Excertos do Subsolo – Monadologia

Eu estou preso em meu próprio mundo. Ele poderia ser um mundo perfeito e bastaria que eu quisesse para que ele fosse perfeito. Mas ele não é, e eu não sei porque eu não quero que seja: bastaria que eu quisesse saber, e saberia. Mas se eu não sei, é porque não quero saber. E sei que se você encontrar essa carta, vai aprender tudo o que eu sei e só poderá me ajudar se quiser dar o passo definitivo que eu não quero, não sei porque não quero e não sei sequer porque não quero saber. Estou preso num loop que arrisco chamar de amor esse, de amor por existir. Temo que no momento em que eu queira descobrir, eu descobrirei. E desaparecerei.

Isso tudo começou quando eu percebi uma regularidade entre meus desejos e as coisas que aconteciam ao meu redor. Quero dizer, não bastava desejar para que acontecesse. Se eu estivesse com sede, cansado ou com sono, não bastava “desejar” para que essas condições fossem sanadas, como se houvesse um gênio da lâmpada invisível ao meu lado. Mas as coisas das quais eu precisava simplesmente “apareciam” ao meu alcance, sem que às vezes eu soubesse como elas tinham ido parar lá. E eu demorei a acreditar, mas acontecia. Eu encontrava meus cadernos perdidos, minhas revistas velhas, um maço de cigarros. Percebi o absurdo da situação quando comecei a querer encontrar objetos impossíveis: desejei encontrar entre minhas coisas as roupas íntimas de uma pessoa com quem, digamos, nunca tive intimidades. E aconteceu. Tenho certeza que aconteceu porque consegui criar uma situação onde a pessoa confessou o desaparecimento do item. Naquele momento eu percebi que a vida que eu conhecia estava lentamente desaparecendo.

Primeiro, preciso me explicar acerca de um detalhe sobre como funciona essa coisa do desejo. Porque eu mesmo descobri por acaso, sem procurar. Descobri, como disse, percebendo uma regularidade. Uma regularidade muito simples: tudo o que eu “projetava” se realizava. Repito: não se trata de desejo como é o desejo por uma coisa específica – um copo de água, o corpo de uma pessoa, etc. Trata-se de algo muito mais sutil e distante: a visualização do futuro. O futuro visualizado é precisamente aquele para o qual estamos nos encaminhando. Como em geral sempre imaginamos intervalos de tempo muito grandes entre nosso presente e nossas realizações, não apenas não percebemos que produzimos o presente lá atrás como não notamos que estamos desenhando o futuro mentalmente agora. É por isso que a maioria de nós simplesmente não nota essa “lei” e acaba fazendo uma bagunça na tela onde, querendo ou não, desenhamos o futuro. E essa “lei” opera o tempo todo, e eu já não sei se ela é uma lei da realidade, uma lei minha ou mesmo o que sou eu. Mas, vamos por partes.

Com o tempo, os objetos foram ficando mais sofisticados. Eu era capaz de, pela força da minha vontade, fazer “surgirem” objetos mais complexos. Desde máquinas simples – uma tesoura, por exemplo – até objetos eletrônicos. Percebi, contudo, que quanto menos eu entendia dos objetos que criava, pior eles funcionavam. Nessa altura eu já admitia que todos os objetos que me cercavam eram feitos da mesma “matéria” que aqueles que eu criava, e me via obrigado a postular explicações parciais de como os responsáveis por sua fabricação ou manufatura tinham de estar razoavelmente informados acerca das etapas do processo de produção desses objetos. Da minha parte, eu conseguia produzir livros sem dificuldade. Romances com histórias inéditas, cujas páginas já apareciam escritas quando eu os criava, mas cujas histórias se revelavam – e, na minha opinião, passavam a existir – na medida em que eu os lia. “Criei” dessa forma alguns contos e dois romances com mais de mil páginas, da estatura de romances de um Tolkien. Eu não sabia, contudo, de onde vinham aquelas histórias. Afinal, eu criava os livros e desejava ser surpreendido por suas páginas. Alguma história deveria “se produzir” e eu não queria que fossem histórias que eu reconhecesse como criadas por minha imaginação consciente. Tive então de aceitar a existência de um inconsciente. Confesso que eu teria me perdido em investigações e especulações neste ponto da minha vida, se não tivesse conhecido Sabrina.

