Religiões e o avanço da ciência

No dia 02 de abril, o Diário publicou um texto do prof. Rogério Severo, no qual este analisava algumas características supostamente universais de todas as formas de religiosidade. Não pretendo aqui questionar tais elementos, mas atentar para algumas expressões utilizadas pelo prof. Severo, como “indícios empíricos confirmatórios” ou “demonstrações documentadas”. Tais fórmulas me parecem, com todo o respeito ao prof. Severo, expressões de uma grande confusão categorial dos nossos tempos, a saber, a idéia de que todos os âmbitos de nossa cultura precisam passar pelo crivo da racionalidade científica.

É fácil constatar que nos últimos anos o ateísmo tem se tornado uma perspectiva popular entre pessoas que parecem reconhecer nesta atitude uma espécie de distinção intelectual. Esse ateísmo parece ter como atitude fundamental a obsessiva exposição da religiosidade à racionalidade científica. Assim, através da ridicularização da fé, reduzir as bases das formas coletivas de culto religioso à categoria de fábulas e contos-de-fada para adultos néscios parece ser a diversão dos ateus.

Não obstante, o religioso mais sofisticado incorre no mesmo tipo de transgressão categorial: suas exigências intelectuais parecem indicar que a única fé legítima a pessoas de bom senso seja a que possa ser “confirmada empiricamente” e documentada cientificamente. Como se a religião precisasse passar pelo tribunal da razão científica para se justificar, para ser o que é.

A existência de Deus – ou a sua inexistência – não pode e não vai ser demonstrada em um laboratório. A tentativa de fazê-lo já parece, por si mesma, preocupante. Esse impulso de justificação científica da religiosidade que impregna nossos tempos parece sinal de uma – aparentemente irreversível – crise: a crise de um tempo e de uma cultura que perdeu a capacidade de ter fé e que, agora, exige evidências do que deveria ser, por definição, misterioso e invisível.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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3 respostas para Religiões e o avanço da ciência

  1. Andreabla disse:

    Me parece que a tentativa de deixar a religião mais científica, mais racional vem desde as reformas religiosas… não?

    De qualquer forma, uma coisa que tem se debatido pelas bandas da sociologia é como a ciência tem surgido na sociedade contemporânea como um tentativa de reencantamento do mundo, mesmo depois de Weber, Heiddeger, Adorno, Horkheimer e Marcuse terem estabelecido todo uma crítica sobre a técnica e a racionalidade. Ilya Prigogine, prêmio Nobel da química, tem se esforçado para demonstrar como a ciência busca pensamento universais, busca leis para o entendimento rígido do mundo. Como ele mesmo diz “ela [a ciência] desencanta precisamente por que o diviniza e nega a diversidade e o devir naturais (…) em nome de uma eternidade incorruptível, única de ser pensada com verdade”.

    Se a fé vem tentando ser calculda, racionalizada e provada empiricamente, a ciência vem tentando ser divinizada a fim de colocar-se como esperança única universal. De ambos modos, ganha a razão e o cálculo (sejam eles mitificados ou não) e perdem outras dimensões sensoriais e/ou afetivas da vida humana.

    • Victor da Filosofia disse:

      Obrigado pelo comentário. É (sempre) bom ver que a gente não está sozinho em nosso delírio. :)

  2. Andreabla disse:

    Comentei aqui e não mais pensei sobre a religião sendo provada cientificamente. Porém, conversando com algumas amigas, me chega ao conhecimento os “procedimentos científicos” utilizados para provar o criacionismo da Igreja Adventista. A referida igreja tem laboratórios e trabalha com os métodos científicos em suas escolas. Me enviaram um video do youtube e retornei aqui para compartilhar só para refletir e tentar certificar que, como você disse, não estamos sozinhos em nosso delírio.

    PS. O seu tweety que apareceu aqui nessa coluna bacana ao lado (—–>) dizendo que é por a filosofia ser inútil que é a coisa mais legal do mundo é realmente genial. Concordo totalmente. :)

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