Velhas ideias sobre “autenticidade”

Embora este espaço já não seja, como foi outrora, caracterizado por minhas livres reflexões – que são uma figura do espírito e, como toda figura, pode ser superada – penso que eventualmente possa deixar a pena e o pensamento livres. Mesmo sabendo que todo discurso é uma reafirmação de si mesmo, uma reafirmação de um si mesmo que, quando reafirmado, é falsificado. Mesmo sabendo que reafirmar a mesmidade é um dos poucos “pecados” no ideário que alimenta este espaço. Afinal, reafirmar a mesmidade – e flertar com a permanência de traços estáveis em um caráter – é perseguir ideais impossíveis. Atitude que, vez por outra, pode acabar nos iludindo, nos fazendo esquecer que tais ideais são, por natureza e definição, impossíveis. Atitude que pode acabar engendrando o mais franco engano de si mesmo.

A ideia de “autenticidade”, Santo Graal do existencialismo, é uma ideia difícil de entender e seus autores não nos ajudaram muito à explicitá-la. Não ajudaram porque se tivessem empreendido a tentativa de nos oferecer a “narrativa da autenticidade” teriam traído o que há de essencial nessa ideia, a saber, a de que uma existência autêntica não pode ser definida. Assim, nem Sartre nem Camus nos legaram a narrativa da autenticidade. Embora A NáuseaO Estrangeiro sejam textos capitais na bibliografia existencialista, nem Sartre nem Camus querem que sejamos como Roquentin ou Meursault.

Mas, quem frequenta este blog sabe: eu prefiro Milan Kundera. E o prefiro precisamente porque acho que seus romances nos oferecem precisamente o tipo de narrativa que as inteligências filosóficas dos pensadores da tradição simplesmente não conseguiram tecer. O vício pelo pensamento abstrato, próprio da tradição metafísica, dificilmente poderia produzir a narrativa da autenticidade. Mesmo os filósofos continentais são demasiado analíticos diante de um porta-voz da “sabedoria do romance”. E é concordando com Milan Kundera que vejo a arte do romance como lugar privilegiado de exploração do mundo-da-vida e da cotidianidade sempre falsificada pelo conceito filosófico.

Em seu romance mais famoso, A insustentável leveza do ser, Kundera nos mostra o que poderiam ser algumas figuras no caminho da autenticidade. Mais precisamente nos personagens de Sabina e Tomas. A primeira, por sua fixação na traição, conseguiu viver uma vida sem vínculos. Contudo, como se estivesse vendada, acabou conduzindo sua vida para uma leveza insustentável. Essa ameaça Sartre formulou no personagem Mathieu Delarue em Idade da Razão: uma liberdade que não se compromete é uma liberdade vazia. Sabina caiu na última armadilha no caminho da autenticidade: acreditou que a vivência da liberdade exigia a preservação de um campo impessoal, neutro, no qual nenhum vínculo a comprometesse. A liberdade sem compromisso, contudo, é uma das formas mais sofisticadas da má-fé.

Tomas, por outro lado, cai em uma armadilha factual: Tereza. Contudo, ao invés de fazer a manutenção da liberdade ao modo de uma mesmidade, Tomas se reinventa. Vira lavador de janelas, vai pro interior, deixa de ser um cafajeste e abandona mesmo sua profissão de médico, em uma atitude de pleno desprendimento de si – o contrário da manutenção de si mesmo. Ao invés de cultuar uma ideia de liberdade abstrata, Tomas se compromete com novas perspectivas. Parece ser bem sucedido: na última página do romance, afirma que é um alívio perceber que se é livre. Alívio: uma experiência negativa – ou seja, que não trai a ontologia existencialista – mas desejável, agradável. Ora, nenhuma inteligência filosófica do existencialismo foi capaz de tematizar reflexivamente uma experiência agradável como o alívio.

Longe de querer versar sobre Sartre e Kundera como fiz outrora – e ainda mais longe de tentar justificar minha obsessão permanente sobre esses autores – desejo apenas partilhar uma ideia simples. Uma ideia que pode ser até mesmo uma “hipótese de trabalho” acadêmica. Mas que também mostra como um novo olhar pode sempre re-significar os objetos. Uma ideia que meus amigos heideggerianos dizem que já se encontra, de certo modo, em Heidegger. Uma ideia que, enfim, penso que deveria ser óbvia quando se fala em existencialismo: não existem ações autênticas, mas apenas consciências autênticas. E essa ideia é, em minha opinião, ilustrada de forma magistral por Kundera nas figuras de Sabina e Tomas.

