Vestibular UFSM 2012 – Prova de Filosofia

Volto as atividades por aqui trazendo o tradicional comentário sobre a prova de filosofia da UFSM. Dessa vez, contudo, com um diferencial: pela primeira vez, como professor.

Depois de um ano de preparação e contato com as questões de filosofia preparadas para a prova do vestibular da UFSM, confesso não me surpreender nem um pouco com o estilo da prova. O que não significa, em absoluto, que seja uma prova óbvia e fácil: a filosofia do vestibular da UFSM continua sendo um bicho-papão. Mesmo com suas ínfimas 8 questões no último dia de provas, houve quem não tenha acertado uma questão sequer. E continuará havendo, enquanto a prova for como é: aluno que deixar a filosofia para ser estudada no tempo de sobra da Matemática e da Física vai, eventualmente, zerar a prova sim.

Vejamos brevemente as 8 questões.

Questão 02

O pensador brasileiro Leonardo Boff esteve presente nas páginas da prova de filosofia.

O pensador brasileiro Leonardo Boff esteve presente nas páginas da prova de filosofia.

É preciso saudar os elaboradores da prova pela lembrança de Leonardo Boff: grande expoente do pensamento brasileiro e ainda vivo, Boff não poderia estar ausente em uma prova que orbitou sobre a temática da ecologia.

A própria questão, contudo, é um perfeito exemplo de pega-ratão: a presença da expressão “se e somente se” deve ter levado muitos à pensarem que se tratava de uma questão de lógica. Contudo, a questão é mais facilmente resolvida se atentamos para o fato de que o que está sendo oferecido no cabeçalho é uma definição de um conceito – portanto, aquilo que na filosofia da linguagem é chamado de intensão. Essa questão enganou, certamente, quem apenas decorou os conteúdos de lógica, jogando muitos para a letra C em função da bi-condicional na primeira frase.

Questão 06

Questão 06

Questão que pedia conhecimentos de conceitos básicos de ética – distinção entre moralidade e legalidade e distinção entre juízos de fato e juízos de valor – bem como um pequeno conhecimento histórico e temático da filosofia, sem o qual não se saberia quem foram os Epicuristas. Questão básica, na medida para quem não deixou os livros de filosofia juntando traças na gaveta.

Questão 36

Questão 36

Ótima questão para compor polígrafos de testes, na medida em que é o que chamo de questão informativa: as três proposições a serem analisadas são verdadeiras. Três perfeitos exemplos de falácias, ou seja, procedimentos inválidos de argumentação. Posso estar pecando por esquecimento, mas me parece que é a primeira aparição da falácia da falsa dicotomia em provas da UFSM.

Questão 37

Questão 37

Essa é uma das típicas questões para os interpretadores de texto não zerarem a prova. Exceto pela proposição I – que exige o conhecimento das relações entre proposições que são ilustradas pelo quadrado de oposições – as demais só pedem o entendimento do que está posto no enunciado da questão. Mesmo a proposição III, que tenta se vincular com Teoria do Conhecimento ao mencionar tese e verificação, é facilmente respondida por quem entendeu as informações do texto.

Questão 44

Questão 44

Depois do aparecimento de Leonardo Boff, o nome de André Comte-Sponville deve ter causado pânico aos que decoraram os nomes dos filósofos e não viram estes nomes nos manuais. Mas a questão em si mesma não é difícil, embora seja uma questão de “filosofia de verdade”. Conceitual e focada em conteúdos de filosofia, a questão só oferecia a proposição III aos que tem a habilidade de interpretar textos e deixaram os livros de filosofia na gaveta.

Questão 46

Questão 46

Fazendo a dobradinha conteudista com a questão anterior, essa questão é a mais próxima que temos na prova de uma questão de conteúdos de filosofia. Quem não sabia quem foram Hobbes e Rousseau não saberia, por exemplo, que Rousseau não partilha da visão pessimista de Hobbes, na qual o medo cumpre tão importante papel na estruturação da civilização e da sociedade. Nem saberia que o “pacto” é sim uma idealização especulativa dos contratualistas, bem como o “estado de natureza”.

Questão 49

Questão 49

Aqui, era preciso saber quem era Kant, qual era sua concepção de ética e conhecer noções do utilitarismo, perspectiva ética que reage ao formalismo kantiano. Não fosse pela proposição II – uma questão de VOCABULÁRIO – seria mais uma questão redondinha e focada em conteúdos de filosofia. No mais, mais uma questão “informativa” que vai escorregar facilmente para os cadernos de testes de filosofia.

Questão 52

Boff reaparece na última questão de filosofia da prova.

Boff reaparece na última questão de filosofia da prova.

Uma das que mais gostei, senão minha preferida na prova. Uma questão praticamente completa, na medida em que cobra tanto a capacidade de leitura e compreensão de um texto quanto os conhecimentos em filosofia. A proposição I separa quem sabe ler e entender um texto de quem não sabe. A questão II é uma questão de lógica: de que B se siga de A NÃO SE SEGUE que A se siga de B. Aqui, o velho exemplo do “‘Se neva, faz frio’ (V) x ‘Se faz frio, então neva’ (F)” poderia voltar a mente e ajudar o candidato à resolver a questão. Finalmente, a terceira era uma questão sobre a tabela das virtudes aristotélicas: quem sabia que Aristóteles vincula a virtude ao meio-termo acertou essa questão.

O pensador brasileiro Leonardo Boff foi apresentado aos candidatos e homenageado pelos professores da banca em uma prova que versava sobre ecologia. Considero a prova substancialmente melhor que a do ano passado e acessível aos que se debruçaram sobre minha querida disciplina, tão bicho-papão na prova do vestibular da UFSM. Parabenizo a banca por ter elaborado uma prova acessível e interessante, quase completamente integrada à temática da ecologia, preservando o estilo – já tradicional – das questões, sem descaracterizar a disciplina de filosofia.

Leonardo Boff

Leonardo Boff

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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