O existencialismo é um niilismo?

Segundo Sartre, o existencialismo é um humanismo. A falta de sentido da existência evocada pelo termo “niilismo” no título da postagem, em geral, não é encontrado na pena de autores existencialistas. Ainda que a existência humana não tenha um sentido intrínseco, os autores designados pela etiqueta “existencialismo” parecem sugerir exatamente o contrário: a existência humana é significação, criação de sentido, realização de sentido. Desse modo, o existencialismo seria o contrário do niilismo – e o niilismo seria uma transgressão categorial que consiste em deduzir um certo “dever” de um “ser”: o fato de que os seres humanos não têm à sua disposição um sentido pré-dado à existência significaria que nenhum sentido criado e realizado pelos seres humanos teria valor.

De qualquer modo, o existencialismo serviu de inspiração para mais de um autor niilista. E este parece ter sido o caso de Cormac McCarthy (1933-), ao menos em sua obra The Sunset Limited. Originalmente concebida como texto dramatúrgico, a obra foi adaptada para o cinema há cerca de dois anos. E no papel dos personagens, dois gigantes do cinema contemporâneo: Samuel L. Jackson e Tommy Lee Jones.

O enredo é simples: um dos personagens (nenhum deles aparece nomeado no filme) é um professor de humanidades que acaba de fracassar após uma tentativa de suicídio. O outro é um cristão – aparentemente evangélico – que tenta, através do diálogo, oferecer alguma motivação para o suicida. E em cerca de uma hora e meia de filme, vemos a maestria do texto de McCarthy. Em um diálogo que por vezes lembra A Náusea de Sartre – em um cenário que, por sua vez, é semelhante ao de seu Entre Quatro Paredes – McCarthy mostra como a tentativa de significação da existência simplesmente não funciona se não houver o “salto” da escolha originária pelo sentido.

Advirto que o filme é pesado. Mesmo assim, àqueles que tem interesse ou apreço pelas temáticas do existencialismo, é um exercício tanto filosófico quanto espiritual. Que, em minha opinião, permite ver claramente uma certa tese: a consciência excessiva pode ser um mal. Como em Memórias do Subsolo de Dostoievski, o personagem de Tommy Lee Jones revela que o conhecimento pode não motivar a salvação de uma vida e que a escolha originária pelo sentido ou pela racionalidade de uma existência deve ser da natureza de um ato de fé, uma aposta, um comprometimento. Comprometimento que, uma vez ausente, nos oferece apenas o espetáculo do desmoronamento da existência em “formas vazias”, insossas, insípidas e sem qualquer valor.

Sem mais delongas, deixo aqui os links para as sete partes do filme:

Parte 1:

Parte 2:

Parte 3:

Parte 4:

Parte 5:

Parte 6:

Parte 7:

Samuel L. Jackson e Tommy Lee Jones interpretam o texto de Cormac McCarthy

Samuel L. Jackson e Tommy Lee Jones interpretam o texto de McCarthy, um misto niilista de Entre Quatro Paredes A Náusea de Sartre.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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Uma resposta para O existencialismo é um niilismo?

  1. Francisco Roberto disse:

    Eu entendo que o Existencialismo é uma tentativa de superar o Niilismo pois sua gênese é justamente o desespero da falta de sentido do homem que caracteriza o homem niilista.

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