Mestrado de má-fé (ou: místico sim, irracionalista não)

Há uma semana atrás, dia 23 de março de 2012, eu defendia aquilo que foi o produto de alguns anos de envolvimento com a obra de Jean-Paul Sartre. Das nove da manhã até a primeira hora da tarde, defendi primeiro “minhas idéias” e em seguida “meu autor”. Diante de banca formada pelos professores Simeão Donizeti Sass e Róbson Ramos dos Reis, defendi minha dissertação de mestrado intitulada “Má-Fé e Psicanálise Existencial em Sartre”. A banca também foi composta por meu orientador, prof. Marcelo Fabri, que preferiu poupar meu já exaurido Sartre dos possíveis ataques da frente dupla de argumentos husserlianos ou levinasianos, nas quais ele poderia operar com mais que maestria.

As argüições do prof. Róbson tiveram foco na obra de Sartre, e não tanto em meu texto. Após localizar erros e afirmações perigosas, o professor fez com que eu tivesse que tentar cumprir o papel de um “advogado do diabo”, onde o diabo era o próprio Sartre, cujas idéias foram postas à prova na chama da razoabilidade acendida pelo professor. Confesso que fiquei desconcertado diante da questão sobre se o “desejo de ser Deus”, fórmula ontológica através da qual Sartre define a condição humana, era realmente uma boa expressão e um bom conceito para definir a realidade, por exemplo, de tibetanos que vivem tão distantes da nossa realidade cultural ocidental e que, portanto, provavelmente não parecem oferecer razões para serem acusados dessa neurose ontológica. Não sei se fui um bom advogado, pois acabei confessando que meu cliente cometeu, sim, alguns crimes. Como o de, para citar outro exemplo, esquecer da ética ou mesmo da preocupação com o sofrimento humano: a psicanálise sartreana não é pensada para sanar a dor psíquica, mas para provocar a angústia.

As argüições do prof. Simeão Sass, contudo, me causaram um mal-estar maior. O que é evidentemente positivo, na medida em que me obriga a rever minha leitura de Sartre, minha interpretação do autor. Dois aspectos centrais que perpassaram todas suas argüições foram as que me tocaram mais profundamente. A primeira é concernente ao fato da má-fé não ser pensada, por Sartre, como um mal. A despeito do quanto eu tenha obsessivamente usado metáforas para dizer que a má-fé é uma distorção da realidade através da qual o indivíduo se afasta da verdade para fugir da angústia, o prof. Sass não crê que isso caracterize a má-fé como um mal. Mesmo a elaboração da psicanálise existencial não tem o propósito de “purificar a consciência” nem “criar um contexto de correção para o pensar e para o viver”. Essas considerações ainda orbitam em meus pensamentos.

Contudo, foi uma outra sorte de comentários que realmente atingiu minha condição de leitor e intérprete de Sartre. O prof. Sass afirmou, em certo momento, que minha interpretação de Sartre era de um tipo que oferecia argumentos àqueles que chamam Sartre de irracionalista e místico. O que concordei, por um lado, mas discordei por outro. Pois sim, acho que há um elemento místico incontornável em Sartre, e é esse mesmo elemento que o salva da acusação de irracionalista. Vejamos.

Sartre místico? Sim.

Porque diabos e de onde se poderia justificar a idéia de que há um elemento “místico” na obra de Sartre? Como, por todos os deuses, o campeão do existencialismo pode ter algo de místico? O filósofo da finitude e que afirma que “o existencialismo é um ateísmo coerente” tem uma mística? Quase posso ouvir a ênfase da voz do prof. Sass em suas argüições, atônito com minhas estranhas conclusões.

