Um “ano de Urano” de Milan Kundera

Hoje, 1º de abril de 2013, o escritor tcheco Milan Kundera – famoso por sua Insustentável leveza do ser – completa 84 anos. 84 anos, segundo a astronomia, é o tempo aproximado que o planeta Urano leva para orbitar em torno do sol. Esse dado astronômico tem outro significado se observado à luz da astrologia, ciência irmã da astronomia e, hoje, relegada à estupidez dos horóscopos de jornal. Mas se a astrologia perdeu há muito tempo o estatuto de ciência, isso não quer dizer que não  tenha sua própria sabedoria. Ao invés, contudo, de comentar qual possa ser essa sabedoria, transcrevo aqui as ideias de Kundera sobre o assunto. Mais precisamente um trecho da sexta parte de A imortalidade, romance de 1990 que, em minha opinião, é sua melhor obra.

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“Sobre o mostrador de um relógio, os ponteiros giram em círculo. O zodíaco também, como é desenhado pelos astrólogos, tem o aspecto de um mostrador. O horóscopo é um relógio. Quer se acredite ou não nas previsões astrológicas, o horóscopo é uma metáfora da vida, e assim sendo, encerra uma grande sabedoria.

Como é que um astrólogo desenha seu horóscopo? Traça um círculo, a imagem da esfera celeste, e o divide em doze setores cada um representando um signo: Carneiro, Touro, Gêmeos, etc. Em seguida, no círculo zodiacal, ele inscreve os símbolos gráficos do Sol, da Lua e dos sete planetas nos lugares precisos onde estavam esses astros no momento em que você nasceu. Como se, sobre um mostrador de relógio normalmente dividido em doze horas, inscrevesse anormalmente nove números suplementares. Nove ponteiros percorrem esse mostrador: são também o Sol, a Lua e os planetas, mas da maneira como giram no céu durante toda a sua vida. Cada planeta-ponteiro está assim incessantemente numa nova relação com os planetas-números, esses pontos imóveis do seu horóscopo.

A configuração singular que tinham esses planetas no momento em que você nasceu é o tema permanente de sua vida, sua definição algébrica, a impressão digital de sua personalidade; os astros imobilizados sobre seu horóscopo formam entre si ângulos cujo valor em graus tem um significado preciso (positivo, negativo, neutro): imagine, por exemplo, que seu Vênus amoroso se ache em conflito com seu Marte agressivo; que o Sol de sua personalidade seja fortificado por sua conjunção com o enérgico e aventureiro Urano; que a sexualidade simbolizada pela Lua seja sustentada pelo astro delirante que é Netuno, e assim por diante. Porém, durante seu trajeto, os ponteiros dos astros vão tocar cada um dos pontos imóveis do horóscopo, pondo assim em jogo (debilitante, energizante, ameaçador) diversos componentes de seu tema vital. A vida é bem assim: não se parece com o romance picaresco onde o herói, de capítulo em capítulo, é surpreendido por acontecimentos sempre novos, sem nenhum denominador comum; é parecida com essa composição que os músicos chamam tema com variações.

Urano move-se no céu num passo relativamente lento. Leva sete anos para percorrer um signo. Suponhamos que hoje esteja numa relação dramática com o Sol imóvel no seu horóscopo (digamos que estejam a noventa graus de distância): você terá um ano difícil; em vinte e um anos a situação se repetirá (Urano estando então  a cento e oitenta graus do seu Sol, o que tem o mesmo significado nefasto), mas a repetição será apenas aparente, porque nesse ano, no mesmo momento em que Urano ataca o seu Sol, Saturno no céu se encontrará com Vênus no seu horóscopo num relacionamento tão harmonioso que a tempestade passará por você na ponta dos pés. Como se você fosse atingido por uma mesma doença, mas desta vez sendo tratado num hospital fabuloso, onde, em vez de enfermeiras impacientes, estariam anjos.

