Sobre impulsos irracionais

Depois de dez anos de envolvimento com a filosofia, penso que já tenha adquirido o direito de dizer certas coisas. Como, por exemplo, dizer que a metafísica irracionalista de Schopenhauer ainda é, por vezes, a filosofia sem a qual eu não conseguiria compreender a vida. Talvez só dias cinzas e chuvosos como hoje me permitam admitir que até hoje me sinto “schopenhaueriano”. “Até hoje” porque li Schopenhauer no início do meu envolvimento com a filosofia, mas nunca esqueci.

Talvez a filosofia de Schopenhauer não seja mais do que um prosaico episódio na história da filosofia, possibilitado pela poeira dos escombros da metafísica das luzes que, desde os gregos, redimia a realidade de sua imperfeição aparente. O caso é que Schopenhauer, com seu tragicômico azedume, parece uma opção simplória diante da virtuose do conceito de seus contemporâneos idealistas alemães, por exemplo.

Em um misto de kantismo alternativo com filosofia oriental, Schopenhauer nos ensina que o fundamento da realidade é um impulso cego e irracional. A dimensão da existência não é senão uma ilusão, a simples refração de uma realidade traduzida pelo prisma de uma consciência que só se explica e se entende como produto de uma natureza que se objetiva – para essa consciência – em graus. Espelho da natureza, a consciência não é um produto de uma razão cósmica e absoluta – porque NÃO EXISTE tal razão cósmica e absoluta! Invertendo o esoterismo que imperou de Descartes à Hegel, Schopenhauer é o primeiro à formular sistematicamente a hipótese do fundamento irracional. Spinoza e Schelling entreviram essa possibilidade, mas apenas o gênio deprimido de Schopenhauer conseguiu desenhar o sistema da Vontade de maneira definitiva.

Sem Schopenhauer, não compreendo a vida. Não dispenso nem seu kantismo: as ciências positivas, todos os dias, nos ensinam que a experiência consciência é realmente uma tradução da realidade. É, contudo, sua metafísica da vontade que ainda me fascina: como compreender o movimento dos formigueiros humanos nos dias de sol ou chuva, sem Schopenhauer? Suspendendo a hipótese do impulso irracional para a vida, a vida perde a possibilidade de ser compreendida. Qual seria a razão suficiente da perpétua motivação cotidiana dos indivíduos e povos? Como entender a existência e a insistência humana sem a hipótese de um impulso cego e pré-racional cumprindo o papel de combustível da vida?

É uma solução simplória, mas mais honesta que a de meu amigo Nietzsche, por exemplo. Dizer, como nos diz este, que a “vontade de vida” é um caso de uma “vontade de potência” nos diz mais sobre o próprio Nietzsche do que sobre a vida. É compreensível: a “ontologia” de Nietzsche encerra um programa para a ação, para a vida plena. É preciso que uma ontologia justifique esse programa, porque é isso que fazem as ontologias, de forma confessa e consciente ou não – como nos ensina o próprio Nietzsche.

Meu outro amigo, Sartre, também trabalha com o pressuposto de um impulso irracional. Mas este já não fala sequer de vida: fala de “existência”. É uma abordagem mais transcendental, mais filosófica, mais sofisticada. Tem o aporte do instrumental teórico de Husserl e da ontologia da finitude de Heidegger. Está, em suma, bem alimentado. Mas – e este é um ponto que pretendo desenvolver em outra ocasião – em alguns casos, o compromisso com a metodologia filosófica quase sempre encerra uma negligência para com a verdade da vida, e Sartre peca nesse sentido. Como muitos, mente para fazer filosofia. E sabe que mente. Ou talvez melhor: omite. Ignora propositalmente o “impulsivo” inconsciente freudiano – para Sartre, uma expressão privilegiada dos “determinismos escapistas”, da má-fé. Identifica consciência e liberdade. Mas precisa pressupor um âmbito originário do qual uma espontaneidade imprevisível produz o movimento da existência. Uma forma refinada de impulso irracional.

Schopenhauer, por sua vez, nos ensina que o impulso irracional nos aparece para a consciência na forma do desejo. E que o desejo surge, como uma moeda de duas faces, junto com a promessa de satisfação. E que esta é a ilusão máxima, ilusão das ilusões: não há, efetivamente, satisfação. Tão logo um desejo é satisfeito, desaparece e dá lugar à outro (ou à dez outros, como o pessimismo exagerado do autor prefere dizer). E essa foi, desde sempre, o grande truque da natureza sobre a razão: iludi-la com a promessa da satisfação, da felicidade. A única maneira de romper esse círculo vicioso é negando o desejo, tal como na via budista. Mas isso só com muita sorte: se a consciência e a razão são extensões da natureza – isso é, se nada escapa da natureza – a negação do desejo é desejo de negação e a via negativa não vence a natureza: já estava prevista por ela, é um de seus modos de realização. Mas, ao menos confere paz à consciência individualizada que tem a sorte de desfrutá-la.

Essa, contudo, não é a sorte mais comum. É a sorte de raros, de sábios e santos, de indivíduos iluminados. A maior parte dos seres humanos permanece na tarefa de perpetuação de uma vida que se quer porque se quer. Subjetividade e liberdade – dois temas que me são tão caros – são duas ilusões sem as quais a vida não seria possível. De fato, só há a Vontade, o impulso cego e irracional. Um impulso que justifica todas as ações, todos os empreendimentos, todas as expectativas, toda a riqueza da vida mental dos seres humanos. Um impulso, contudo, que é o final da cadeia remissiva de justificações na medida em que ele mesmo não se reporta à nada. Ele simplesmente é.

Olho pra imagem de Schopenhauer e tento compreender como esse espírito teve essa intuição tão genial quanto triste. Talvez a mais triste das filosofias. Uma filosofia que abandona a existência humana à contingência e ao absurdo. Se o existencialismo desola, por outro lado consola: é um convite humanista à criação do sentido. A filosofia de Schopenhauer, por outro lado, não nos deixa esquecer: a existência é vã e fútil, o sentido é uma ilusão necessária e esconde um impulso cego, irracional e completamente indiferente à nossa trágica solidão. E se com Sartre o desengano é a porta para a autenticidade, com Schopenhauer é apenas a descoberta das dores do mundo.

Arthur Schopenhauer (1788 - 1860).

Arthur Schopenhauer (1788 – 1860).

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
Esse post foi publicado em Despojos, Filosofança e marcado , , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para Sobre impulsos irracionais

  1. Olavo Augusto disse:

    Amigo, vi seu texto de 2007 sobre a má fé e agora este do Schop, interessante as mudanças de paradigmas… Deixo um frase de Aquino para te “consolar”: A vida extrapola o conceito.
    Consigo algum contato seu?

    • Victor da Filosofia disse:

      Meu interesse por Schopenhauer precedeu o interesse por Sartre, na verdade. Hoje, folgo por encontrar pontos em comum.

      Procure por “Victor da Filosofia” no facebook e certamente me encontrará.

      Abraço!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s