Wynona RiderSabrina era uma artista mas, como eu, trabalhava em um escritório de uma editora. Eu havia cursado faculdade de letras e trabalhava como revisor. Sabrina escrevia, cantava, dançava, tocava instrumentos, encenava e fazia tudo o que fosse necessário para cultivar uma ilha de fantasia que a mantivesse à salvo da feiura do mundo. Sua competência intelectual, contudo, lhe permitia excessos: era a única secretária à quem era permitido certos excessos, como usar roupas extravagantes e cabelos soltos no trabalho. O dono da editora era um desses homens que havia acumulado uma respeitável barriga de prosperidade graças ao sucesso de seus negócios. Como era mais um artista frustrado, simpatizou com ela. Diferentemente do que aconteceu com o resto do pessoal do escritório: um bando de metidos à besta que se vestiam todos segundo um enfadonho estilo rock inglês e não gostavam de Sabrina.

Eu, pessoalmente, me apaixonei por Sabrina. Ela surgia no exato momento em que eu precisava de emoção na minha vida: embora o que eu estivesse descobrindo pudesse ser comparável à um “superpoder”, eu não sabia o que queria ou deveria querer da vida. Assim, Sabrina surgia se destacando de um cotidiano insosso e indiferenciado. Nos tornamos inseparáveis em poucas semanas e fomos almas platônicas siamesas por dois meses. Fomos à shows, peças, uma vernissage e um luau. Redescobrimos todas as lojas de discos e livros usados e a vida parecia um sonho quando eu podia usar meus “poderes” para fazê-la encontrar os livros e discos que procurava. Achei que ela fosse perceber que havia alguma coisa errada quando estranhou o vinil do The Dark Side of The Moon que “criei” para ela. Como nunca fui fã do Pink Floyd, creio que acabei “criando” um objeto mal feito. Ela disse que achava que era uma edição rara, feita de “versões”, e que mostraria à um amigo que era fã de Pink Floyd. Para evitar problemas, “descriei” o disco e ela nunca descobriu onde o “esqueceu”.

Nessa época, percebi que eu desejava – ou seja, visualizava – a vida desejando a permanência de sua imprevisibilidade. Afinal, Sabrina se demitiu. Cobrei satisfações do dono da editora, e ele explicou que simplesmente não sabia porque ela havia se demitido. E parecia honesto. Tentei descobrir se alguém havia armado alguma cilada para ela. Nada. Pensei em me demitir e “criar” dinheiro para sobreviver enquanto procurava por ela. Mas estava ofendido pelo fato de que ela havia partido sem dar explicações – sobretudo e justamente para mim, seu melhor amigo! Depois de considerar as possibilidades, percebi que poderia tentar fazer algo que até então não tinha me ocorrido: usar meus “poderes” com seres humanos.

(Esse parece um passo ilógico nessa experiência: porque eu simplesmente não “criava” dinheiro? Por que não projetava que ele apareceria em grandes quantidades na conta ou na carteira? Eu não saberia explicar. Talvez por uma questão de temperamento. No fundo, acho que só descobri esse atalho mágico pelo simples fato de nunca ter possuído o atalho real, que é o próprio dinheiro. Se eu tivesse nascido rico, provavelmente resolveria o intervalo entre um projeto e sua realização de forma muito mais breve e não teria sequer a ocasião de perceber nada.)

Como eu já disse, não se tratava de desejar, mas de “projetar”. Claro que imediatamente quis que ela batesse na porta do meu apartamento e me desse as explicações. Evidentemente, não aconteceu. Estava irritado e emocionalmente comprometido demais com Sabrina para conseguir fazê-la “aparecer”. Naqueles dias eu ainda tinha medo e pensava que uma Sabrina que “aparecesse” seria “falsa” e que eu queria e precisava da “verdadeira Sabrina”. Então, tive um insight apropriado para aquele momento: devia projetar encontrá-la ao acaso. Ou seja: acreditar que era perfeitamente possível. Esquecer a ideia de que ela não queria me ver, me convencer de que ela saiu da editora por razões que eu entenderia e que, portanto, não havia partido para longe demais. Precisava acreditar que a encontraria na rua, que tomaríamos um café e que a partir de então poderíamos voltar à boa amizade de outrora.

Foi o que eu projetei, portanto, foi o que aconteceu. Com toda a imprevisibilidade e surpresa que eu apreciava. Um dia qualquer, esperando o semáforo abrir para atravessar uma rua. Um “oi” singelo e alegre. E lá estava ela, linda, com seu estilo extravagante e seus cabelos soltos. Sorrindo, como se nada tivesse acontecido. Evidentemente, tomamos café e perguntei para ela as razões de sua demissão. Ela disse que precisava de emoção. E eu lembrei que ela surgia no exato momento em que eu precisava de emoção na minha vida. Pedi licença e fui até o banheiro lavar o rosto. Eu finalmente entendia o que estava acontecendo.