A astrologia, parece, nos ensina o fatalismo: você não escapará do seu destino! A meu ver, a astrologia (preste atenção, a astrologia como metáfora da vida) diz uma coisa mais sutil: você não escapará ao tema de sua vida! Isso quer dizer que será uma quimera tentar implantar no meio de sua vida uma ‘vida nova’, sem nenhum relacionamento com sua vida precedente, partindo do zero, como se diz. Sua vida será sempre construída com os mesmos materiais, os mesmos tijolos, os mesmos problemas, e o que você poderia considerar no princípio como uma ‘vida nova’ logo aparecerá como uma simples variação do já vivido.

O horóscopo parece com um relógio, e o relógio é a escola da finitude: assim que um ponteiro completou um círculo para voltar ao lugar de onde partiu, uma fase termina. No mostrador do horóscopo, nove ponteiros giram em velocidades diferentes, marcando a todo instante o fim de uma fase e o começo de outra. Em sua juventude, o homem não está em condições de perceber o tempo como um círculo, mas apenas como um caminho que o conduz direto para horizontes sempre diversos; não percebe ainda que sua vida contém apenas um tema; perceberá isso mais tarde, quando a vida compuser suas primeiras variações.”

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Minha obsessão pelo autor, que todo leitor que acompanha o blog conhece, está quase completando dez anos. Nos últimos seis, escrevi e destruí uma série de postagens sobre suas obras. As que sobreviveram permanecem neste blog, que leva em seu título uma palavra tcheca colhida das páginas de seus romances. À quem interessar possa, as outras postagens estão na “tag” Milan Kundera, que você pode acessar na coluna ao lado (na “nuvem de tags”) ou aqui.

À Milan Kundera, parabéns por seus 84 anos. E por sua imortalidade.

Milan Kundera

PS: recentemente tive a oportunidade de prestar um tributo ao autor, aproveitando um pouco suas obras sob um ponto de vista acadêmico. Tentando conjugar ideias de seus romances e a filosofia existencialista de Jean-Paul Sartre, publiquei um artigo que tenta aproximar as ideias de ambos os pensadores. O texto se intitula A insustentável leveza do ser-para-si: uma leitura sartreana de Milan Kundera e pode ser acessado aqui.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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2 respostas para Um “ano de Urano” de Milan Kundera

  1. Nona disse:

    Olá,
    Eu sou a Nona e meu escritor preferido e Milan Kundera, é realmente um prazer grande demais ler seus livros, não é verdade? Já fui bem mais obcecada por ele, hoje sou apenas uma grande fã, mas confesso que embora aquela obsessão “Kunderiana” não exista mais, alguns acontecimentos e principalmente algumas decisões pessoais que talvez não foram as mais adequadas em meu passado recente, me fazem neste momento sentir-me como uma de suas personagens. Agora lembro-me que talvez as decisões equivocadas não tenham sido realmente equivocadas; afinal como iremos saber, se a vida não admite um esboço para depois corrigimos os traços e verificar se o ponto de fuga é aquele mesmo?
    A vida já é o desenho direto no papel, sem direito a esboço, sem direito a ensaios. Assustador, não? E completamente verdadeiro. Esta aliás é uma das temáticas de Kundera.

    Não conhecia seu blog ainda, e não me lembro como cheguei aqui, contudo estou gostando do que você escreve. Muito bom.

  2. Juliette disse:

    Sou apaixonada por Kundera! Depois de ler as suas obras mais conhecidas e em seguida outras menos tive medo de não encontrar nada melhor do que a brincadeira ou a insustentável leveza do ser até que li A imortalidade, que é riquíssimo e nele senti Kundera ainda mais próximo, menos próximo que em Testamentos Traídos onde ele nos aproxima de sua história ao longo do ensaio e onde sentimos a sua decepção com as traduções e até pela adaptação de seu livro para o cinema e com a perseguição/invasão constante aos imortais, às suas histórias, ao mesmo tempo que ele traz alguns detalhes de sua própria vida. Ainda temos algum tempo para torcer que ele escreva ainda mais!

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