A melancolia de Ernildo Stein

Capa do livro

Capa do livro

Algumas leituras serão decisivas, para o resto da vida. No caso de quem se ocupa de filosofia, essa “vida” pode ter pelo menos duas ou três dimensões: pessoal, filosófica e acadêmica. Em alguns casos, essas duas últimas podem coincidir de forma harmônica, quase se sobrepondo, se identificando. Em outros casos, a vida propriamente filosófica poderá se constituir como uma vida paralela – ou até secreta – em relação àquilo que se escreve e publica. Esse comentário está mesmo, penso, em harmonia com a apresentação da obra da qual falarei nesta postagem. E estar falando dessa obra é estar, ao mesmo tempo, tentar construir uma ponte entre a vida filosófica e a vida acadêmica. Não que este espaço seja acadêmico, longe disso. Mas em se tratando de uma obra ensaística da qual já me arrisquei a falar em uma ou duas comunicações, penso que já seja adequado prestar – aqui também, onde tento não ser acadêmico – uma humilde homenagem.

Refiro-me, como a imagem já mostra, à Melancolia, de Ernildo Stein. Obra de 1976, é composta por 14 ensaios escritos entre 1968 e 1976. Escrita de forma leve mas constituída por conteúdo extremamente denso, a obra apresenta as reflexões do autor acerca da articulação dos conceitos de “transcendência” e “finitude” na história da metafísica. Inspirado na metáfora do pombo kantiano – que supõe ingenuamente que seria mais fácil voar sem o vácuo que lhe dá sustento – Stein mostra que é possível recortar a filosofia ocidental a partir do modo através do qual esses conceitos se relacionaram. Assim, teríamos três grandes momentos: 1) o momento mais-que-filosófico (teológico, medieval, cristão), no qual a filosofia cumpria uma função de “secretariado” da teologia; 2) o momento propriamente filosófico (Hegel), no qual o pensar apanha o ser e as estruturas lógicas são também ontológicas; e 3) o momento menos-que-filosófico, no qual a ontologia existencial assume a tarefa do pensamento no horizonte da finitude. Que é, desde Hegel, o que nos resta como tarefa.

Essa tarefa, aliás, parece ser o que dá sentido ao título da obra. Logo no início Stein nos convida a pensar a melancolia como a experiência privilegiada que nos abre para a atmosfera existencial da finitude. Assinalo que talvez essa experiência não seja a única, haja visto a montanha de palavras que um Kierkegaard escreveu sobre a experiência do desespero, por exemplo. Contudo, a melancolia de Stein seria, em minha opinião, a experiência mais autêntica no que tange ao contato com a própria condição de finitude. Assumindo que Heidegger continua e radicaliza a tarefa kantiana de reflexão sobre a finita condição humana, Stein nos sugere que a transcendência é libertadora quando pensada como rescendência, e que na atmosfera da finitude a autêntica tarefa do pensamento genuinamente filosófico se torna possível. Libertos dos significantes despóticos aos quais a filosofia esteve historicamente sujeita, a filosofia, a partir da melancolia e da ontologia existencial, pode se assumir como tarefa humana.

Melancolia é um texto que certamente não pretendia, mas pode ter um caráter exortativo à estudantes, professores e pesquisadores que, “machucados pelo instrumento que manejam”, desejam respirar o ar puro da reflexão original. Por outro lado, para aqueles que reconhecem a eventual diferença entre a vida filosófica e a acadêmica mas reconhecem o relativo valor desta última, Stein nos oferece uma belíssima chave-de-leitura da história da filosofia, seccionada em quatro momentos: filosofia ontológico-metafísica (dos gregos até a modernidade), filosofia lógico-gnosiológica (Kant), filosofia lógico-ontológica (Hegel) e ontologia existencial (Heidegger). Pessoalmente, como leitor e pesquisador de Sartre e que teve sua entrada neste autor pela obra de Gerd Bornheim, Melancolia era o aporte teórico de que eu precisava para ver um pouco mais do iceberg que subjaz à ontologia fenomenológica do filósofo francês. Curiosamente (e o nota o próprio Stein) a obra literária mais famosa de Sartre, seu romance A Náusea, tinha como título provisório justamente “Melancolia”.

Comentar uma obra de 1976 e que, segundo fontes, já não é grandemente estimada mesmo pelo próprio autor parece uma empreitada inútil, e confesso que quero que o seja se isso significa não sacrificar o pensamento filosófico ao valor da utilidade (outro significante que, em minha opinião, pode ser despótico).

Para concluir e infelizmente sem tempo ou condições de comentar um a um os ensaios, me detenho por um instante naquele que parece ser o ensaio em torno do qual todos os outros fizeram sua órbita, embora tenha sido publicado já em 1968. Intitulado A ontologia da finitude e a tarefa da verdade na era do niilismo, o ensaio inicia com uma reflexão acerca de um resultado histórico da metafísica: a morte de Deus, cantada por Nietzsche e explorada por Camus quando este diz que o suicídio é uma questão de primeira ordem. Niilismo é a ausência do fundamento metafísico, mas retornar para a metafísica não parece muito razoável. A filosofia a finitude parece o único caminho através do qual se tornaria possível uma “conquista crítica e responsável da verdade na história humana”.

Com 125 páginas e publicado pela Editora Movimento, o livro parece poder ser encomendado pelo preço de R$25,00 (mas não tenho certeza: o site da editora ainda tem, em sua página inicial, link para o “catálogo 2011”). Tenho certeza de que constitui leitura agradável – e quiçá inesquecível – para interessados em metafísica e história da filosofia.

Crédito da imagem: Suzana Guerra Albornoz

Crédito da imagem: Suzana Albornoz

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
Esse post foi publicado em Despojos, Filosofança e marcado , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para A melancolia de Ernildo Stein

  1. Ezildo Antunes disse:

    Ainda vou ler essa obra! Já que palavras como: Tédio, angústia, melancolia … fazem parte do meu interesse filosófico (ao tatear com os dedos da fenomenologia)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s