Sabina encarnaria o paradigma da “liberdade de má-fé”, a miragem que atinge todos aqueles que, diante do existencialismo, anseiam por uma “lista de atitudes autênticas”. Nada pareceria objetivamente mais sensato do que cultuar a liberdade. Sem o perceber, Sabina fez apenas a manutenção de um personagem estável, estacionado em uma liberdade abstrata e pouco fecunda que, por uma contingência, teve tarde demais uma experiência de tomada de consciência que lhe jogou uma consciência angustiante no colo: estava só. Depois da morte de Tomas e Tereza, Sabina estava sozinha. Sozinha com sua angústia, sozinha com a insustentável leveza da existência.

A vida de Tomas foi ceifada pela contingência, ceifeira incontornável de tudo o que é finito. Sua existência, contudo, se constituiu como livre comprometimento, como um jogo em que apostar nas novas possibilidades reorganizava o próprio jogo em suas regras, a partir dos quais sempre se descortinou um novo sentido de “vencer ou perder”. Ao longo das pouco mais de duzentas páginas do romance, Tomas mudou. Diferentemente de Sabina, que sempre mudou para permanecer a mesma, Tomas empreendeu concretamente novos projetos, jogou-se em novas possibilidades, valorou diferentemente os acontecimentos de sua vida. Sem fazer a manutenção ressentida ou nostálgica do passado, Tomas encarna para mim a figura mais próxima da autenticidade tal como definida pelo existencialismo de Sartre. E isso não diz respeito à sua conduta, mas à consciência que acompanhou essa conduta: uma consciência que não cultuou a liberdade, mas que a realizou constantemente.

Para concluir, vale mencionar que nos últimos anos encontrei um bom número de aproximações do existencialismo e do zen-budismo. Não sem precisão, alguns autores identificam o campo impessoal da consciência tal como descrito por Sartre com a antropologia budista. Contudo, nada é mais avesso à intenção da filosofia sartreana do que um convite à despersonalização ou à “inação”. Assim como não é na manutenção de uma liberdade vazia que a autenticidade se realiza, o homem não precisa se recolher em um mosteiro para descobrir sua liberdade. É no comprometimento, na ação e no mundo que o indivíduo se faz. O indivíduo se realiza em seus projetos e, sobretudo, na perpétua consciência da própria liberdade.

Na adaptação cinematográfica, Philip Kaufmann capta com maestria o alívio de Tomas

Na adaptação cinematográfica do romance de Kundera, o diretor Philip Kaufmann capta com maestria o alívio de Tomas (Daniel Day-Lewis)

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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2 respostas para Velhas ideias sobre “autenticidade”

  1. quemsera disse:

    Do mundo viemos, para o mundo voltamos. Boa reflexão, como sempre.

    “Não existem ações autênticas, mas apenas consciências autênticas”. Heideggerianamente falando, eu não defenderia isso. A questão é precisar melhor o que se entende por “ação”. Tendo em vista que o ser humano é temporal, projetando-se sempre para o futuro e tendo como possibilidade primordial a morte, é no campo da ação que se realiza o espectro da existência. Claro, não se trata de entender a ação como algo puramente irracional, como mostram os romancistas-filósofos do existencialismo. Como foi bem pontuado – e esperamos que eles realmente pensem isso – Camus e Sartre (com esse minha suspeita é um pouco maior) não querem que sejamos Roquentin e Meursault. O problema que eu vejo ao se abordar a identidade pessoal é a substancialização da msma, tal como esses pensadores dedicaram suas vidas em tal investigação. Nesse sentido, penso que se há ‘consciência autêntica’, há ação autêntica. O que não quer dizer em absoluto que haja uma substancialização de um caráter autêntico, isto é, como se alguém que pensasse ‘autenticamente’ e agisse autenticamente, decorresse disso que essa mesma pessoa pudesse ganhar o ‘status ontológico’ de “pessoa autêntica” para o resto de seus dias.

    • Victor da Filosofia disse:

      “(…) se há ‘consciência autêntica’, então há ação autêntica.”

      Grato André. A construção frasal na postagem acabou falsificando a proposição. Mas foi isso que eu quis dizer – embora tenha redigido de forma errada. Não vou editar a postagem senão teu comentário perderia o sentido. No mais, teus comentários só acrescentam à própria postagem. Valeu!

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