22 anos depois…

Voltando à (tentar) falar – pois a vida precisa seguir -, não posso silenciar sobre o lançamento do terceiro álbum do My Bloody Valentine, esperado por quase 22 anos.

My Bloody ValentineMy Bloody Valentine é uma banda que inventou, sintetizou e realizou um gênero – o shoegaze – através de um álbum – Loveless -, lançado em 1991, e obnubilado, como toda uma geração, pelo Nevermind do Nirvana. Porém, os caminhos do tempo permitiram que se tenha formado todo um culto em torno deles, e das bandas que, em seu vácuo, ajudaram a constituir a cena shoegaze. É dessa forma, e por essas razões, que My Bloody Valentine se tornou objeto de culto e adoração, sendo mencionada como referência para todo e qualquer noise rock. E foi assim que o terceiro disco – finalmente lançado, intitulado apenas mbv – se tornou, lentamente, uma lenda. Dizer que ele era “esperado” é mentira: ninguém pode razoavelmente esperar 20 anos por algo assim.

Mas, o disco saiu.

mbvO álbum é, sem dúvida, shoegaze. O ponto é que a essência do shoegaze, há 21 anos, é definida pelas 11 faixas do Loveless. Variando sobre elas (LSD And The Search For God), misturando-as com outros elementos (Film School, Belong) ou copiando-as descaradamente (Fleeting Joys), o shoegaze é constituído sobre essas onze notas essenciais, que fazem como que definir os limites do gênero. Desde a quase-ininteligível Touched, passando pela perfeita Sometimes (tão querida por Sofia Coppola) até a balada pop Soon, ali estava o cardápio do que se poderia fazer sob a etiqueta do autêntico shoegaze. Embora distintas, as 11 canções do Loveless são onze hinos e são todas absolutamente essenciais. Em Loveless, só o essencial tem o direito de existir.

Mas essa impressão é, talvez, um fruto histórico de Loveless (embora eu não entenda dessa forma). O ponto é que, comparativamente, mbv não parece “essencial”. Ainda não parece, ao menos. Como se, ao tentar continuar o que eles mesmos fizeram, não tivessem reencontrado a fórmula do essencial. Sem dúvida, mbv é um disco de shoegaze. Um disco de shoegaze que ocupará um lugar para sempre especial na história da cena, por razões mais históricas do que musicais.

Sem dúvida o disco tem a cara da banda. Diferentemente de outras bandas que se apropriaram da fórmula do Loveless e compuseram o shoegaze mais ortodoxo possível (quase plagiando o My Bloody), baseado no que o Loveless ensina, o My Bloody continuou sua obra. Seu terceiro disco é, sem dúvida, uma continuação da obra do My Bloody Valentine. Mas não é a continuação esperada: é um momento novo e inesperado. E talvez aí resida a força desse disco: nos fazer perceber que, mesmo depois de mais de 20 anos, é possível permanecer fecundo, criativo e inovador, sem deixar de ser fiel a si mesmo.

Um verdadeiro elixir de vida na hora em que algo de tal natureza se fazia necessário.

Download (o link remete para uma página de shoegaze de um casal de amigos onde, lá, há um link para o download).

Os "My Bloody Valentine" vinte anos depois.

Os “My Bloody Valentine” vinte anos depois.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
Esse post foi publicado em Fábulas Para Entristecer, Por um mundo Punk-Gótico e marcado , , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para 22 anos depois…

  1. Naiana disse:

    Estou infinitamente feliz em conhecer o seu Blog.
    A vida e os acontecimentos se projetam de uma forma muito maluca mesmo, porque eu precisava ler o que você escreveu no post: Nietzsche e a Fábula da Liberdade Inteligível.
    Não sei como isso aconteceu, só aceito que deveria ter sido assim.
    Bom, era tudo o que eu pensava, mas estava esquecida que deveria pensar dessa forma… A culpa me pegou e eu estava completamente presa numa rede de impulsos percebidos.
    Não, eu não sou uma alienada. Ou talvez seja.
    Só estou muito feliz, por hora…
    Muito Obrigada.

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