Excertos do subsolo – Pessoas e nuvens

A moça que fuma não é morena, nem loura.

Mencionei, há cerca de três anos, que ela tinha os cabelos pretos. Podiam estar tingidos dessa cor, não sei. Só é mister que fume: como dizia um poeta, o fumo esconde suspiros e se deve desconfiar daqueles que não o fazem, pois talvez não tenham “vida interior”. É possível. Um outro – prosador e pensador, não poeta – já me sugeriu que o bom personagem é uma variável livre, um arquétipo, que não saberemos se é negro ou branco a menos que isso seja essencial para a história.

Elizabeth+Fraser+EA moça que fuma (que é, portanto, apenas uma moça que suspira) me apresentou uma entrevista de uma cantora. Essa cantora passou muitos e significativos anos de sua vida envolvida em um projeto musical onde conviveu com o homem que amava. Hoje, já transformada em uma senhora, essa cantora treme ao dar entrevistas. Suas mãos tremem e em uma atitude parecida com a de pânico, foge do assunto, foge do passado. Não quer lembrar daquele tempo que deveria ter sido o dos melhores anos de sua vida. Infelizmente, contudo, não há o que se perguntar à ela além disso: sua vida pública está circunscrita ao tempo em que permaneceu nesse projeto musical, que foram cerca de 15 anos. Antes disso, ela não fazia nada que interessasse aos jornalistas. Depois disso e desde então, ela vive com os lucros dos tempos de fama e em completa reclusão, completamente devastada. Esse fracasso amoroso lhe custou a capacidade de se defender das inevitáveis dores do convívio humano. Ela precisa de cuidados, de distância e de isolamento para que possa, na mais triste das vidas, esperar o tempo lhe cobrar todos os dias à ela destinados.

Falar dessa senhora que treme (e que já foi uma moça que cantava) não exigiu que eu dissesse seu nome, em que ano ou país nasceu, se suas músicas eram felizes ou tristes, se cantava ao som de guitarras ou piano. Essa senhora que treme é o que restou de uma moça que cantava – e que certamente suspirava. Não sabemos seu nome, mas certamente compreendemos o que ela sente.

Algo assim acontece nos romances contemporâneos. A composição dos personagens, depois de muito tempo, aprendeu a mostrar que as pessoas são muito mais plásticas e maleáveis do que, durante milênios, supuseram os metafísicos e teólogos. Aliás, o problema está no outro extremo: pessoas são entidades tão plásticas e maleáveis que o verdadeiro desafio é encontrar uma “constante” na natureza humana. Se já parece pouco provável que seja possível fazê-lo ao nível da espécie, o intento se torna nitidamente impossível no nível do indivíduo.

A moça que cantava se tornou uma senhora que treme. E que treme cada vez que é identificada com a moça que cantava. Ela já não vive mais aquela vida, não a quer e gostaria de esquecê-la definitivamente caso esquecer fosse simples como desejar esquecer. E assim é a vida: médicos bem sucedidos se tornam lavadores de janelas para, depois, se mudarem para o interior e viver no campo sem se ressentir com o passado. E a vida flui como uma nuvem que não sustenta a própria forma por um instante sequer, como a fumaça do cigarro da minha amiga que suspira e que, hoje, por exemplo, está loura em meus pensamentos. Alguns indivíduos sofrem com o fato de que o Tempo devora seus filhos, e o desejo de permanecer a mesma pessoa é a forma mais conhecida – e notoriamente mais infeliz – de tentar enfrentar o tempo. Mesmo alguém que traísse todos os vínculos com o desejo de permanecer fiel a si não encontraria, depois de alguns anos, senão uma paisagem deserta como cenário da própria vida.

