Excertos do subsolo – Com a palavra, a moça que fuma

Uma vida inteira baseada no princípio de não fazer esforços não pode ser condenada por alguém que não vê a vida como um dom. Por que não ir simplesmente deixando as coisas acontecerem ao acaso, na medida em que nosso próprio nascimento foi uma delas? Não quero entrar em questões como “será que seríamos nós mesmos se nossos pais não tivessem ao menos uma cópula bem sucedida?”. O mistério não é esse. O mistério é a sua consciência singular, que só existe junto desse corpo, nascido em tal e tal data, em tal e tal lugar, de tal mãe e tal pai. O mistério, eu insisto, é a consciência. E o “tique-taque” que nunca cessa. É quando percebemos esse contador marcando a espiral das horas na linha dos dias que percebemos que temos de fazer alguma coisa de nossas próprias vidas.

Eu não vou contar a minha história. Às vezes acho que quem conta sempre a mesma história de si mesmo está mentalmente – ou emocionalmente, não sei – estacionado naquela fase da infância em queNine D'Urso 1 pedimos para que repitam o conto da noite passada. Eu posso falar algumas coisas a respeito de mim mesma. Posso falar, por exemplo, que tenho a impressão de que não sou a filha que você gostaria de ter. Fui o que qualquer pai e mãe chamam de ‘adolescente problema’. Uma jovem desleixada, que começou a andar muito cedo com más companhias. Como resultado, muito cedo comecei a fumar, beber e, evidentemente, muito cedo iniciei minha vida sexual. O que não prejudicou em nada a minha vida, afinal, é o que todas as garotas da minha idade fizeram naqueles dias. Pelo menos aquelas que sabem se virar na vida, que não viraram esposas profissionais (que ficam lindas quando grávidas, é verdade, mas que podem ser as amigas mais aborrecidas que você pode ter). Mesmo assim, somos todas uma geração de desobedientes e insatisfeitas que fizeram as coisas que os pais proibiram. E nós os entendemos: seus valores consideram errado aquilo que consideram errado e pronto, em uma arbitrariedade tão irritante quanto amorosa e, hoje em dia, engraçada.

Contudo, insisto que sou diferente. Nem melhor, nem pior. Apenas diferente. Diferente mesmo das minhas amigas. E a minha diferença é essa “preguiça”. Uma ampla e poderosa preguiça.

Entenda, não tenho preguiça de sair com amigos. Não tenho preguiça de trabalhar. Não tenho preguiça de estudar. É uma preguiça diferente, distante, confusa. Insisto: é uma preguiça especial. Eu não saberia definir preguiça “de quê” é essa minha preguiça, mas penso que uma boa definição aproximada seja “preguiça de sonhar”. Preguiça de fazer uma coisa muito comum e normal entre os seres humanos, que é “planejar”. Sinto-me uma verdadeira alienígena quando alguma pessoa cheia de vida conta, euforicamente, seus novos planos e projetos. É como se eu não tivesse o órgão responsável por esse tipo de experiência, mas em seu lugar tivesse um terceiro-olho que enxerga tudo em tons de cinza. Ou, talvez melhor, um terceiro ouvido que escuta a fala dos sonhadores como se eu estivesse situada há quilômetros de distância, só que no tempo. Pois ao mesmo tempo em que assisto alguém sentindo “expectativa”, sinto imediatamente algo que deve ser o contrário de expectativa. Mas, sou legal o suficiente para sorrir e deixar a pessoa viver o momento.

Acho que fiquei um pouco assim depois do meu primeiro namoro. Foi um namoro bonitinho, que só terminou porque meu ex-namorado era uma fonte inesgotável de vida e energia. No espaço de dois anos (uma eternidade para quem está no relacionamento, um piscar de olhos para quem já o deixou para trás) ele fez planos para dez profissões diferentes. Planos concretos: queria ser médico e trabalhar na África, depois queria ser militar e ir para o Haiti. Cogitou fazer faculdade de história, depois flertou com a Cruz Vermelha. Tenho pena ao imaginá-lo como secretário de um escritório de contabilidade, que é o que tem feito. Deve sonhar acordado com cada avião que vê pela janela. Acho que vou explodir o apartamento dele, como em “Fight Club”, só pra ver o que acontece. Acho que ele ficaria feliz, compraria uma moto e depois de viajar pela América Latina, lideraria uma segunda revolução em alguma ilha. Morreria sorrindo de um jeito que eu nunca aprendi, e haveria camisetas com o rosto dele pra vender.

Pra ser honesta, eu tenho uma teoria: não foi ele que me deixou preguiçosa, e eu sinto que não foi. Eu já era assim antes. E acho que herdei isso do meu pai. Ou talvez fantasie, já que só o conheci quando eu mesma tinha 11 anos. Como vivia só com minha mãe, que é totalmente desequilibrada, acho que fantasiei demais ao conhecê-lo só porque ele era normal. Sou daquelas que tem complexo de Electra mal resolvido: só um homem como meu pai seria uma boa companhia – mas, adivinhem? Eu tenho preguiça até de procurar. Mas só um homem com essa mesma preguiça seria suportável. Mas esse homem deve estar por aí, esperando por mim, da mesma forma que eu o espero. E se existem reencarnações e encontrar a alma gêmea é parte da nossa missão, nós somos os sabotadores do sistema: somos linhas paralelas feitas de pura preguiça, e só nos encontraríamos no infinito.

