O oceano de Neil Gaiman no fim do caminho (ou: porque vou tentar terminar a leitura das Crônicas de Nárnia)

Quase quatro anos depois de ler Sandman, arrisquei a leitura de um romance de Neil Gaiman. Evidentemente, não foi decepcionante.

O Oceano no Fim do CaminhoO Oceano no Fim do Caminho foi lançado em junho deste ano. E, confesso: suas primeiras páginas me causaram uma má impressão. Por um momento, não pareceu nada empolgante perceber que o livro contaria as lembranças de um homem que, ao voltar ao local onde nasceu, se perderia em memórias. Talvez, sobretudo, não pareceu empolgante porque desde o momento em que o personagem principal (sem nome) mergulha em suas lembranças, a “voz” que narra a história assume uma psicologia infanto-juvenil, o que dá um tom quase estritamente infanto-juvenil à narrativa. Foi a mesma impressão que tive ao folhear o início das Crônicas de Nárnia, de C. S. Lewis. Contudo, o romance me pegou de tal forma que voltarei ao texto de Lewis assim que possível. Neil Gaiman me convenceu novamente.

Para quem não conhece, Neil Gaiman é uma galinha dos ovos de ouro da ficção fantástica contemporânea. Apadrinhado pelos grandes autores do gênero, nasceu consagrado por ser o autor do roteiro de Sandman e desde então, segundo consta, não decepcionou ainda. Contudo, antecipo: o romance, evidentemente, não é do mesmo tipo daqueles que atraem os leitores da grande literatura universal. Pelo contrário: é um romance com pretensões humildes que acaba excedendo as expectativas do leitor.

Exceto, talvez, aquele leitor que procure a grandiloquência de Sandman: este ficará decepcionado com a delicadeza da história e do drama do pequeno protagonista mnemônico que, ao voltar adulto ao cenário de sua infância, relembra episódios decisivos de sua vida, há muito esquecidos por ele próprio. Episódios tão decisivos quanto surreais, mas de uma delicada beleza. Evidentemente, Gaiman não abriu mão do seu bestiário sincrético de criaturas sobrenaturais – e talvez estejamos autorizados à ver no trio de mulheres da família Hempstock as três formas do sagrado feminino. Contudo, como em Sandman, a narrativa de Gaiman usa o cenário sobrenatural como pano de fundo para o drama do personagem principal. Gaiman se destaca da massa amorfa de autores do gênero de ficção fantástica porque não escreve apenas para leitores ávidos por fantasia, mas também para o leitor que se interessa pelo drama – “psicológico” – que é, talvez, o sentido da arte literária. Como ele próprio insinua através da voz do protagonista: uma boa história narra uma jornada através da qual uma pessoa muda, e a história desse homem que, à beira de um lago, relembra episódios centrais de sua infância, talvez não seja uma boa história. Mas se o mote de Sandman é que “às vezes você muda ou você morre”, o de O Oceano no Fim do Caminho seja o de que às vezes uma existência individual só se torna possível nas margens de um esquecimento.

Recomendado aos apreciadores de ficção fantástica.

PS: os quase quatro anos que se passaram desde minha leitura de Sandman passaram em um piscar de olhos.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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Uma resposta para O oceano de Neil Gaiman no fim do caminho (ou: porque vou tentar terminar a leitura das Crônicas de Nárnia)

  1. quemsera disse:

    Achei o livro por aqui. Hora dessas eu compro. Parece legal mesmo. Aliás, mesmo não sendo, deve ser.

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