Evidentemente, Sabrina não era apenas uma “projeção” minha. Era uma pessoa real, com suas características, sua personalidade, sua vida. Sua presença e seu surgimento, sim, eram resultado da minha projeção. Ela surgiu e ela se foi em função do meu desejo de imprevisibilidade. Eu havia feito ela surgir e havia feito ela partir, porque foi o que eu quis. E meu desejo ressoava segundo uma “harmonia pré-estabelecida” com os desejos dela. Era, afinal, o melhor dos mundos possíveis mas nenhum mundo parecia menos real do que esse. Decidi fazer um teste e diante do enorme espelho do banheiro, tentei aquietar ao máximo minhas emoções para poder projetar algo específico e preciso: fazer sexo com ela. Se meu desejo – limpo das emoções e devidamente visualizado – estivesse em harmonia com as possibilidades dela, estaríamos em minha casa ainda naquele dia, nus, sobre a minha cama.

Desde aquele momento, a vida simplesmente começou a passar vertiginosamente rápido. Não apenas dormi com ela como também com muitas outras mulheres. Quando aprendi a diminuir o intervalo entre o projeto e a realização através da simples visualização – quando aprendi a me reprogramar e ver a vida diferentemente em qualquer momento – iniciei um processo cujas consequências eu mesmo não previa. Foi como ter apagado os contornos do mundo. Sabrina desapareceu num oceano difuso de lembranças, como muitas outras mulheres. A facilidade das realizações emparelhou todas as experiências me empurrando para um quietismo que eu mesmo não apreciava. Descobri – embora não venha ao caso como isso pode ser feito – que é possível até mesmo reescrever o próprio passado. Fui capaz de reviver e corrigir, dentro dos limites da “harmonia pré-estabelecia”, uma série de experiências significativas da minha própria vida, com todos os paradoxos que eu imaginava que são próprios das “viagens no tempo”. Nessa nova linha re-escrita, Sabrina reapareceu (como reapareceria em qualquer outro mundo possível). Mas seu lindo rosto e seu lindo corpo – conquistados mediante “truques” – agora eram mais símbolos do que qualquer outra coisa. Símbolos do meu persistente desejo por imprevisibilidade e surpresa. Neste novo mundo reescrito, Sabrina é uma boa amiga, um alter-ego que sabe o que fiz com meu mundo e minha vida, e que me ajuda – porque eu assim desejei – a entender a mim mesmo.

Depois de todo esse tempo, que já não se deixa mensurar, percebi que os objetos já não eram necessários. Eu era um pequeno universo e tudo acontecia dentro desse pequeno universo. As coisas e pessoas perderam gradativamente seu valor e eu entendi que eles eram apenas ocasiões para meu aprendizado intelectual e emocional. A vida na qual eu descobri esse truque ficou distante, em um universo de mundos possíveis. Eu já não vivia, e não conseguia diferenciar a vida de um sonho estranho. As pessoas que me cercavam se assemelhavam a simulacros delas próprias e eu as via como unidades virtuais, guiadas por um problema logarítmico que se expressava emocional e intelectualmente. O quanto eles percebiam isso determinava o quanto esse processo demoraria. Todos eram tão reais quanto todas as suas outras versões possíveis.

Se eu estou aqui, no limite dessa encosta, ao lado de Sabrina e escrevendo essa carta, isso apenas significa que eu ainda não desejei saber. Ainda não visualizei no horizonte um encontro casual com a solução desse mistério. Na verdade, acho que essa solução já está por aí, caminhando entre as pessoas, esperando que eu ou qualquer outro deseje encontrá-la. Mas deseje nesse sentido forte, projetando ser possível e orientando toda sua vida para isso. E cada dia novo que nasce e eu escolho viver é um dia de recusa. Recusa da solução, recusa da resposta. Cada dia que eu escolho afagar os cabelos de Sabrina e permanecer aqui é um dia de recusa do infinito. Essa recusa talvez seja o nosso maior mistério, o nosso maior segredo.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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2 respostas para Excertos do Subsolo – Monadologia

  1. Carla disse:

    E o que vale mais a pena, os prazeres mundanos ou a Imortalidade? Enquanto não optamos, vamos nos embriagando, embriagando-nos com nossos “cabelos de Sabina”! Fez-me muito gosto ler seu texto, acredito que pensamos de forma similar. Abraço.

  2. Carla disse:

    Ah, leia-se “Sabrina”. Foi a força do hábito.

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