Sartre é místico porque a liberdade é imprevisível. Sartre é místico porque a liberdade é uma força criadora que produz a realidade individual ex nihilo, isto é, “do nada” como criava o Deus medieval. Sartre é místico porque Roquentin, em A Náusea, afirma que “seus pensamentos nem sempre são acompanhados de palavras”, o que parece, sim, denunciar uma desconfiança sartreana sobre o alcance do discurso – mesmo que o próprio autor tenha escrito dezenas de milhares de páginas e lido outras dezenas de milhares, em uma vida iniciada em meio à santidade da biblioteca do avô, onde os livros eram sagrados. Sartre é místico porque sua psicanálise existencial só alcança a dimensão do para-outro, isto é, só nos oferece uma imagem alter do ego, pois é ontologicamente proibida de alcançar o campo estrito da subjetividade. Sartre é místico porque para o sujeito, tudo o mais é objeto, e o sujeito não consegue nunca alcançar a si mesmo – quando tenta, alcança um resíduo fantasmagórico e objetificado de si mesmo, que é o que chamamos de “eu”. Sartre é místico porque usa um vocabulário místico: fala de “desejo de ser Deus”, “conversão”, “paixão inútil” (a paixão humana, oposta à de Jesus Cristo). Sartre é místico porque sua ontologia é uma metafísica sem Deus, uma onto-teo-logia na qual Deus é o elemento proibido, onde o absurdo é o absoluto e não é possível visualizá-la sem imaginar a alma humana (consciência) surgindo, ainda que por força da contingência absoluta, sobre a terra e iluminando (discurso) um ser que permanecia no escuro, embora não possa voltar essa luz sobre si mesma porque é ela mesma essa própria luz (limite do discurso). Sartre é místico porque define o ser humano como fracasso porque em sua perspectiva tudo se passa como se a realização do homem fosse possível.

É evidente que não se pode deduzir uma mística sartreana desses elementos, muito embora a psicanálise existencial possa ser pensada como uma terapia que promove um contexto de despersonalização do indivíduo, onde a reconquista do nada e o abandono da miragem do ser seriam a salvação. Muito embora a má-fé seja uma fé, a fé daquele que acreditou errado, que acreditou que vive sob a tutela do ser, embora seu reino próprio seja o nada e sua possibilidade o perpétuo fazer.

Sartre irracionalista? Não.

Se ao chamarmos Sartre de irracionalista por acreditar que haja algo ontologicamente anterior à razão, sim, ele é inescapavelmente irracionalista. Se, contudo, queremos com isso dizer que Sartre acha que há uma instância mais poderosa que a razão operando no interior dos indivíduos humanos, que essa força deve ser enfrentada, domada e controlada pela razão, e que essa força é como que um oposto da razão, não, Sartre não tem nada a ver com essa maneira de ver o homem.

A história da filosofia nos mostra que a condição humana foi concebida como um campo de batalha entre a Razão e toda uma sorte de elementos sombrios que seriam seus adversários naturais, seus contrários. Desejo, pulsão, paixão, instinto, emoção, etc.: tudo aquilo que fizesse oposição à razão pertenceria, então, à esse lado terreno e sombrio da condição humana. Há mesmo uma obsessão pelo império da razão, e dessa obsessão comungam verdadeiros inimigos filosóficos. Se a metafísica de Hegel pretende ser uma demonstração da realização da Razão, seu inimigo Schopenhauer acha que a salvação do homem é quando a Razão se sobrepõe à maligna Vontade metafísica. Na seqüência, vemos os positivistas construindo toda uma perspectiva que é uma apologia da razão. Nosso querido Kant achava que a razão era a única medida da moralidade e se voltarmos a Aristóteles, vemos que o exercício da razão era ingrediente sem o qual o homem não realizaria sua essência mais íntima. Sartre seria, então, a grande exceção na história da filosofia, ao pensar a Razão de modo distinto e inédito?

Sem entrar na questão dos detalhes da caracterização do conceito através da história da filosofia, o ponto é que em Sartre, a realidade humana é definida sobretudo como sendo um movimento na direção de uma condição irrealizável. Esse movimento pode ser tão deliberado, reflexivo e racional quanto resoluções de ano novo, mas pode ser passional e emotivo. Há, certamente, tons de cinza entre a racionalidade pura e a passionalidade pura, mas de um ponto de vista ontológico não há diferença: razão e paixão são modos da liberdade se realizar no mundo.

A razão não pode se voltar contra a liberdade, eis um ponto. Se fazemos as resoluções de fim de ano, na paz da reflexividade, sua verificação só será medida no âmbito do agir. Contudo, sejam ou não sejam cumpridas, não representam e não poderiam representar uma vitória da razão sobre a infinita imprevisibilidade e espontaneidade da liberdade humana. E vejamos porque.

