Escarlatina Obsessiva – The Organ Grinder Songs

A melhor banda de post-punk do Brasil dos últimos tempos (e, já me parece, de todos os tempos) lança seu quinto álbum. E, mais-que-definitivamente, inscreve – catapulta! – seu nome no hall de bandas obscuras do Brasil. Se – agora confesso – não senti no seu Endemic a força do PandemicThe Organ Grinder Songs é “aquele” disco que toda banda madura tem. Aquele disco que revela um salto qualitativo, um ponto de mutação. Porque entrou, fácil fácil, pra minha lista pessoal de discos preferidos. São nove canções. Um “lado A” monumental e absolutamente impecável e um “lado B” também excelente, e protagonizado pela genial canção que dá nome ao disco.

Em Crystal Ball, uma jóia. A entrada da bateria insanamente punk com a voz de Karolina lá pelo segundo-minuto-e-meio já mostra que a brutalidade gratuita permanece com a mesma velocidade extrema dos outros discos, mas que a atmosfera noturna se intensificou. Place in a Trance me fez imaginar imediatamente um cenário cyber-punk e me lembrou o Unplugged do Midnight Oil, mais precisamente nesta canção.

Million of Bones é precisamente o ponto em que se verifica a catapulta qualitativa. Mais uma vez, me lembrou outra canção, mas sem fugir da marcada obscuridade da atmosfera post-punk oitentista. Se fosse possível fazer esse tipo de vinculação, eu diria que a influência aqui é de Tim Burton. Perfeita trilha sonora para um parque de diversões ou circo macabro de um filme desse cineasta. Quase posso ver a cara de um personagem doentio de Johnny Depp aparecendo em um carrossel na acelerada final que a música dá.

Fakir é, por incrível que pareça, quase-dreampop. Quase, porque a velocidade e a pegada da Escarlatina são uma costura inconfundível que dão a identidade da banda. Mas é impossível não ser jogado em um cenário de luzes multicoloridas com as notas iniciais dessa canção. O vocal é deslumbrante, com involuções e picos dignos de uma Siouxsie, quase de uma Liz Fraser. Já Emerald Green, na sequência de canções, é a mais sombria de todas e imediatamente acompanhada pela não menos interessante Lightning Bug.

The Organ Grinder Song, a canção que dá nome ao disco, faz com que o clima de “a film by Tim Burton” volte com força, só que desta vez de forma, em minha opinião, explícita. Valsa, sanfonas e a percussão fazendo marcha para a letra dançar. Um verdadeiro pesadelo poético no qual a riqueza estética é marcada pela maestria da banda em sintetizar cada elemento no lugar certo, tecendo aquela que talvez seja a mais autenticamente post-punk de todas as canções post-punks já feitas em território tupiniquins, digna mesmo de comparação à um Bauhaus, em minha humilde opinião. E o disco fecha com chave de ouro com Blue Bird e Hazard Card fecham, com um quê de dreampop e a obsessiva bateria da Escarlatina.

Clicando na imagem abaixo, você é redirecionado para o site da Zorch Factory Records onde o álbum está disponível para download gratuito. A melhor surpresa musical do ano até agora, The Organ Grinder Songs é, em minha opinião, o maior candidato a ser, daqui há alguns anos, lembrado como maior realização da música obscura brasileira de todos os tempos. Uma afirmação dessas é apressada, eu sei, e só se justifica no contexto de ainda estar no calor das primeiras audições. Mas assino essa promissória e desejo toda a sorte e sucesso à esse pessoal obscuro de São Tomé das Letras, que vem nos brindando com excelentes discos nos últimos anos.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
Esse post foi publicado em Despojos, Por um mundo Punk-Gótico e marcado , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para Escarlatina Obsessiva – The Organ Grinder Songs

  1. Bira disse:

    Reconheço “The organ grinder songs” como o mellhor album, apesar de ser dificil ainda me desapegar do Chants of Leth, que marcou uma era pra mim.

    • Victor da Filosofia disse:

      Pra mim, o Pandemic era o marcante nesse sentido. Mas esse novo é uma jóia, inacreditável.

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