido.

Esse cenário não é novo. Assemelha-se muito aos limitados cenários de Dogville ou Anticristo, também de Trier, onde praticamente toda a ação se passa em torno de poucos personagens isolados em algum local ermo. O castelo de John, o astrônomo milionário, parece distante de todo o resto da civilização. Excetuando-se por um “mordomo” a quem chamam “grandfather”, que vive num vilarejo próximo ao qual parece impossível chegar. Do início ao fim do filme, os personagens aparecerão apenas nos arredores do castelo de John, onde é difícil chegar. Quem vai embora do castelo simplesmente não reaparece na trama.

Diante do quadro de um número tão grande de personagens que remetem à contrapartes “mitológicas”, não é estranho que o castelo seja uma espécie de olimpo em torno do qual se dão todos os acontecimentos da trama. E é isso que se dá: Justine nega-se a casar com Michael e, a partir de então, o planeta Melancholia parece desatar sua marcha em direção à terra. Sua Dança da Morte, a partir da qual fingirá um “fly-by” para então, em um movimento astronomicamente impossível, voltar com toda sua força na direção da Terra. A recusa de Justine ao casamento com Michael substitui um mundo todo em tons de dourado – o mundo da primeira metade do filme – por um mundo azul-melancolia. Através de uma fotografia magnífica, Trier nos mostra uma Justiça que é feita através da extinção não apenas da vida na terra, mas de seu palco: sem o planeta, a vida não poderia sequer retornar. Mas tudo bem, isso não deve ser lamentado: a vida na Terra é má, intrinsecamente má, como afirma a própria Justine.

Trier criou um apocalipse metafórico, metafísico, mitológico. Metafórico porque as cenas são símbolos de conceitos muito maiores e que os justificam. Metafísico porque sua tese de que a vida é má pode ser facilmente encontrada nas prateleiras da história da metafísica – na pena de um Schopenhauer, por exemplo, que estaria completando 224 anos hoje. Mitológico porque ilustra essa tese com um panteão no qual a Justiça ocupa o trono, e no qual ela se realiza com o fim de tudo. Um apocalipse nos contornos da finitude, com um recorte estritamente existencial da experiência do fim do mundo, onde nem Deus nem o homem poderiam instaurar um sentido que obliterasse o absurdo da contingência absoluta de um mundo que desaparece da mesma forma que surgiu: por acaso.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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Uma resposta para A vida na Terra é má

  1. Marcio_LG disse:

    Sim, esse filme é mesmo carregado de elementos. Porém, não sei se a tese que defende o senhor Von Trier é minimamente interessante. Separados os feijões, me pareceu que não…

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