Se as resoluções não forem cumpridas, isto é, permanecerem sob a forma de uma lista esquecida, é porque não eram resoluções, mas simples angústia. A angústia é uma tomada reflexiva do indivíduo por si mesmo. Na experiência da angústia se manifesta, como em nenhuma outra experiência, a liberdade. Uma lista de resoluções não cumpridas não é, efetivamente, uma lista de resoluções, mas uma lista de confissões. Se as resoluções não foram cumpridas é porque, afinal, não faziam parte do campo de escolhas do sujeito. Quando a razão entra em cena, a escolha fundamental já está sempre feita, e esse é o sentido do título Os Dados Estão Lançados que Sartre dá à um de seus contos: razão ou paixão são formas de ratificar a escolha fundamental.

Se as resoluções foram cumpridas, os dados já estavam lançados antes da reflexão entrar em cena: a escolha fundamental, anterior à razão, é que ditou que a forma de justificar a si mesma seria racional, e não passional. A própria liberdade – isto é, a pessoa humana – flutua em uma atmosfera de contingência e sem possibilidade de justificação absoluta. No interior de seu projeto sim, aí então, é possível criar esquemas de compreensão de si mesmo no qual a razão cumpre seu limitado papel.

Sartre não é irracionalista, pois não desmerece os poderes da razão. Longe disso, faz dela um ingrediente central da condição humana: a psicanálise existencial promove mesmo a purificação da reflexão e permite que a racionalidade entre em cena no momento de reconstrução de um projeto, de uma escolha original de um indivíduo. O que a razão não pode, afinal, é dar mais do que tem: não pode voltar-se sobre aquilo que é seu fundamento e sua matéria, não pode sequer arranhar a etérea e incoercível liberdade.

Evidentemente, essas são conclusões parciais. Não estou certo de que quero continuar me envolvendo com a obra de Jean-Paul Sartre no decorrer da minha vida acadêmica. Sei que não quero, digamos assim, professar e advogar pelo sartrismo. Mas sei que, inescapavelmente, há uma conseqüência incontornável (ou um prejuízo irrecuperável) do fato de ter me envolvido, racional e passionalmente, com a obra de Sartre nos últimos quatro ou cinco anos. É o fato de que uma convivência (e lida) profunda e insistente com as idéias de outra pessoa acaba, mais ou menos, criando um contexto a partir do qual revisamos nossa própria visão de mundo. Em se tratando de um filósofo, e de um filósofo perturbador e subversivo como Sartre, é inevitável supor que alguns hábitos de pensamento permanecerão por tempo indeterminado. Tão indeterminado quanto a liberdade humana.

Registro aqui meus sinceros agradecimentos aos professores: Simeão Sass, pela participação na banca e pelas argüições; Marcelo Fabri, Noeli Rossato e Robson R. dos Reis, pelos anos de convivência e colaboração nessa minha primeira caminhada filosófica e em especial ao prof. Ronai Pires da Rocha, por ter sido, por todos esses anos em que convivi com a comunidade da Filosofia UFSM, o melhor exemplo do que penso que deva ser o profissional em filosofia.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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2 respostas para Mestrado de má-fé (ou: místico sim, irracionalista não)

  1. ablazz disse:

    Olá…

    Não sei bem como cheguei aqui, mas gostei muito do blog. Que belo post sobre sua defesa… não sei se convenceu a banca, mraças a mim convenceu. Venho lendo Sartre despretensiosamente mais alimentando dúvidas que obtendo afirmações. De filosfia, quero entender muito, mas sou socióloga e certas barreiras conceituais se colocam (talvez seja porque filosofia seja apenas uma angústia na minha lista de realizações). Atualmente estou interessada no pensamento de André Gorz que tem posição reconhecida na sociologia (embora não fosse acadêmico) e que foi amigo de Sartre e participante do círculos de intelectuais da Les temps modernes. Espero que pós ajustes sua disseração chegue por aqui para que possa lê-la.

    Um abraço,
    e parabéns pela defesa…

  2. Victor da Filosofia disse:

    Olá,

    Há alguns anos eu postei algo sobre o André Gorz.
    https://ressentimento.wordpress.com/tag/andre-gorz/

    Tive a oportunidade de ler aquele livro-carta-de-amor dele à esposa em estado terminal. É isso mesmo, não? E acho que há mais semelhanças do que dissemelhanças entre filosofia e sociologia, contanto que sejam boas filosofias e sociologias. :)

    Tentarei postar um link para a dissertação por aqui, sim. Assim que estiver tudo em ordem. Ainda estou vendo os últimos detalhes disto.

    Abraço e muito obrigado. :)

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