O dia mais triste de nossas vidas

Eu nunca havia experimentado a verdade da expressão “palavras não conseguem descrever”.

Em certo sentido, foi a pior tragédia que o mundo viu em muito tempo.

E foi na “minha casa”.

Tenho certeza que esse foi o sentimento de muitos santamarienses, de berço ou – como eu – de coração.

Não somos acostumados a aparecer na TV. E, de um modo geral, não somos acostumados à viver tragédias. Somos provincianos, espectadores do mundo. Santa Maria é uma pequena moça bonita que tenta se vestir e se comportar como as moças da capital, mas que não perde seu jeitinho provinciano nem quando tenta parecer moça feita. A verdade é que quase ninguém olha pra ela, embora às vezes ela merecesse pelas coisas bonitas que faz. Mas nos últimos dias, todo mundo olhou.

E foi em razão da coisa mais triste que todos nós já vivemos.

E que, provavelmente, vai ter sido a coisa mais triste que teremos visto por toda nossa vida.

Eu estava na Rua dos Andradas naquela madrugada. Eu já subi incontáveis vezes a Rua dos Andradas. Eu passo, quase todos os dias, na frente do palco desse acontecimento sinistro. E ainda não consigo entender, acreditar, aceitar.

Eu vi mais carros de bombeiros de ambulância naquela noite do que, provavelmente, em toda a minha vida.

Acompanhei uma contagem crescente que, na medida em que crescia, se tornava mais e mais “surreal”. 5, 15, 40, 180. Mais de duzentos.

Não vou mentir: a ficha ainda não caiu. Os olhares do mundo só reforçam a sensação: é um pesadelo. Logo, todos vamos acordar e voltar ao nosso terno anonimato, aos problemas cotidianos, aos pequenos males do mundo, que já são grandes o suficiente para nossos ombros.

Mas, o pesadelo não acaba. Acordamos de nossas noites inquietas, ainda tão recentes, e a coisa ainda está lá. A coisa mais triste de toda nossa vida.

Nunca mais seremos esquecidos. Lições serão tiradas e pequenos aspectos do mundo mudarão em função do sacrifício do qual nossa cidadezinha foi o palco. O mundo mudou um pouco essa semana, e isso aconteceu aqui em Santa Maria.

Mas, sobretudo, nós mudamos. Para sempre. Santa Maria mudou. Nossa consciência mudou. A menina Maria terá crescido para sempre depois de perder mais de 200, entre filhos e enteados. Nós, provincianos do interior do Sul de um país, nunca mais vamos pensar que tragédias são coisas que acontecem pelo mundo, e que assistimos pela TV. Nós nunca mais ousaremos desconfiar que somos meros espectadores do mundo e da vida. Em nome daqueles que nos deixaram, eu rogo a Deus que não deixe essa tragédia, com todas as suas lições, ser esquecida. E que as lições não sejam tão severas com outros como foram conosco.

Eu ainda não consegui entender. Eu ainda não consegui acreditar ou aceitar. Mas, ao menos, eu já consegui chorar.

Santa Maria de luto

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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2 respostas para O dia mais triste de nossas vidas

  1. Já conseguimos chorar

  2. André Adolfo disse:

    Quase 5 anos depois ainda é inacreditável, inaceitável mas inesquecível. Dor que não vai passar nunca.

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