Oswaldo

Oswaldo falava a verdade para fingir honestidade.

Oswaldo falava a verdade para fingir honestidade.

Há cerca de um ano descobri essa tirinha na página do Ryotiras do Facebook. Hoje, já falei tanto sobre ela que alguns amigos já citam o Oswaldo que, por assim dizer, se elevou à categoria de arquétipo. A genialidade do Ricardo Tokumoto (autor da tirinha) foi de captar que a atitude do Oswaldo é uma possibilidade não apenas genuína mas, na prática, é o modo de agir de muitas pessoas. Indo mais longe, arrisco dizer que todo mundo vive seus momentos de Oswaldo.

A tirinha vale por seu conteúdo proposicional, informacional. E este está contido em um pequeno período. “Oswaldo foi um grande mentiroso. Viveu a vida toda contando verdades só pra fingir ser uma pessoa honesta.” Oswaldo, assim, parece um sujeito vivendo em contradição. E talvez o seja. Eu mesmo confesso que há um ano tento encontrar a interpretação satisfatória do Oswaldo.

Penso que a interpretação mais adequada seja a de que Oswaldo seja simultaneamente um cético e um cínico. Cético no sentido da epistemologia filosófica: Oswaldo fala verdades, mas não acredita nelas. Cínico no sentido comum da palavra: Oswaldo mente, o que já está afirmado na primeira parte da tirinha. Mas como Oswaldo mente se fala verdades?

Mentir, segundo alguns filósofos, não consiste simplesmente em disseminar informações falsas. Ora, em alguma medida nós fazemos isso o tempo todo. É comum para nós ocidentais, que gostamos de pensar falando, disseminar uma pequena dose de informações falsas ou incompletas todos os dias. Isso, por si, não é mentir. Mentir é saber que se mente. É transmitir informações nas quais não se acredita como se fossem verdadeiras.

Se passo adiante informações nas quais pessoalmente não me comprometo mas que, por outro lado, publicamente afirmo serem verdadeiras, sou a um só tempo cínico e cético. Cínico porque minto e sei que minto, cético porque não creio naquilo que minto. Oswaldo, nesse sentido, é um verdadeiro arauto do ceticismo e do cinismo: passou a vida inteira falando verdades nas quais não acreditava, mentiroso para fingir honestidade.

Admito que em nenhum momento a tirinha afirma explicitamente que Oswaldo não acredita nas verdades que diz. Apenas afirma que ele disse verdades para fingir ser uma pessoa honesta. Contudo, me sinto “inclinado a” e “permitido para” deduzir o ceticismo de Oswaldo: por que ele seria mentiroso se acreditasse nas verdades que diz para fingir honestidade? Talvez seja possível essa interpretação de Oswaldo como alguém que, por exemplo, finge ser honesto mesmo acreditando nas verdades que diz. A imagem de Oswaldo que se deduz dessa interpretação é outra: não a de um cético que é cínico por conveniência, mas apenas a de um individuo um tanto carente de atenção. Embora não sejam mutuamente excludentes, esse segundo aspecto não me interessa tanto.

Talvez Oswaldo possa ser o símbolo do cético que, vivendo entre não-céticos, se obriga a ser cínico por conveniência. Esse é o drama do arquétipo que Oswaldo representa para mim. É nessa medida que insisto: Oswaldo representa um pouco o drama cotidiano de todo mundo que, em algum contexto, se vê inclinado a dizer “verdades” nas quais não acredita. Evidentemente, se ele fez isso a vida inteira, Oswaldo representa a “tragédia” que pode constituir uma vida inteira baseada em tal atitude.

PS: antecipo que admito que a substituição da palavra “mentiroso” pela palavra “fingido” na primeira parte da tirinha resolveria qualquer problema. Mas, essa solução empobrecedora também não me interessa.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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2 respostas para Oswaldo

  1. felixpinheiro disse:

    Legal notar também que a própria imagem que retrata o Oswaldo possui elementos que caracterizam essa divisão entre o que ele é e o que ele aparenta ser. Note as cores ao redor dele, formando dois indivíduos que no fundo são um só.

  2. Juliana disse:

    Adorei a tirinha, mas minha interpretação é completamente diferente. O que eu vejo nela é a contradição entre uma suposta essência mentirosa de Oswaldo e o seu comportamento real. Uma essência que eu questiono. Acho que moralidade, honestidade e muitas outras coisas não são essenciais, são comportamentos, escolhas. Deduzimos a essência pelo comportamento e logo explicamos o comportamento pela essência. É uma tautologia.

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