Einmal ist keinmal

“Tudo aquilo que é vivido com a consciência da finitude é vivido de forma autêntica.” Eis uma tese que eu atribuiria à Jean-Paul Sartre, sem a certeza de que teria a benção deste pensador. É também uma tese perfeitamente aceitável se proferida dentro da atmosfera romanesca das narrativas do – ainda vivo – pensador tcheco Milan Kundera, tão obsessivamente celebrado nas páginas deste espaço. A diferença, contudo, é que este último tem a consciência e a pena ainda mais depuradas do espírito lírico que permite a filosofia de um Sartre a fazer afirmações categóricas sobre o mundo e o homem. Kundera não é um filósofo, e é por isso que eu o prefiro à Sartre. Kundera defende a “relatividade essencial de todas as coisas”, ou seja, uma idéia que atinge a si própria e, por estrutura interna, não se permite cristalizar sob a forma de uma verdade ontológica.

Há um ponto de encontro no pensamento destes indivíduos que tanto aprecio, que talvez possa ser caracterizado pela fórmula com a qual iniciei o texto, a “consciência da finitude”. Embora na pena de Sartre essa noção perpasse suas construções conceituais com o intento de defender sua fenomenologia das garras das categorias metafísicas, é no texto de Kundera que a idéia de finitude alcança a dimensão existencial. Por não ter o propósito inconfesso de Sartre, que é o de servir-se da literatura para ilustrar suas ideias, Kundera deixa a sabedoria do romance conduzi-lo por uma espécie de fenomenologia literária, uma arte fenomenológica que, ao explorar a essência das situações humanas, nos revela categorias existenciais cardeais do pensamento existencialista: a passagem do tempo que a tudo devora, a ironia das conseqüências indesejáveis de nossas ações, a fragilidade de nossa existência, o horizonte da finitude sem a qual nossa liberdade não é senão uma fantasia metafísica.

“Einmal ist keinmal” é uma dessas fórmulas, magicamente inspiradas pelo daimon existencialista, das quais Kundera se serve para nos revelar – sem compromisso com o rigor lógico e conceitual e apelando para nossa única faculdade efetiva, a saber, a extremamente plástica “compreensão” – uma estrutura que é relativa à cada uma de nossas ações e, por conseqüência, se estende à toda nossa existência. A fórmula, em alemão, é pensada a partir da obra de Beethoven e uma possível tradução – que é a que Kundera oferece – seria como “uma vez é nada”, “uma vez é nunca”. Mas, o que isso quer dizer?

Essa fórmula sintetiza toda a atmosfera na qual se passam as histórias de Tomas, Tereza, Sabina e Franz em sua obra capital, A Insustentável Leveza do Ser. O romance inicia com uma reflexão sobre a idéia nietzscheana de “Eterno Retorno” só para nos mostrar que uma existência concebida como acontecimento finito não tem o menor peso, não tem substância, é uma fumaça que se dissipa no ar. É nada.

É esse Nada cardeal que Sartre tenta, através de setecentas páginas, nos ensinar pela sôfrega via do conceito. Explora todo o surpreendentemente vasto âmbito de nossa consciência insubstancial, para mostrar que toda a riqueza da realidade humana é relacional e finita, o que nos conduz à uma incontornável angústia quando encaramos essas verdades. Ora, é precisamente isso que Kundera nos faz: nos mostra essas verdades através de uma voz que fala diretamente à compreensão humana por prescindir da via conceitual, denotativa, literal. Se o conceito deveria ser um espelho do mundo, Kundera o dispensa: eis o próprio mundo, em sua carne e seu sangue, em páginas de romance. A existência personificada e se oferecendo nua à compreensão humana é precisamente o caminho de Kundera. É o que, talvez, Merleau-Ponty procurava ao final de sua vida: uma via que atingisse os âmbitos originários da existência humana. Preferiu a fenomenologia à ciência, para, tarde demais, perceber que não era nem mesmo a fenomenologia o caminho discursivo apropriado para dizer o essencial da realidade humana.

“Einmal ist keinmal”, uma vez é nada. A vida só é vivida uma vez. E essa estrutura se reproduz em cada átomo da vida, a saber, as ações. Como um holograma, a existência é uma síntese das ações, atitudes e comportamento de uma pessoa, e a unidade de uma pessoa é impregnada do sentido de cada ação. Cada pequena atitude é uma expressão da totalidade desse holograma. E toda essa unidade pessoal se estrutura a partir do nada e para o nada retorna com a morte. Eis a consciência da finitude, o caminho da vida autêntica, o Santo Graal do existencialismo que tão pouco se assemelha à uma salvação da alma.

A estrutura da totalidade se repete nas partes que a constituem: cada vivência é uma unidade, só acontece uma vez e depois desaparece. Continua evanescendo, só que na memória, faculdade filha da imaginação e que termina, sempre, açambarcada por essa. O vivido se transforma em lembrança e a memória não tem forças sobre a imaginação: o lembrado se degrada, se falsifica. A existência – e cada ação – vivida não sobrevive nem mesmo na memória. Desaparece, no nada.

Enquanto escrevo esse texto, um amigo me lembra que as múmias, no Antigo Egito, eram sepultadas com o coração, pois a alma supostamente imprime toda sua vida em um ponto do coração, na própria carne, no limite entre a matéria e o espírito. É com melancolia que penso que mesmo uma vida carnal vivida resgatada em um âmbito espiritual não escaparia à lógica dessa estrutura existencial: mesmo uma vida registrada integralmente não pode ser vivida senão uma vez. Na antecâmara da eternidade, é um outro, e não eu, que assistirá a projeção da vida vivida em uma tela espiritual. E cada episódio será atuado por um personagem que será um outro diante do espectador. O tempo não é uma variável: é uma constante que não permite que essa unidade seja passível de ser vivenciada de uma vez só e totalmente – ou, pelo menos, não permite que a vivenciemos como seres humanos. E “uma vez é nada” é uma fórmula que fala sobre seres humanos.

Sartre falava em assunção das responsabilidades pelas escolhas. Essa é uma condição necessária, mas insuficiente para a vida autêntica. Sem a atmosfera de “consciência da finitude” – que deveria ser oferecida pelas teses da ontologia fenomenológica das setecentas páginas de O Ser e o Nada – insisto, a liberdade é uma fantasia metafísica. A liberdade de Tomas e Sabina, de Agnes, Tamina, Ludvik e de todos os anti-heróis e anti-heroínas de Milan Kundera é uma liberdade vivida em seu âmbito originário. Não no âmbito do conceito e da idéia, mas no âmbito das escolhas, ações e vivências. Não no âmbito da filosofia, mas no âmbito da vida.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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