Não conheço a história do meu pai, mas como não gosto de histórias, vou falar de algumas características dele. Mais precisamente da preguiça e de como eu acho que foi por preguiça que ele se casou com aquela mulher apenas linda que é sua mulher, e não com minha mãe que é mais linda, mas louca. Penso que a preguiça explica tudo porque meu pai viveu uma vida religiosa durante três anos. E uma das suas provações foi minha mãe. Ao perceber que a vida religiosa o obrigava a aconselhar e acompanhar as pobres almas atormentadas como a minha mãe – que fazem da vida seu próprio purgatório – meu pai deve ter sentido todo o cansaço do mundo pesando sobre seus ombros. Como um prêmio em um jogo de cabo de guerra, minha mãe fez mais força e o tirou da vida religiosa, com o infalível truque do bebê. E ele só não permaneceu conosco por mais tempo porque o instinto de sobrevivência falou mais alto e o afastou de uma inexorável falência mental. É a impressão que tenho cada vez que o visito: a brancura dos sofás, dos lençóis e das maçãs do rosto de sua esposa (que me trata muito bem e até hoje sempre me espera com alguma guloseima) são símbolos da preguiçosa paz que ele escolheu para poder viver os batimentos cardíacos que, ele tem certeza, Deus programou em seu coração.

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Vou confessar uma pequena mentira: não seria tão indiferente se aparecesse alguém como eu. No Nine D'Urso 2fundo, é a única coisa que todo mundo quer, não é? Algumas semanas atrás, por exemplo, eu senti algo diferente. É uma sensação rara, mas que cria uma pequena descontinuidade, uma pequena onda no eletrocardiograma das minhas emoções, sempre tão regular e quase sem picos. Foi quando sentei no café, para fazer um lanche antes de uma aula. Pedi um café, acendi um cigarro e abri “Orlando”, da Virginia Woolf. Estou gostando do livro. Acho que ela é uma das poucas cabeças que perceberam que há um nível da vida que não sofreria mudanças significativas se eu, por exemplo, um dia acordasse e meu corpo tivesse se transformado no corpo de um homem.

(Sou obrigada a dizer, contudo, que há um nível em que faz toda diferença se você é mulher ou homem e machismo é uma coisa que me tira do sério. Já quebrei o braço de um colega abusado nos tempos de colégio e já defendi uma amiga submissa em uma festa. Nesta ocasião, também tomei um tapa do valentão. Denunciei, fui indenizada e perdi a amizade da amiga submissa – que, temo, continua sofrendo as mesmas humilhações)

Bem, eu lia Virginia Woolf quando ouvi uma voz estranha dizendo que sabia que só podia ser Virginia Woolf. Confesso que quando o vi, não o achei bonito. Também o achei um tanto quanto machista pelas coisas que disse sobre mulheres e Virginia Woolf. Até supôs que eu o conhecesse, mas não conhecia. Finalmente, devo dizer que o achei um tanto quanto “mascarado”, como se fingisse honestidade. Ele achou que eu não perceberia, mas é uma coisa muito comum em homens, sobretudo os jovens. Estão tão acostumados a serem vistos como cafajestes que quando fingem honestidade, ficam caricatos. Não me importei com isso, mas confesso que fiquei encantada em perceber, em quase tudo o que disse e fez, o desejo de me agradar acompanhado da delicadeza de não ser meloso ou bajulador. Evidentemente, ele queria sexo. Percebi. Mas eu também queria. E o levei para minha casa. Aproveitei quando ele foi ao banheiro e joguei um pouco de perfume no ar, porque meu quarto cheirava a cigarro. E tive uma noite divertida e – por que não? – bonita.

Estou confessando uma mentira, lembram? Estou confessando que não seria tão indiferente se alguém aparecesse. Mas eu demorei a perceber essa mentira. Eu mesma só percebi que queria que ele reaparecesse quando, naquela sexta-feira, me dei conta de que estava voltando àquele café todos os dias, por uma semana inteira, com o desejo de rever aquele rapaz. E não adianta: quando percebo essas coisas, deixo de fazê-las. Até mesmo já o vi com outras garotas por aí. Pelo jeito que ele me olha e pelo modo que me cumprimenta, ele lembra. E, do jeito dele, eu acho que ele desejaria me ver novamente.

Aquela semana, no café, percebi que eu estava parecendo uma criança que quer ouvir todas as noites a mesma história. Mesmo que eu quisesse voltar àquele café já não conseguiria. Fora que, claro, se eu não fizer força, a preguiça me domina. Mudar é difícil. Mas eu nem quero, de qualquer forma. A cada cigarro eu dou testemunho da preguiça de sonhar. Cada cigarro é um incenso para o acaso que me trouxe para o mundo e que me fez ser alguém a quem agrada que tudo seja assim.

Nine D'Urso 3

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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8 respostas para Excertos do subsolo – Com a palavra, a moça que fuma

  1. quemsera disse:

    Muito bom. Não espere mais três anos pra escrever sobre isso.

  2. Realmente, não espere nem 3 semanas. Ri muito – maravilha de boniteza, Vítor!

  3. Adriéli disse:

    Muito bom, adorei.

  4. marielmeira disse:

    vc é uma pessoa interessante.
    não somos parecidos, mas a preguiça é parecida.

    o que me intriga agora é perceber só no final do texto que vc é na verdade um homem escrevendo. :)
    talvez eu não tenha entendido nada do que vc disse, hahaha.
    e tudo porque estava procurando algo mais sobre a palavra LITOST.

  5. Guilherme disse:

    sobre sua descrição, não tem como você ser um “sargitariano” e ao mesmo tempo um mestre em filosofia. Um mestre em filosofia jamais acreditaria nesse tipo de merda.

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