Outra alternativa de combate ao tempo é se associar à outros que odeiam o esquecimento para o qual vão os dejetos do tempo. Grupos, associações, fraternidades, camarilhas, um simples círculo de amigos já é uma tentativa de vencer o tempo. Celebra-se o que há em comum entre os indivíduos, se trabalha na composição de narrativas e de suas variações e assim nascem as identidades que, individuais ou coletivas, funcionam como santuários. Santuários cuja substancialidade, uma vez exposta ao poder do tempo, é a mesma que a de uma nuvem. Entre esses santuários, o nosso preferido é o amor.

Mas não vou falar de amor. Vou falar de fracasso. Um fracasso essencial que, quando assumido, liberta. O fracasso que minha amiga que fuma – ou que, ao menos, suspira – aprendeu a assumir. Ao acender um cigarro ou ao contar uma história, ela dá testemunho de ter assumido esse fracasso. Mas que fracasso é esse? Ora, é o fracasso da identidade. O fracasso ao qual estão destinados todos os nossos santuários se, ao construí-los, cairmos na tentação de supor que são ilhas ou trincheiras que nos manteriam à salvo do poder do tempo e do esquecimento. Mas essa é uma razão muito forte e quem se comove com ela é apanhado em armadilhas como aquelas que apanham os que vivem no culto do passado, seja pela via da melancolia, seja pela via do ressentimento. Há uma razão menor – mas mais concreta – para desconfiarmos dos nossos santuários, sejam os pessoais ou os coletivos. E é uma razão muito simples: dependemos uns dos outros para a constante manutenção dos santuários. E é assim porque é sempre também para os outros que os sustentamos.

Minha amiga que fuma e suspira sabe disso, embora talvez não saiba que sabe. Isso explica seu amor especial pelos animais: eles estão fora desse jogo. Estar com eles – e, eventualmente, viver para eles – é uma forma de escapar à esse trabalho de Sísifo de zelador de santuários. Primeiro, porque quem ama os animais reconhece, em alguma medida, que só é preciso cuidá-los de nós, seus irmãos que fumam, suspiram e tremem: se fossem abandonados à própria sorte com o planeta inteiro para si, passariam outros milhões de anos em um idílio que não compreendemos nem queremos. Mas também porque isso resolve o problema do fracasso: diferentemente de zelar por nossos santuários, cuidar dos nossos irmãos menores não é uma tarefa necessária. Deveríamos, talvez, cuidar de nós mesmos. Mas essa é uma motivação rara entre os que suspiram e fumam porque reconheceram algumas leis básicas dos santuários de nuvem.

Em segredo, minha amiga que fuma confessou que embora já não consiga viver e cuidar de um amor que seja como um santuário, gostaria de ter companhia. É um desejo modesto e talvez seja mesmo triste, mas ela se explica dizendo que devemos saber quem somos em cada época. Houve a época dos santuários na vida dos povos e essa história se repete em cada indivíduo. Alguns simplesmente não conseguem sair desse estágio; é possível viver a vida inteira assim. Mas conhecer essa moça faz com que eu, eventualmente, me pergunte se é possível voltar a acreditar que ao menos alguma nuvem – ao menos as nossas – não se dissolverão ao vento. Ela esquece os cigarros no café ao sair apressada, e eu acendo um. Só pelo prazer de assistir a fumaça formar, por alguns instantes, formas tão lindas que, se pudéssemos, as tornaríamos eternas.

Para Elizabeth Fraser.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
Esse post foi publicado em Despojos, Espiando Pelo Buraco da Fechadura, Fábulas Para Entristecer, Filosofança, Por um mundo Punk-Gótico. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para Excertos do subsolo – Pessoas e nuvens

  1. Lucy disse:

    Oi professor Vitor! Faz um tempinho já que vi você comentando uma coisa sobre poligamia. É um tema que me interessa bastante mas nunca vi nenhum filósofo falando sobre isso. Você poderia escrever um post sobre esse assunto, mas não apenas sobre a opnião de filósofos, mas também sobre sua própria opinão! O que o senhor acha? Uma colega minha achou que seria bem legal também. Desculpa por não me identificar, mas o senhor sabe como é ser aluno, ficamos tímidos (risos )

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