Excertos do subsolo – Por mim, por você, pelo absurdo

Olhando para trás, vejo uma menina bobinha. Acho que a expressão define bem o que fui durante os meus primeiros quinze, talvez vinte anos de vida. Algumas pessoas se tornam bobas como eu fui porque têm infâncias fáceis demais. Meu caso não foi exatamente esse, mas foi parecido: não ouvi “nãos” o suficiente, e cresci querendo tudo para ontem. Hoje, sei que todos aqueles “sim” eram atos de amor. Atos cegos de amor desorientado de um pai e uma mãe que deixaram a filha descobrir o mundo pelo tato e de um modo um tanto precoce. Com um misto de sorte e mérito, cresci em segurança. Quem pagou pelas ausências da infância foram aqueles que se tornaram vítimas da minha carência juvenil: meus primeiros namorados.

O plural se faz relativamente necessário porque tão rapidamente quanto um se cansava de mim eu arrumava outro. Christina RicciTambém pudera: por anos, eu fui aquele tipo de pessoa que não admitia a menor distância, que não dava espaço, que achava que o amor era estar o tempo inteiro junto – ou, ao menos, querer estar o tempo inteiro junto. Trágico ou cômico, eu não percebia que eu mesma não amava tanto quanto queria ser amada. Eu não me amava, e precisava do amor de outrem para me sentir gente. Hoje, quando vejo alguém preso nessa armadilha de auto-depreciação, cono minha experiência pessoal na expectativa de ajudar. Embora eu não entenda como fui capaz de ser assim, ainda consigo lembrar que a sensação não é agradável. A parte mais triste da minha vida, nessa época, era perceber – e querer não perceber – cada vez mais que eu não amava ninguém, nem a mim, e que tudo não passava de desespero e medo da solidão, da falta total de algum amor na vida.

A história poderia terminar por aí, se eu não tivesse mudado. E eu mudei quando apareceu Davi. Aprendi a gostar de mim quando comecei a gostar dele, e por uma razão lógica: ele era minha alma gêmea. Assim como eu, ele era uma pessoa perdida em mundos de fantasia. Ele era um artista e, embora eu sempre tivesse um queda pelas artes, ele me ensinou como gostar de arte. Graças à ele tenho até hoje a arte na minha vida e, embora não possa afirmar que é meu sustento, é minha vocação. Davi apareceu e foi então a imagem da qual eu sempre precisei para me fazer uma pessoa, o espelho claro e límpido no qual eu pude enfim ver uma imagem da qual gostei e que aceitei assumir. Nos olhos e nos braços dele, eu me amava e aprendia a amar e existir.

Foram tempos inesquecíveis. Era a primeira vez que eu experimentava a sensação de gostar alguém em função do que a pessoa era, e não em função da minha própria carência. Davi era extrovertido e me fazia homenagens escandalosas, em público. Uma vez, em um quiosque, caiu de uma cadeira e se machucou todo. Davi era sensível e sabia o que eu estava pensando sem que eu precisasse dizer. Davi era inteligente mas também era humilde, e eu o amava duas vezes mais quando o via pedir ajuda e proteção às “forças superiores” antes de ter de fazer algo difícil. E ele sempre me incluía em suas orações e bons pensamentos, tendo sido quem me ensinou a falar com Deus, do meu jeito. Ele me fez ser a pessoa que eu sou e de uma maneira tão incontornável que a pessoa que eu fui simplesmente escorregou para a memória, como se fosse uma personagem estranha e irreconhecível. Não é exagero dizer que houve uma Sabrina “antes de Davi” e uma outra Sabrina, uma Sabrina II “depois de Davi”.

Pena que o amor acabou.

Não me entendam errado: eu ainda daria um rim, um pulmão, um olho por ele! Nossa ligação, como eu disse, é de um tipo que não vai mais se desfazer. Afinal, foi através dele que eu aprendi o amor e descobri o que eu amava na vida. Mas, em algum momento, depois de alguns anos, nós percebemos que não tínhamos mais aquela vontade de estar juntos ao modo de um casal. E olhe que ele era um rapaz muito bonito, embora de uma beleza exótica e que exija uma apreciação mais refinada (ok, talvez você não o achasse assim tão bonito). Ainda não sei como os amores – ou talvez as paixões – acabam, se dissolvem, se dissipam dessa forma. Sei que da mesma forma que um fruto maduro cai de uma árvore, nós decidimos não estar mais juntos. Como se nossas almas tivessem suprido a necessidade que uma tinha da outra, precisando então alçar vôos em outras direções. Sem nunca nos perdermos de vista, nos separamos para permanecermos, então, cada vez mais juntos.

Eu poderia, novamente, encerrar a história por aqui, e teria sido a história de um amor estranho mas mais verdadeiro do que qualquer outro que eu já tenha visto até hoje. Mas alguns epílogos se insinuam, aqui e ali, sugerindo que há novas lições a serem aprendidas. Compartilho com vocês o “resultado parcial” dessas vivências e reflexões. Parte deles é perfeitamente palpável, embora desagradável. A outra parte desses “resultados” é completamente, digamos, metafísica. E eu vou entender se você não aceitar.

