De volta aos sonhos

Friedrich Nietzsche lamenta que a dialética tenha expulsado a música da tragédia. Esta, celebrando Dionísio, se definia pela música. O coro, assim, não é acessório: é essencial. Tudo o mais – o texto, a cena no palco, etc. – apenas ilustra um conteúdo comunicado diretamente pela música. É a música que se comunica diretamente com a alma, em um nível que a linguagem jamais alcançará.

Desconfio que quem, acostumado ao formato das narrativas cinematográficas, já desejou que a vida tivesse “trilha sonora” intuiu, talvez sem perceber, essa sabedoria esquecida: a música comunica algo essencial e dá o sentido das cenas projetadas na tela. Eventualmente, a canção correta será o segredo da beleza de um filme, bem como de uma lembrança, de um fim de tarde ou de um sonho (quantas vezes não dormimos ao som de música e, ao acordar, percebemos que sonhávamos com a música que tocava no recinto em que dormíamos?).

Sonho, aliás, é um tema nietzscheano. Se Descartes transforma a realidade em hipótese ao sugerir que ela pode ser um sonho, é Nietzsche que anuncia o sentido existencial dessa descoberta: a tarefa de dar sentido à existência é o verdadeiro problema humano, tarefa diante do qual o problema estatuto metafísico da realidade se dissipa, tamanha sua futilidade.

Na obra de Sartre, o sonho não aparece como um tema central, mas há uma passagem interessante sobre o assunto em seus diários de guerra, incorporada posteriormente ao seu tratado de ontologia. Na passagem, Sartre menciona o sonho para dizer que “sonho” seria a forma da existência em que não existisse o mínimo intervalo entre desejar e realizar. Nesse sentido, Deus sonha, pois deseja e realiza simultaneamente.

Ora, se Deus sonha porque deseja e realiza ao mesmo tempo, podemos concluir que nós mesmos somos criadores distraídos dos ambientes oníricos nos quais mergulhamos todas as noites. Podemos, com mais Sartre e menos Freud, prescindir das “trevas semifisiológicas” do inconsciente para explicar nossos sonhos. Para compreender as formações – eventualmente absurdas – de nossos cenários oníricos, basta que nos interroguemos do ponto de vista do nosso projeto existencial. Nossos sonhos se explicam pela mesma razão suficiente que explica a pessoa que somos na vida desperta. Somos responsáveis pela significação de dois mundos.

É de uma premissa muito parecida com essa que parte Stephen LaBerge, ao estudar o fenômeno dos sonhos lúcidos. Assim como Sartre diz que podemos deixar de “agir de má-fé” ao nos tornarmos conscientes de nossa responsabilidade por nossas existências, LaBerge sugere que podemos, durante o sono, nos tornar conscientes de que estamos sonhando. E que tal experiência descortina todo um universo de possibilidades de autoconhecimento. Afinal, a principal vantagem de um sonho lúcido com relação a um sonho comum é que, ao sabermos que estamos sonhando, somos criadores e mestres de nosso próprio mundo particular.

Esse é também o argumento de Richard Linklater, em seu Waking Life (2001). Em uma hora e meia de animação, Linklater compõe um cenário no qual o estatuto metafísico da realidade, como em Nietzsche, não é o importante. Afinal, a existência consciente, sonhada ou desperta, é apenas a circunstância para uma jornada de autoconhecimento. E aqui voltamos à Nietzsche: depois de propor a futilidade da realidade metafísica diante da importância das experiências, Linklater aparece de corpo presente para dizer que “tudo se passa como se um demônio estivesse empenhado em nos fazer esquecer da imanência de Deus e da eternidade do instante presente”, verdades que esquecemos através de ilusões como nossas ideias de “ego” e “tempo”.

Os sonhadores

Desse modo, somos definitivamente feitos da mesma matéria que compõe os sonhos. A existência é a tarefa da criação do significado da própria existência. Enquanto metáfora, o sonho ilustra de modo privilegiado que a existência consciente tem diante de si sempre a mesma tarefa, a despeito do estatuto metafísico do plano em que se encontre. A possibilidade do sonho lúcido é análoga a possibilidade da vida lúcida e autoconsciente. Tal possibilidade é coexistente com uma ameaça iminente, a saber, a de que a vida possa se passar ao largo dessa mesma possibilidade. Como um sono cujos sonhos são esquecidos ao despertar, a vida desperta também pode ser uma história de esquecimento do próprio sentido.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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2 respostas para De volta aos sonhos

  1. Beto disse:

    Parabéns, consegue perceber o significado dos sonhos, vida, realidade, fantasia… Continue assim!

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