A parte palpável é que eu começo a acreditar que o nascimento do amor é um acontecimento absurdo. Christina RicciAbsurdo porque sem razão, porque não se deduz de nada, porque não se parece com nada e não se explica por nada. Explico: digamos que eu tenha encontrado uma variação do meu inesquecível Davi. Isso, em um primeiro momento, sugeriria que se trata de uma pessoa muito parecida com ele. Em um sentido, é isso. Digamos que haja essa pessoa. Mas que essa pessoa seja tão parecida com meu modelo do passado que… eu simplesmente não consigo identificar o que é tão parecido entre eles. Um pouco a aparência física, um pouco os gostos, um pouco o jeito de falar, vestir, etc. Mas não são essas coisas que definem a semelhança à qual me refiro, porque esse tipo de semelhança objetiva é muito fácil de se encontrar – sobretudo quando você é jovem, como éramos naqueles dias, e anda em “tribo” com seus semelhantes. Na falta de uma expressão melhor, acho que por trás e unindo todas essas características superficiais, há uma alma. E essa alma pode ser parecida com outra alma, embora não tenhamos meios mais do que meramente “aproximativos” para perceber e falar dessa semelhança.

Acho que foi isso que aconteceu quando conheci Miguel.

Com Davi, eu aprendi que o amor não era o que eu pensava que era, e que eu era apenas uma menina carente de atenção. Com Miguel, eu aprendi que o amor é um absurdo, e que ele pode acontecer sem a menor explicação. Porque foi assim que aconteceu – pelo menos neste mundo, pois a impressão que tenho é que o conheço de outros mundos, de outras vidas.

Essa é a parte que não é palpável, a parte que pode não fazer sentido, a parte que você pode não acreditar. Nessa parte, eu preciso demais das minhas ideias malucas pra explicar o que acontece, porque eu não acho que faça sentido de outra forma. Mas eu realmente acho que existem outros mundos por aí. Outros mundos que surgem paralelamente e para os quais não há ônibus nem avião, mas que às vezes a gente visita quando sonha. E que esses mundos deveriam estar bem organizados e separados, mas às vezes se misturam e fazem com que duas almas muito parecidas acabem indo parar no mesmo mundo. E não me refiro aqui a mim e Miguel, mas a ele e Davi: são parecidos demais para não serem, em certo sentido, a mesma pessoa. Mas ao mesmo tempo, muito diferentes: Miguel jamais pediria ajuda ou faria orações, nem cairia de uma cadeira em uma homenagem exagerada. Miguel não era um artista. Pelo contrário: estudava psicologia. Mesmo que não gostasse de ser considerado um “cientista” ou “médico”, é analítico e equilibrado demais se comparado com Davi. Mas o olhar perdido em mundos de imaginação é o mesmo, o mesmíssimo que só acontece nas almas que vivem como estrangeiras nesse mundo.

Hoje, quando tento lembrar quando conheci Miguel, lembro de coisas confusas. Acho que fomos colegas de trabalho. E que foi trabalhando com ele por alguns meses, em um escritório de uma editora, que descobri nossa afinidade “espiritual”. Identidade na diferença, algo quase inexprimível. Rapidamente estávamos envolvidos o suficiente para sequer conseguir dizê-lo. Não tínhamos razões para querer estar juntos até que um dia, como um garoto, ele me roubou um beijo e andamos de mãos dadas uma tarde inteira. Terminamos aquele dia em sua casa, em uma noite inesquecível.

E absurdo e sem razões como começou, acabou. Mais rápido do que aconteceu com Davi, Miguel e eu nunca tivemos razões para ficar juntos. Não tínhamos tanto a aprender um com o outro, pois já havíamos aprendido com outras pessoas o que poderíamos ensinar um para o outro. A lição que aprendi com ele não poderia ter aprendido antes: como dizia Drummond, o amor é “sem razões”. A pessoa que sou se construiu em franca relação com Davi, e éramos profunda e superficialmente parecidos demais para que qualquer absurdo fosse possível de se ver. Mas mesmo com Davi, já era absurdo. Com Miguel, a lição foi tão profunda quanto rápida e tão rápido quanto quisemos ficar juntos, percebemos que não tínhamos porquê. Mesmo assim, continuamos nos encontrando por muito tempo.

Isso já faz algum tempo e, embora pareça não fazer sentido, a presença dele parece ter sido uma espécie de sonho. Sobretudo porque eu ainda sonho com ele. É um desses sonhos recorrentes, que faz com que, às vezes, eu não saiba exatamente se ele existiu ou eu o inventei pela mais profunda das minhas necessidades. Nos meus sonhos, assistimos o pôr-do-sol e ele afaga meus cabelos. Estamos sempre juntos e ficamos juntos de um modo que parecia improvável. E só nesses sonhos eu consigo sentir aquele sentimento que a poesia eternizou: a saudade do que não vivi. O mesmo sentimento que tive quando o vi pela primeira vez, essa saudade que talvez só ocorra entre almas que já se conhecem e, em silêncio, se saúdam. E com as lembranças desse amor absurdo e imaginário, eu sigo os dias. Imaginário ou não, só esse amor absurdo me permite ver que “as coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão. Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão.”

Ricci

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
Esse post foi publicado em Despojos, Espiando Pelo Buraco da Fechadura e marcado , . Guardar link permanente.

Uma resposta para Excertos do subsolo – Por mim, por você, pelo absurdo

  1. Oi,
    Adorei suas ideias e gostaria de pedir sua ajuda para o meu trabalho de TCC. Não é muita coisa, não vou ocupar muito o seu tempo, mas realmente queria a sua opinião. Por favor, me mande um e-mail para a gente conversar…
    Obrigada,
    Patricia

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s